Segunda-feira, 14 de Abril de 2014

Reflexões sobre uma expedição falhada ao Cabeça da Mina

Os leitores recordarão certamente a recente notícia, que também por esta gazeta virtual ecoou, de que o concelho de Vila Flor acabara de ganhar um sítio classificado, mais concretamente o Cabeço da Mina, local de primaz interesse arqueológico por datar da Idade do Bronze, contando por isso com cerca de 4000 anos!

 

Ora, imbuído pela curiosidade e pelo orgulho vilaflorense, decidi aproveitar uma recente deslocação ao nosso concelho para visitar in loco o referido Cabeço da Mina com o fito de poder (ad)mirar na primeira pessoa o património que aí os nossos rupestres antepassados lograram edificar e, logicamente, tirar umas fotografias de modo a poder partilhar o experimento com os leitores.

 

Para esse ensejo, realizei uma busca na internet para me inteirar sobre a exacta localização do citado património calcolítico, coisa que veio a ocorrer (não sem alguma dificuldade) no próprio sítio virtual do IGESPAR, o organismo que vela pelo património classificado. Aí, encontrei um mapa (anexo aqui em baixo) que posiciona o Cabeço da Mina entre as aldeias de Assares e Lodões, mesmo na fronteira com o concelho de Alfândega da Fé, portanto mesmo à beira da ribeira da Vilariça.

 

 

Pois bem, confrontando o referido mapa do IGESPAR com um dos mapas virtuais mais fiáveis, gizei uma rota desde Carvalho de Egas até à EN 102, planeando depois virar à direita algures entre Lodões e Assares (pouco após o nó rodoviário do IP2/IC5), para um caminho de terra batida, conforme sugeriam as indicações recolhidas.

 

Ora o problema ocorreu precisamente neste último passo: onde virar concretamente. Contara eu que um local de importância tão assinalável, património classificado, datando de cerca de 2000 a.C., detivesse uma placa, singela e humilde que fosse, para orientar o visitante curioso rumo ao monumento calcolítico. Nada disso! Ao invés, surgem nessa zona da EN 102 três caminhos de terra batida, mas em nenhum se encontra qualquer indicação, qualquer pista que possa guiar o turista no sentido correcto.

 

Ora, sem saber qual das três vias rudimentares seguir, e não querendo arriscar a sanidade da viatura numa qualquer caça aos gambozinos por caminhos de cabra desconhecidos, optei por voltar para trás e encarar o falhanço da expedição com desânimo. Nem Cabeço, nem Mina, nem coisa nenhuma se visitou…

 

E nessa inglória viagem de regresso à base, ocorreu-me: isto não é caso virgem! Já por mais de uma vez tentei em vão visitar alguns locais de interesse histórico/arqueológico/etnográfico no nosso concelho sem sucesso devido a ausência de placas indicativas que guiem para esse dito local.

 

Mas o raciocínio que este explorador derrotado que vos escreve elaborou nessa fatídica viagem de retorno foi mais longe! Cheguei à temerosa conclusão que, por exemplo, a minha própria aldeia natal (Carvalho de Egas) está desprovida de uma(!) única placa que seja que assinale pelo menos a Igreja Matriz ou a Capela Quinhentista, bem como quaisquer outros pontos de potencial interesse que aqui se encontrem: o carvalho que dá nome à terra, a antiquíssima estalagem (quiçá única no concelho), ou a curiosa formação rochosa dos mal casados, etc. Reitero: nem uma placa! Alguém que por aqui passe (e não esqueçamos que a aldeia é atravessada de lés a lés por uma estrada nacional) fica com a ideia de que passa por um povoado desprovido de património e órfão de história.

 

E essa pesarosa constatação é aplicável a muitas das povoações do concelho, onde os pontos de interesse que o internauta encontra descritos em muitas publicações on-line, se encontram parcial ou totalmente desassinalados no mundo real. Uma notável excepção a esta ‘regra’ é Freixiel, onde os pontos de interesse estão convenientemente indicados por placas (que até contêm uma fotografia do que o visitante irá encontrar). No restante território do município (incluindo a própria sede), de uma maneira geral e salvo algumas excepções, a informação é parca, as placas rareiam e as indicações inexistem.

 

Assim, infelizmente podemos constatar uma coisa: ou o visitante já vem previmente munido com um guia autóctone, alguém que seja da freguesia que pretende visitar, ou então arrisca-se a não encontrar os pedaços de história espalhados pelos vários pontos do concelho que, para além de grandemente abandonados e maltratados, ainda se encontram, de algum modo, escondidos.

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Publicado por Ilídio Monteiro Alves às 10:10

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Segunda-feira, 7 de Abril de 2014

CANTIGAS POPULARES DE TRÁS-OS-MONTES XXXI

O ANEL QUE TU ME DESTES

 

O anel que tu me destes

Trago-o no dedo nédinho[1];

Cada bês que tu ma lembras,

Ò anel dôu um beijinho.

 

Luzerna[2] de três luzes

Q’afumas[3] catro[4] cantos;

Nom[5] te quero, ò m’nina

Q’ és combersada[6] de tantos.

 

Amore, p’la tua bida

Munto[7] p’la tua caridade,

Tira-me desta ribeira

Leba-me àquela cidade.

 

Anéles[8] doiro num[9] é prenda

Nãi[10] o de prata lambrança[11];

Anel de cuntinhas pretas

Requere todà[12] cunfiança[13].

 

Trazeis o tchapéu bàixinho

Mandai-o arredundar[14];

Debaixo do tchapéu anda

Òlhinhos de namorar.

 

O setestrelo[15] bai alto

O cajato[16] bai birando;

Menina abra-m’a[17] porta

O sono já me bai dando.

 



[1] Mendinho.

[2] Candeia de azeite.

[3] Que defumas.

[4] Quatro.

[5] Não.

[6] Namorada.

[7] Muito.

[8] Plural irregular de anel.

[9] Não.

[10] Nem.

[11] Lembrança.

[12] Toda a.

[13] Confiança.

[14] Arredondar.

[15] Nome vulgar do grupo de estrelas celestes.

[16] Cajado.

[17] Abre-me a.

Publicado por Jofre de Lima Monteiro Alves às 01:00

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Terça-feira, 1 de Abril de 2014

Exposição “Maria Keil – Itinerários Artísticos”











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Publicado por Jofre de Lima Monteiro Alves às 14:14

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Sexta-feira, 21 de Março de 2014

Outros Concelhos dentro do Concelho de Vila Flor

Todos conhecemos o concelho de Vila Flor actual, as suas fronteiras e limites, estendendo-se do Tua à Vilariça, da Alagoa a Macedinho. Mas e no passado? Ao longo dos séculos, tem tido sempre estes limites?

 

Não, e tal nem sequer seria espectável, uma vez que raros são os concelhos (se é que existe algum) que tenha tido as suas fronteiras inalteradas ao longos dos tempos, até porque, na realidade, os pouco mais de 300 concelhos que existem hoje, constituem apenas uma parcela do número total de concelhos que existiam noutros tempos.

 

De facto, e sendo Portugal um país de tradição municipalista, tradicionalmente o mapa nacional estava polvilhado de autarquias dos mais variados tamanhos e tipos, havendo um Concelho, Reguengo, Honra ou Couto a cada esquina, principalmente no norte e centro de Portugal, sendo que, por exemplo, no território do actual município de Idanha-a-Nova, estão compreendidos 11 antigos concelhos!

 

Este estado de coisas foi alterado pelos liberais triunfantes em 1833/34, que trataram de efectuar uma reforma administrativa, em  1836, que, para além de suprimir os forais que desde sempre tinham governados as populações, resultou também na supressão de 351 dos 826 concelhos existentes. Até ao fim do século XIX, outras supressões de municípios se seguiram (com algumas reversões, após largos e sangrentos protestos por parte da população, como foi  caso do vizinho concelho de Alfândega da Fé) e o número de concelhos fixou-se em 291 em 1911, cifra que nos cem anos seguintes aumentou para os 308 actuais.

 

Esta reforma, pode parecer algo de menor importância, ou até algo de necessidade evidente, pois muitos dos 826 concelhos existentes na aurora do século XIX, não passavam de minúsculos vilarejos com poucas centenas de habitantes e por se poder considerar os forais como um instituto ultrapassado (nalgumas partes de Espanha ainda estão em vigor nos dias de hoje...), mas foi algo profundamente traumático para as populações locais, que viram desaparecer num ápice todos os sinais de poder local (câmara, juiz, companhia de ordenanças, etc), que eram a base da incipiente vida mercantil da zona, o que se traduziu, inevitavelmente, num processo de acentuado declínio económico e social dessas vilas e consequentemente, das suas gentes.

 

Nalguns casos, como no infame caso de Monforte do Rio Livre, no actual concelho de Chaves, onde, sendo extinto o concelho em meados da centúria de 1800, não foram precisas mais do que 4 ou 5 décadas, para que a antiga sede de concelho se encontrasse completamente abandonada.

 

Porém, prossigamos ruma à questão que aqui nos trás: e como era o panorama no actual território de Vila Flor há dois séculos, antes do inícios das supressões de concelhos em massa que o regime liberal levou a cabo? Como se pode ver nos mapas anexos, no território actual do município de Vila Flor, existiam antes das sucessivas reformas liberais, cinco autarquias: Vila Flor, Freixiel, Sampaio, Vilarinho da Castanheira e Vilas Boas. E como se pode observar do mapas, nos casos de Vilas Boas e Sampaio ocorreu uma absorção total dessas municipalidades, ao passo que no que toca a Freixiel e a Vilarinho da Castanheira, Vila Flor anexou apenas parte desses antigos municípios: em Freixiel a absorção foi quase integral; já do Vilarinho, apenas se anexou a metade norte, que constitui hodiernamente a ponta sul do concelho de Vila Flor. 

 

 

O actual mapa do concelho de Vila Flor, como o conhecemos hoje em dia.

 

 

 Mapa com o antigos concelhos que existiam no território de Vila Flor, na alvorada do Século XIX

 

 

Nota: nas próximas semanas iremos escrevinhar algumas notas sobre cada um desses antigos concelhos, desde o seu nascimento até à sua morte e integração em Vila Flor.

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Publicado por Ilídio Monteiro Alves às 10:10

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Sábado, 8 de Março de 2014

Resumo da entrevista do Presidente da Câmara de Vila Flor ao Mensageiro de Bragança

 

O semanário brigantino "Mensageiro de Bragança" conduziu uma entrevista a Fernando Barros, presidente da Câmara Municipal do nosso  concelho, onde o edil faz o balanço dos primeiros meses à frente dos destinos  da autarquia vilaflorense, bem como discutes alguns dos temas do futuro da autarquia.

 

Efectuamos um resumo da entrevista, sem quaisquer fitos 'politiqueiros' e muito menos partidários (campos onde este blogue nunca se intrometeu), mas antes por se considerar relevante uma entrevista que o autarca número um do município dá a um dos órgãos de comunicação mais importantes do distrito, e que poderá ter passado despercebido a alguns vilaflorenses.

 

O primeiro tema que o autarca abordou, foi a questão das águas, cujos tarifários podem vir a subir, por ordem da administração central. Fernando Barros assume a sua oposição à medida que "prevê que o utilizador pague o custo do serviço que lhe é oferecido", o que poderá significar "para Vila Flor, de acordo com as expectativas do organismo regulador, ao abrigo de toda a estrutura legislativa que está aprovada, teremos aumentos, num horizonte de cinco anos, de 429 por cento", pelo que, remata, "numa  altura de crise [...], não há forma de justificar isto". Defende que as "tarifas devem ser competência dos municípios e não de um organismo regulador que se vai sobrepor a eles" uma vez que os municípios têm autonomia e propôe antes um um "aumento muito gradual das tarifas" já que "numa altura de crise, ter de impor às pessoas aumentos quatro vezes superiores, quando me batem à porta a pedir emprego e outras coisas, não se justifica". Ainda assim confidencia que ainda alimenta  a esperança que a medida não avance.

 

Revela-se ainda crítico da chamada Lei dos Compromissos, que, relembre-se, veda aos município a capacidade de contrair nova dívida sem acordo do Estado-Central, por tratar, como considera, por igual todas os concelhos, sem distinguir entre "cumpridores e os que têm dívidas elevadas", recordando que o município Vila Florense não recorre a empréstimos há vários anos e que tem apenas "uma dívida a longo prazo de cerca de três milhões de euros", tendo ainda "dinheiro em tesouraria suficiente para pagar os fornecedores". Assim,  denota que "nós, que mostrámos durante 20 anos que sabíamos gerir, gastar só o que temos, somos obrigados a cumprir uma lei que é um garrote a uma gestão muito equilibrada", pois "obriga-nos a cumprir determinados procedimentos que não facilitam em nada a gestão da administração", "sobretudo para Câmaras pequenas".

 

Para o futuro, projecta essencialmente a requalificação da Praça da República, o "coração de Vila Flor". Nas palavras do autarca: "É um projeto que já temos em carteira há uns tempos e que não conseguimos candidatar neste quadro comunitário mas que gostaria de ver executado". Pensa ainda em proceder à requalificação do Museu Municipal, tanto no edifício em si, como no conteúdo que  !precisa de ser informatizado, catalogado, porque se pode perder".

 

Traça ainda um elogio à Santa Casa da Misericórdia Local, "a maior empregadora do concelho": "Tem seis lares, vários centros de dia e uma cobertura a cem por cento do concelho. É uma instituição que tem 210 funcionários, uma Unidade de Cuidados Continuados, farmácia, uma quinta, uma padaria, enfim, é uma instituição grande" que ajuda a dar resposta aos problemas sociais do concelho, nomeadamente dando "resposta às necessidades dos mais idosos".

 

Realça ainda a política de "não sobrecarregar as pessoas" que o executiva tenta seguir, nomeadamente no que toca as taxas e tarifas, lembrando que "somos um dos cinco municípios que não cobram nada pela recolha de resíduos [...]. Ficamos com dois por cento do IRS e damos três aos munícipes. O IMI é o mais baixo que a lei permite", tudo para que a crise não signifique que o "município saia incólume mas [com] as pessoas [a] ficarem cada vez mais prejudicadas, mais enterradas." E, mesmo reconhecendo as dificuldades financeiras dos tempos presentes, não pretende mudar de linha: "Tem de ser. Se a lei me permitir é assim que irei trabalhar".

 

Intui ainda que deve ser apenas a união dos Municípios da região pode contribuir para o desenvolvimento: "temos de criar infraestruturas de desenvolvimento no concelho, de promover o desenvolvimento, mas não de uma forma isolada", pois "sentimos que cada vez mais o processo individual acabou." Nesse âmbito, demonstra-se tenaz opositor dos sucessivos encerramentos de serviços que assolam a região: "Não posso ser a favor do fecho dos tribunais. O tribunal de Vila Flor nunca esteve em causa fechar mas tenho de ser solidário com os outros. E sou. Estou a ser solidário com a região e com os meus vizinhos. Não posso concordar com o fecho dos tribunais porque todos nós temos o direito – pois não temos descontos nos impostos – e temos o direito de sermos servidos como qualquer outro cidadão."

 

Prossegue, criticando os fechos de serviços alertando que podem vir a ser extensíveis "às Finanças, à Segurança Social" entre outros. Opina até que "fica bem a toda a gente dizer que devíamos reivindicar uma discriminação positiva", pois argumenta "se vivemos numa zona mais desertificada, com mais problemas, então devíamos, até, ser mais beneficiados e não sofrer as consequências de quem está no Poder Central e decide numa folha de Excel". Conclui em resumo que o "processo de encerramentos é um contra-ciclo" que "leva o país à ruína porque isso não é planear". Eu sua opinião "devíamos era incentivar os investidores para que viessem cá investir". Nesse sentido considera que as obras nas vias comunicacionais (IP2, IC5 e A4), são positivas, pois "os restaurantes e a própria hotelaria dizem que hoje há mais facilidade em chegar cá. Mas também há mais facilidade em sair", pelo que as novas estradas também "vieram beneficiar muito o escoamento das águas Frize, dos cogumelos da Sousacamp" algumas das indústrias mais proeminentes do concelho. Ainda assim, alerta que as melhorias "não se registam de um momento para o outro, demoram algum tempo". 

 

Noutros campos, congratula-se com o desenvolvimento que  o desporto tem vinda a registar no município. Ao mesmo tempo que dá ênfase à performance recente do Vila Flor SC, revela que "o mais animador é a prática desportiva das crianças, dos jovens, dos idosos, dos mais velhos. E para esses as infraestruturas do município estão sempre à disposição", relembrando que "temos um estádio municipal com uma relva artificial com a avaliação FIFA duas estrelas, excelente. Temos uma pista de tartan, o estádio está disponibilizado gratuitamente para todas as associações do concelho e até grupos que se juntem. Temos um pavilhão excelente, requalificado, uma piscina coberta das melhores e aberta, gratuitamente. Temos vários polidesportivos e campos de terra batida".

 

 

 

 

 

 

 

A entrevista completa pode ser consultada em: http://www.mdb.pt/noticia/deviamos-ser-mais-beneficiados-por-vivermos-numa-zona-desertificada-2343.

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Publicado por Ilídio Monteiro Alves às 10:10

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Sábado, 1 de Março de 2014

FERNÃO VAZ DE SÃO PAYO

Um Grande Fidalgo de Vila Flor

 

Por: Jofre de Lima Monteiro Alves

 

    Fernão Vaz de São Payo ou Fernão Vasques de São Payo, nasceu cerca de 1380, filho primogénito e co-herdeiro de Vasco Pires de São Payo[1] e de sua mulher, cujo nome se ignora.

 

ÁRVORE DE COSTADOS DE FERNÃO VAZ DE SÃO PAYO

Próprio

Pais

Avós

Fernão Vaz de São Payo

 

N. 1380

F. 1449

Vasco Pires de São Payo

N. 1340

Pedro Anes do Souto

N. 1300

D. Francisca Pais de São Payo

N. 1320

 

 

 

 

    Foi moço fidalgo da Casa Real[2]; carta de autorização para Vasco Pires de São Payo dividir a sua grande casa pelos dois filhos mais velhos, Fernão Vaz de São Payo e Lopo Vaz de São Payo, por mercê do Rei Dom João I (31 de Agosto de 1398); mercê do direito de pousada nas suas quintãs, coutos e honras, situadas em Panóias, termo de Vila Real, e em Além dos Montes, por carta de Dom João I (27 de Fevereiro de 1400); proprietário; 5.º Senhor da Honra de São Paio, por herança paterna (1403); 2.º Senhor de Vila Flor, como herdeiro de seu pai (1403); Senhor de Torre de Moncorvo, por herança paterna (1403); Senhor de Mós, como herdeiro de seu pai (1403); Senhor de Vilas Boas e seu termo, por herança paterna (1403); Senhor de Parada de Pinhão, como herdeiro de seu pai (1403); Senhor de Frechas, por herança paterna (1403); 2.º fronteiro da vila de Torre de Moncorvo, de Vila Flor e da vila de Ansiães (1403); 2.º coudel das coudelarias de Anciães, Vila Flor, Torre de Moncorvo, Lamas, Mós, Vilarinho da Castanheira, Vilas Boas e de outros lugares (1403); chefe da linhagem e da família São Payo (1403 – 1449); vassalo d’El-Rei (1409); mercê a Fernão Vasques de São Payo, vassalo real, da confirmação duma carta que el-rei dera a seu pai Vasco Pires e pela qual as aldeias de Sampaio e Cardenha, termo de Vila Flor, eram suas e por isso não pagavam peitas, fintas e talhas ao concelho de Vila Flor por decisão deste, conforme se mostrou por um público instrumento feito por Vasco Esteves, tabelião da vila, por isso el-rei mandara que Sampaio houvesse por termo Cardenha e Vilarelhos, por carta régia de Dom João I dada em Santarém (19 de Abril de 1410)[3]; carta régia de confirmação a Fernão Vaz de todos os foros, rendas, direitos, pertenças e portagens das vilas de Vila Flor e Vilas Boas e seu termo, e de metade da aldeia da Quintela de Lampaças, que seu pai Vasco Pires lhe cedera «por quanto era filho mor do dito Vasco periz, sem dar dellas partilhas a seus Jrmaãos» (1 de Março de 1413); cavaleiro fidalgo da Casa d’El-Rei Dom João I, com a moradia de 8.900 libras (1414)[4]; carta de Dom João I para o abade Martim Aires se defender perante o Juiz dos Feitos da acusação feita por João Álvares, Fernão Vasques da Cunha e Fernão Vasques de São Payo de que teria adquirido bens reguengos para a erecção dum capela que instituíra na igreja de Santo Tirso (26 de Agosto de 1427)[5]; carta régia de confirmação da doação que lhe fez seu pai, dos foros, rendas, direitos, pertenças e portagens da vila de Moncorvo e seu termo, dada no Porto pelo rei Dom João I (28 de Julho de 1433)[6]; carta régia da confirmação de cinco cartas de Dom João I da doação de juro e herdade de todas os direitos, rendas, foros e portagens das vilas de Anciães, Vilarinho da Castanheira, Vila Flor, Torre de Moncorvo e Mós e seus termos, outra da metade da aldeia de Quintela de Lampaças, também de todos os foros, rendas, direitos, pertenças e portagens da vila de Moncorvo e seu termo, assim como todos os foros, rendas, direitos, pertenças e portagens da vila de Mós e seu termo e ainda de todos os foros, rendas, direitos, pertenças e portagens das vilas de Vila Flor e Vilas Boas com todo seu termo, e de metade da aldeia da Quintela de Lampaças, tudo confirmado pelo Rei Dom Duarte a Fernão Vasques de São Payo como filho de Vasco Pires de São Payo (26 de Maio de 1434)[7]; carta régia de confirmação da doação que lhe fez seu pai da vila de Mós e seu termo, dada por Dom Duarte em Évora (10 de Maio de 1435); mercê da doação das honras de S. Cibrão e Lamares, no termo de Vila Real, a Fernão Vasques de São Payo, «vassalo do rei», por carta d’El-Rei Dom Duarte (14 de Março de 1437)[8]; uma carta de confirmação da doação para sempre de 48 alqueires de pão que tinha na honra de S. Cibrão e 36 alqueires que tinha na honra de Lamares, ambas na terra de Vila Real (24 de Março de 1437); Dom Afonso V confirma a nomeação de Gonçalo Eanes, criado de Fernão Vasques de São Payo, no cargo de juiz dos feitos das sisas da Torre de Moncorvo e seu termo (9 de Setembro de 1439)[9]; fidalgo da Casa Real (1439); carta régia de confirmação da doação que lhe fez seu pai do senhorio das vilas de Vila Flor e Vilas Boas e de metade de Quintela de Lampaças e dos direitos que pertenciam a seu pai, «por ser filho maior do dito Vasco Pires, sem dar dellas partilhas a seus irmãos», dada em Santarém por El-Rei Dom Afonso V (1 de Março de 1441)[10]; escudeiro da Casa do Regente (1443); carta régia de Dom Afonso V de confirmação da doação de Vila Flor e seu termo, com a sua jurisdição, a Fernão Vasques de São Payo e da mesma forma que a tinha seu pai Vasco Pires (11 de Janeiro de 1444); carta régia de Dom Afonso V de mercê a Fernão Vasques de São Payo da doação «para sempre» da Terra e Julgado do Chacim, terra de Vale de Sancha e Quintela de Lampaças, bem como os bens móveis e de raiz que tinham pertencido a João Nunes de Aguilar e de Pedro Nunes, que os perderam por terem ido para Castela (11 de Março de 1444); mercê das terças das igrejas de Mós e Urros; 1.º Senhor da Bemposta, na sua família.

 

    Faleceu em 1449[11] e foi sepultado sob o segundo arco da nave esquerda da Igreja de Santa Maria dos Olivais, em Tomar, em sepultura com lápide sepulcral armoriada, com a seguinte inscrição: “Aqui jaz Fernã de Sãpaio, Cavalleiro fidalgo, criado delrei dom Afonso, e sua filha Mª de Sãpaio”[12].

 

    Casou pela primeira vez, em 1417, com D. Senhorinha Pereira[13], filha de D. Henrique Pereira, comendador de Poiares; com geração.

 

    Casou em segundas núpcias, em 1445, com D. Joana de Sousa e Alvim[14], nascida em 1425, filha de Pedro de Sousa, alcaide-mor de Bragança, e de D. Margarida de Alvim; sem geração.

 

    Filhos do primeiro casamento:

1 – D. GENEBRA PEREIRA, nasceu em 1419.

Casou em 1439 com Aires Ferreira, nascido em 1399, Senhor do Morgadio do Casal de Cavaleiros e vedor das obras reais de Entre-Douro-e-Minho[15].

2 – VASCO FERNANDES DE SÃO PAYO, nasceu em 1420.

6.º Senhor de São Paio e 3.º Senhor de Vila Flor; casado e com geração.

3 – LUÍS VAZ DE SÃO PAYO, nasceu em 1422.

Cavaleiro fidalgo da Casa Real com 1700 réis de moradia (1462)[16]; casado e com geração.

4 – D. MARIA DE SÃO PAYO, nasceu em 1424.

Sepultada conjuntamente com seu pai na Igreja de Santa Maria dos Olivais, em Tomar, em sepultura com lápide sepulcral armoriada.

    Filho bastardo de Fernão Vaz de São Payo, havido de Leonor Afonso, mulher solteira:

5 – LOPO VAZ DE SÃO PAYO, nasceu em 1430.

Foi legitimado por Dom Afonso V (1453).

 


[1] Manuel Felgueiras Gayo, Nobiliário de Famílias de Portugal, IX volume, tomo XXVI, Braga, 1990, p. 262; Jofre de Lima Monteiro Alves, Vasco Pires de São Payo: Um Grande Fidalgo de Vila Flor, 2013.

[2] Francisco Manuel Alves, Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança: Os Fidalgos, tomo VI, Bragança, 1981, p. 432.

[3] ANTT, Chancelaria de Dom Manuel I, livro 28, fl. 104v.

[4] Comissão Executiva das Comemorações do V Centenário da Morte do Infante D. Henrique, Monumenta Henricina (1431-1434), volume IV, Coimbra, 1962, p. 233.

[5] Arquivo Distrital do Porto, Convento de Santo Tirso, PT/ADPRT/MON/CVSTST/0201, fl. 289.

[6] Francisco Manuel Alves, Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança, tomo IV, Bragança, 1981, p. 231.

[7] ANTT, Chancelaria de Dom Duarte, livro 1, fl. 98.

[8] ANTT, Chancelaria de Dom Duarte, liv. 1, fl. 141.

[9] ANTT, Chancelaria de Dom Afonso V, livro 19, fl. 41.

[10] ANTT, Chancelaria de Dom Manuel I, livro 28, fl. 14v.

[11] Luiz de Mello Vaz de São Payo, As Distracções de D. António Caetano de Sousa, Lisboa, 1979, p. 13.

[12] Luciano Cordeiro, Vésperas do Centenário da Índia: Inscripções Portuguezas, Lisboa, 1895, p. 22.

[13] Corografia Portuguesa, tomo I, cap. 22, fl. 470.

[14] D. Joana de Sousa e Alvim casou em segundas núpcias, em 1451, com Fernão de Sousa Camelo, senhor da jurisdição de Roças (1453) e fidalgo da Casa Real (1462), de quem foi segunda mulher.

[15] Manuel Abranches de Soveral, Ensaio Sobre a Origem dos Ferreira: Os Ferreira de Aguiar de Sousa e sua Descendência até ao Século XV.

[16] Manuel Felgueiras Gayo, Nobiliário de Famílias de Portugal, volume VIII, tomo XXII, pp. 199 e 200; D. António Caetano de Sousa, Provas da História Genealógica da Casa Real Portuguesa, tomo II, I parte, p. 31.

Publicado por Jofre de Lima Monteiro Alves às 01:01

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Sábado, 15 de Fevereiro de 2014

Cabeço da Mina, em Vila Flor, é Sítio Classificado

O Cabeço da Mina, no concelho de Vila Flor, distrito de Bragança, acaba de ser classificado Sítio de Interesse Público, num processo com quase duas décadas para reconhecimento do lugar considerado dos mais importantes achados da pré-história portuguesa.

 

A decisão do secretário de Estado da Cultura, Jorge Barreto Xavier, foi hoje publicada em Dário da República, e realça a importância deste sítio arqueológico que se julga tratar-se de um santuário pré-histórico, datável do Calcolítico, da Idade inicial do Bronze, entre 2000 a 1800 antes de Cristo.

 

O Cabeço da Mina situa-se numa pequena elevação no vale da Ribeira da Vilariça e há várias décadas que tem despertado o interesse dos arqueólogos, tendo-se iniciado em 1997 o processo de pedido de classificação do mesmo.

 

O fértil Vale da Vilariça, em Trás-os-Montes, é conhecido pela "notável aptidão agrícola propícia ao estabelecimento de populações, desde a época pré-histórica", segundo a descrição que sustenta a classificação deste sítio.

 

O Cabeço da Mina será um vestígio desta antiga ocupação e os trabalhos arqueológicos que ali têm sido realizados "deram a conhecer um importante alinhamento de estelas decoradas, tendencialmente retangulares, que deveriam circundar todo o cabeço ainda não explorado na totalidade".

 

A decisão de classificação sustenta que "a importância deste sítio, interpretado como espaço de caráter sagrado, se relaciona não só com o tipo de implantação e potencial arqueológico que ainda possui, como com a quantidade relevante destes exemplares, o mais numeroso conjunto proveniente de uma só estação, e um dos mais importantes da Península Ibérica".

 

A secretário de Estado concluiu que o Cabeço da Mina reúne todos os critérios para ser classificado Sítio de Interesse Público pelo "interesse do bem como testemunho simbólico ou religioso, a sua importância do ponto de vista da investigação histórica e científica e pelas circunstâncias suscetíveis de acarretarem diminuição ou perda da sua perenidade ou integridade".

 

Também hoje foi publicado em Diário da República a abertura do processo para a classificação de outro monumento no distrito de Bragança, a Torre do Relógio em Alfândega da Fé.

 

O procedimento visa a classificação como Imóvel de Interesse Municipal com a categoria de monumento, e parte da iniciativa da Câmara de Alfândega da Fé.

 

A partir deste momento, o imóvel beneficia de uma zona de proteção especial que impede a concessão de licenças para obras de construção ou para intervenções no bem sem parecer favorável da administração do património cultural competente.

 

Quem tiver algo a opor a este processo de classificação da Torre do Relógio de Alfândega da Fé pode reclamar ou interpor recurso no prazo de 15 dias, a partir de hoje.

 

 

 

 

 

 

Notícia  e imagem retiradas de PortoCanal.sapo.pt. Todos os direitos reservados à referida entidade.

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Sábado, 8 de Fevereiro de 2014

Programa de Prevenção do "Bullying"

O bullying pode ser definido como a prática sistemática de actos agressivos, com vista a inflingir em outrem violência psicológica ou física, particularmente incidente em ambiente escolar. É um termo anglófono que serve para designar as seculares práticas dos brutamontes do recreio, que perseguem, batem ou insultam uma determinada vítima repetidamente, normalmente, alguém indefeso.

 

Este fenómeno está cada vez mais mediatizado, começando os casos de "bullying" a ter, portanto, maior importência no seio das comunidades escolares, sendo uma das questões que mais vai preocupando, nos nossos dias, pais, professores e alunos.

 

Pois bem, Vila Flor passou para a linha da frente no combate as estas práticas vexatórias nos recreios das nossas escolas e tomou as rédeas ao assunto, organizando  uma série de acções de prevenção que têm decorrido em vários estebelicimentos escolares do concelho desde a última semana de Janeiro e que se prolongará até meados de Fevereiro.

 

As acções de formação e sensibilização ficam a cargo do Gabinete de Psicologia do município e visam, antes demais, sensibilizar todos os membors da comunidade educativa para a existêcnia do problema, para os efeitos nefastos que tais actos podem causar nas vítimas, suas famílias e comunidades e acima de tudo previnir ou detectar potencias casos de "bullying".

 

É uma iniciativa que junta a Câmara Municipal, a Santa Casa da Mesiricórdia e o Centro de Saúde local e que se insere no âmbito da Unidade Móvel de Saúde, projecto que procura trazer os temas da saúde ao seio das populações.

 

 

 

 

Fontes: Rádio Renascença, CM de Vila Flor e PortoCanal.

 

 

 

 

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Sábado, 1 de Fevereiro de 2014

DR. FERNÃO DA MESQUITA

Um Magistrado Régio Natural de Vila Flor

 

Por: Jofre de Lima Monteiro Alves

 

Fernão da Mesquita nasceu em Vila Flor cerca de 1440, quinto filho varão de Martim Gonçalves Pimentel e de D. Inês Esteves da Mesquita[1].

 

ÁRVORE DE COSTADOS DE FERNÃO DA MESQUITA

Próprio

Pais

Avós

Dr.   Fernão da Mesquita

 

N.   Vila Flor 1440

 

F.   Lisboa 1519

Martim   Gonçalves Pimentel

 

N.   1410

F.   1481

Frei   Álvaro Gonçalves Pimentel

 

D.   Inês Esteves da Mesquita

 

N.   Vila Flor 1421

F.   Vila Flor 1472

Estêvão   Pires da Mesquita

Beatriz   Vaz Moutinho

 

Estudante de latim; habilitado em Braga com ordens menores, sendo identificado com nome de «Fernam Martinz, filho do dito Martim Gonçalluez de Villa Frroll e da dicta sua mollher Ines da Mizquita da dicta frreiguesia» de «Sam Bertolameu de Villa Froll desta diocese», em companhia de seus irmãos Álvaro Martins da Mesquita e Luís Martins Pimentel (23 de Setembro de 1452)[2]; cavaleiro da Casa Real; condenado pela morte de João de Mós, criado de Vasco Fernandes de Sampaio, com pena de agravo e degredo de sete anos para as partes de Ceuta (1470); como homiziado participa na armada do rei Dom Afonso V que partiu para a conquista de Arzila e Tânger, em Marrocos (Agosto de 1471); perdoado o degredo de sete anos a que fora condenado, na sequência do perdão geral outorgado aos homiziados que serviram na armada e conquista de Arzila e Tânger, por carta régia do rei Dom Afonso V (14 de Novembro de 1471); aluno da Universidade de Siena (1474); formado na Universidade da «Lorena por não haver universidade neste Reino»[3]; doutor em Leis (1476); oficial redactor dos documentos da Chancelaria Régia (1476 – 1492)[4]; colocado no Desembargo e Petições (1476); identificado como doutor Fernão da Mesquita, subscreve em conjunto com o dr. Diogo da Fonseca, uma carta de perdão do Desembargo do Paço (29 de Novembro de 1476)[5]; um criado de Fernão da Mesquita é provido no ofício de tabelião das notas de Arronches (27 de Fevereiro de 1483); subscreve com o doutor Diogo de Lucena uma carta de perdão, assinando como sendo do Desembargo e por ausência dos Desembargadores do Paço (13 de Dezembro de 1485); chanceler-mor interino da Chancelaria-Mor da Corte e do Reino de Portugal (1491); Juiz Desembargador dos Agravos da Casa da Suplicação e do Desembargo do Rei, tendo para seu mantimento 500.000 reais de prata, com todas as honras e liberdades, por carta régia do rei Dom João II (29 de Janeiro de 1492); proprietário no Alentejo; mercê régia da doação de umas casas em Évora (1492); instituidor e 1.º Senhor do Morgado de Sovereira, em Portel[6] (1493); subscreve em conjunto com o licenciado Aires de Almada, ambos desembargadores dos agravos, a carta de perdão a Álvaro Carvalho, lavrador no termo da vila de Alenquer, por ter ferido a Fernão Álvares Preto (21 de Março de 1496); subscreve em conjunto com o licenciado Aires de Almada, ambos desembargadores dos agravos, a carta de perdão a Branca Fernandes, moleira, mulher de João Pires, moradora no termo de Alcobaça, «que pecara na lei do casamento com Estêvão Gil, clérigo de missa» (21 de Março de 1496); subscreve em conjunto com o licenciado Aires de Almada, ambos desembargadores dos agravos, a carta de perdão a Fernão Afonso, carcereiro na cadeia e prisão de Miranda do Douro, que deixou fugir um preso e por isso tinha sido condenado (22 de Março de 1496)[7]; subscreve a carta passada a Afonso Anes, morador em Vilar de Porcos, de confirmação do privilégio de estalajadeiro por ter acrescentado umas casas para servirem de estalagem (23 de Março de 1496); provisão régia pela qual os «Desembargadores Fernam de Mizquita, e Rodrigo Homem, e o Bacharel João Rodrigues Cordeiro, Sobrejuiz da Casa do Civel», são enviados em «Alçada ás Provincias d’Entre Douro e Minho, e Tras os Montes», com «amplíssimos poderes» (27 de Março de 1498)[8]; Desembargador dos Agravos na Corte com poderes de alçada nas Comarcas de Entre-Douro-e-Minho e Trás-os-Montes (1498 – 1502)[9]; rol dos pagamentos aos Desembargadores da Casa da Suplicação, pelo qual autoriza «Joham Rodriguez Mazcarenhas que ora teemdes carreguo do pagamento dos desembargadores d’El Rey Nosso Senhor» e a «Dom Fernando Coutinho Bispo de Lameguo do Conselho do dito Senhor e Regedor da sua Cassa da Sopricaçom», a proceder ao pagamento «ao Doctor Fernam da Mizquita quimze mil reaes», da «comtias que cada huum tem» e «as quaaes lhes montam aveer de seus mantimentos hordenados do seguundo quartell deste anno presemte» (17 de Julho de 1501)[10]; identificado como «doutor Fernão de Mesquita, desembargador dos agravos na corte, […] do desembargo do rei com poderes de alçada nas comarcas d’Antre Doiro e Minho e Tra-los-Montes», subscreve conjuntamente com o bacharel João Rodrigues Cordeiro, sobrejuiz na Casa do Cível de Lisboa, a carta passada a «Pero de Nisa, escudeiro, fidalgo, morador em Vila Real», de «perdão de parte do degredo de 3 anos para Ceuta a que foi condenado por, enquanto juiz nessa vila, ter dormido com uma presa manceba de um clérigo e de ter solto dois presos» (21 de Agosto de 1501); mercê do ofício de tabelião do público e judicial de Basto e Gouveia a Francisco de Macedo, criado do dr. Fernão da Mesquita, por o ter perdido Diogo de Abreu, o qual tinha vendido o ofício sem licença d’el-rei a um tal Álvaro Mendes, clérigo de ordens menores e de coroa aberta (16 de Novembro de 1504)[11]; como «doutor Fernã da Myzquita, do Desembargo d'El Rei», assina um recibo sobre 60.000 reais, do primeiro quartel a que têm direito os desembargadores da Casa da Suplicação de seus ordenados (21 de Abril de 1510)[12]; carta pela qual «Joana de Luçena molher que foy do doctor fernam da Mizquita» emprazou por 36 reais um chão da comenda de Mendo Marques, na Ordem de Cristo, «que estaa dentro em suas casas em que estaa huua escaada de pedra» (5 de Setembro de 1519); carta de privilégio «a Joana de Lucena, viúva do doutor Fernão da Mesquita», pela qual «é outorgado que seus criados e homens, mordomos, caseiros e lavradores que estejam e lavrem em suas quintas e casais encabeçados sejam privilegiados e escusados de pagarem encargos lançados pelos concelhos» (6 de Maio de 1520)[13].

 

Faleceu em 1519, provavelmente em Lisboa.

 

Casou «à hora da morte» com D. Joana de Lucena, filha de mestre Rodrigo, médico de Dom João II. Filhos:

1 – ÁLVARO DA MESQUITA, nasceu em 1465.

Foi criado de D. Afonso de Portugal, bispo de Évora (1485); almoxarife das rendas de Alvito, no almoxarifado de Estremoz (1496).

2 – D. BEATRIZ DA MESQUITA, nasceu em 1467.

3 – DIOGO DA MESQUITA, nasceu em 1470.

4 – CRISTÓVÃO DA MESQUITA, nasceu em 1475.

Foi almoxarife de Torre de Moncorvo.

5 – IÑIGO PIRES DA MESQUITA, filho bastardo, nasceu em 1480.

Foi abade de S. João de Arroios e Vilarinho de S. Romão, no termo de Sabrosa; proprietário em Murça.

6 – D. FILIPA DA MESQUITA, nasceu em 1489, filha bastarda do doutor Fernão da Mesquita e de Ana Fernandes, mulher solteira.

Foi legitimada por carta régia (4 de Julho de 1503).



[1] Jofre de Lima Monteiro Alves, Ascendência de Vila Flor nas Veias do Minhoto Fernão de Magalhães, 2011.

[2] M. Antonino Fernandes, Matriculas dos Ordinandos da Mitra de Braga (1430 – 1588), tomo I, Ponte de Lima, 2002, p. 189.

[3] Manuel Felgueiras Gayo, Nobiliário de famílias de Portugal, volume VII, tomo XX, Braga, 1990, p. 315.

[4] Isabel Carla Moreira de Brito, A Burocracia Régia Tardo-Afonsina: A Administração Central e os Seus Oficiais em 1476, volume II, Porto, Faculdade de Letras, 2001, p. 29.

[5] ANTT, Chancelaria de Dom Afonso V, Livro 7, fl. 56v.

[6] Cristóvão Alão de Moraes, Pedatura Lusitana, volume I, tomo 2.º, Braga, 1997, p.611.

[7] ANTT, Chancelaria de Dom Manuel I, Livro 26, fl. 64v.

[8] João Pedro Ribeiro, Additamentos e Retoques á Synopse Chronologica, Lisboa, 1829, p. 164.

[9] ANTT, Chancelaria de Dom Manuel I, Livro 37, fl. 29v, PT/TT/CHR/K/37/29-125V.

[10] ANTT, Corpo Cronológico, Parte 2.ª, maço 4, doc. N.º 125.

[11] ANTT, Chancelaria de Dom Manuel I, Livro 23, fl. 38.

[12] Manuel Abranches de Soveral, Ensaio Sobre a Origem dos Mesquita, 2006.

[13] ANTT, Chancelaria de Dom Manuel I, Livro 5, fl. 5.

Publicado por Jofre de Lima Monteiro Alves às 01:00

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Quinta-feira, 23 de Janeiro de 2014

XX Gala "Cantar os Reis"- II

Como em Janeiro o tema forte é o Cantar dos Reis, ficam aqui mais fotografias da XX Gala "Cantar os Reis" que decorreu no Centro Cultural de Vila Flor, no passado dia 5.

 

A Actuação do Grupo da Freguesia de Santa Comba de Vilariça
O Grupo de Cantares “os Pelões”, de Freixiel
E como as crianças são o futuro, aqui fica a actuação do Jardim Flor de Liz.
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Publicado por Ilídio Monteiro Alves às 10:10

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Quarta-feira, 15 de Janeiro de 2014

XX Gala "Cantar os Reis"

O auditório do Centro Cultural de Vila Flor, recebeu no passado dia 5, 11 grupos, oriundos de todos os cantos do concelho, para aí se realizar a já tradicional Gala "Cantar os Reis", que já vai na 20ª edição.

 

Nesta gala, que pretende reavivar a tradição de imemorial das janeiras, participaram representantes das seguintes colectividades: Grupo da Associação Cultural e Recreativa de Vila Flor, Jardim Flor de Liz (associada à Santa Casa da Misericórdia de Vila Flor), Escola de Música Zécthoven (Vila Flor), Coro de S. Bartolomeu (Vila Flor), Grupo de Danças e Cantares de Vila Flor, Grupo de Cantares de Seixo de Manhoses, Grupo da União de Freguesias de Valtorno e Mourão, Grupo da Freguesia de Santa Comba de Vilariça, Associação Cultural, Recreativa e Desportiva  de Carvalho de Egas - Alegre Atitude, Grupo de Cantar os Reis de Vale Frechoso e Grupo de Cantares “os Pelões” (Freixiel).

 

Deu-se, deste modo, seguimento a uma das mais enraizadas tradições musicais, não só da etnografia trasmontana, mas também da cultura nacional, uma vez que cantar os reis é algo de transversal a todo o território nacional, pelo que Vila Flor cumpriu este ano, mais uma vez, a sua parcela no dever de conservar esta enternecedora tradição.

 

 

 

Vista geral da Gala, com uma plateia bem compostas que se reuniu para a ocasião.
Actuação do Grupo de Danças e Cantares de Vila Flor. 
Actuação da Associação Cultural, Recreativa e Desportiva de Carvalho de Egas.
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Publicado por Ilídio Monteiro Alves às 10:10

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Quarta-feira, 8 de Janeiro de 2014

Crónica de uma morte anunciada VI

Façamos um pequeno desvio à toada sequencial que estas crónicas têm tomado, para nos focarmos num facto que me choca particularmente, no meio de todos os calamitosos encerramentos de que falámos na última vez.

 

Recorde-se que, tratando do papel do Estado Central no processo de desertificação em curso, acusámos, sem escolhos, o Estado de ser agente promotor da catástrofe que temos vindo a abordar neste espaço, e apontámos como prova do afirmado as consecutivas ondas de encerramentos de todo o tipo de estabelecimentos, serviços e organismos com que o interior tem sido selvaticamente golpeado.

 

Ora, no meio destes fechos todos, há um que queria destacar. E estou ciente de que não será o mais preocupante (se cuidássemos de realizar um escala), mas que traduz um simbolismo, talvez inalcançado pela maioria da opinião pública, que traz sobressaltos à alma da gente.

 

Falo do encerramento de tribunais, medida que a breve trecho irromperá por este país fora, e dará mais uma machadada (mas ainda não é a final) no interior, juntando-se a outras machadadas, passadas e futuras, para, numa simbiose de cortes, garrotear definitivamente a metade sertaneja do país, enformando aí um novo deserto no planeta, o qual ainda não rivaliza com os seus consortes Saara, Góbi ou Atacama, mas para lá caminhará.

 

E, como disse, tenho consciência que os encerramentos nas áreas da saúde e da educação, têm prevalência na escala de preocupação das populações, pois afectam-nas em maior medida.  De facto, os cortes nos cuidados de saúde (ainda por cima contendo o interior uma população tão envelhecida e com dificuldades de circulação), ou de educação (que obriga os infantes a transcorrerem um percurso de corta-mato todos os dias para chegarem ao seu estabelecimento de ensino) são bem mais preocupantes do que o encerramento de tribunais, se bem que estes últimos também já signifiquem uma gravidade assinalável, incorrendo o Estado num pérfido crime de denegação de justiça às populações que vêm, de súbito, partir a sua Domus Iustitia.

 

Mas, não é pela sua maior ou menor gravidade que escolho abordar em artigo próprio o encerramento dos tribunais, no meio dos golpes que vão matando o interior. Faço-o porque vejo neste tipo de encerramentos uma carga simbólica que nunca antes foi experimentada entre nós.

 

É que, nunca houve por cá concelhos sem tribunais. Os concelhos foram criados para vários propósitos (expostos nos seus respectivos forais), mas à cabeça surgia sempre a noção de administração da justiça. Não havia concelho sem tribunal, nem tribunal sem concelho. Uma e outra coisa confundiam-se. Aliás, era para traduzir simbolicamente, essa capacidade única de administrar a justiça régia (que fundava todo o conceito de autonomia municipal) que os concelhos possuíam um pelourinho (que era um mero símbolo da autónoma faculdade de administração de justiça, e não o sítio físico onde as penas se aplicavam, como erradamente se pretendeu fazer crer no século XIX, o que levou à destruição impiedosa de quase todos os pelourinhos, um pouco por todo o lado).

 

E portanto, termos de percorrer nove séculos, para que passem a existir concelhos sem tribunal, sem essa básica permissão de administrar a justiça, que sempre tiveram, é, para mim, algo de extraordinariamente grave, por insultar a nossa própria identidade consolidada.

 

Daí que escolha destacar esta nova vaga de encerramentos, por ser uma quebra num certo sentido de continuidade histórica que os concelhos têm tido, que fazem deles uma das poucas entidades que têm sobrevivido ao duro teste do tempo, existindo sempre, desde que existe país (alguns, como o nosso vizinho de Ansiães, até precedem a própria fundação!), desempenhando um papel fundamental na ligação das gentes à terra, na subsistência de um sentimento de pertença do indivíduo ao seu território natal, e que agora surgem descaracterizados, desprovidos de um dos seus elementos distintivos mais essenciais: o tribunal. A simbologia desta medida é, a meu ver, simplesmente avassaladora.

 

E por falarmos dos nossos vizinhos, a Carrazeda é um dos municípios que vai perder o seu tribunal. No distrito de Bragança é o único. Paralelamente, Alfândega da Fé, Vimioso, Vinhais e Miranda verão os seus tribunais darem lugar a "Secções de Proximidade", seja lá o que isso for.

 

Para concluir, outra das razões que me leva a destacar o fecho dos tribunais, ao invés de outras medidas de gravidade igual ou similar, é o facto de, no meu entender, quando um dia começar a conversa de acabar com concelhos (que irá surgir, sem dúvida), serão estes desprovidos de tribunal (e de tudo o resto, com certeza) que irão encabeçar a lista de abate. E aí será com profunda tristeza que verei, aquele que é o concelho mais velho de Portugal - a Carrazeda de Ansiães que, geminada com São João da Pesqueira recebeu foral por volta do ano 1060 - desaparecer.

 

 

 

A chamada Domus Municipalis, em Bragança, embora as suas origens e finalidades não sejam claras. Fotografia própria.
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Publicado por Ilídio Monteiro Alves às 10:00

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Quarta-feira, 1 de Janeiro de 2014

JOÃO RODRIGUES DE PORTOCARREIRO

UM GRANDE FIDALGO EM TRÁS-OS-MONTES

 

Por: Jofre de Lima Monteiro Alves

 

    João Rodrigues de Portocarreiro nasceu em 1330, filho de Fernão Anes de Portocarreiro e de D. Maria Rodrigues de Resende.

 

Árvore de   Costados de João Rodrigues de Portocarreiro

Próprio

Pais

 

João Rodrigues   de Portocarreiro

 

N. 1330

Fernão Anes de   Portocarreiro

 

N. 1300

 

João Rodrigues   de Portocarreiro

 

N. 1270

D. Margarida   Fernandes de Moreira

 

N. 1280

D. Maria Rodrigues   de Resende

 

N. 1305

Vasco Martins de   Resende

 

N. 1260

D. Mécia Vasques   de Azevedo

 

N. 1270

 

    Foi vassalo d’El-Rei; nobre; combatente nas campanhas da I Guerra Fernandina entre Portugal e Castela (1369 – 1371); fronteiro de Riba Côa e de São Félix dos Galegos (1369); vencedor do recontro de São Félix dos Galegos, onde com 24 cavaleiros fez frente e derrotou oitenta cavaleiros e demais peões castelhanos, «matando e prendendo muitos deles e isso mesmo dos homens de pé … e foi essa peleja muito soada, porque os poucos venceram muitos» (1369); Senhor do Castelo e da Vila de S. Félix dos Galegos, «com a sua jurisdição de juro e herdado» e «por serviço que lhe fizera em guarda e defensão dalguns lugares do Reyno», mercê do rei Dom Fernando I por carta expedida na Golegã (15 de Maio de 1370); Senhor de Vilarinho de Castanheira, de Vale de Torno, de Carvalho de Egas, de Seixo de Manhoses, de Mourão e Alagoa, «de juro e herdado, com mero e misto império», por carta régia do rei Dom Fernando I passada no Porto (20 de Janeiro de 1372); Senhor da Terra de Ansiães, no almoxarifado da Torre de Meencorvo em «pagamento de sua conthia», por mercê do rei Dom Fernando I dada em Vila Nova de Anços (13 de Março de 1372); Senhor de Chacim, de Alfândega da Fé, de Castro Vicente e de Mós, por carta do rei Dom Fernando I dada em Braga (12 de Agosto de 1372); Senhor de Vila Flor, por mercê do rei Dom Fernando I (12 de Agosto de 1372); Senhor de Ferreirós, Alciães e Soutelinho da Raia, no termo de Chaves (12 de Agosto de 1372); Senhor de Portocarreiro e Vila Real, de juro e herdade, por mercê do rei Dom Fernando I (13 de Agosto de 1372); Senhor de Cotos e de Vilarinho, no termo de Chaves, por carta régia de Dom Fernando dada em Santarém (1 de Abril de 1373); Senhor da Honra de Resende, por carta dada em Viana a par de Alvito pelo rei Dom Fernando I (14 de Agosto de 1374); Senhor das Terras de Ferreiros e de Tendais, por carta do rei Dom Fernando I, passada na Lourinhã (17 de Novembro de 1375); meirinho-mor de Trás-os-Montes (13 de Agosto de 1376); Senhor de Montalegre e de Tentúgal (18 de Março de 1377); Senhor de Barroso, de Pena e de Miranda (31 de Março de 1379); Senhor de Lamas de Orelhão, por carta régia expedida em Estremoz (17 de Março de 1380); mercê dos direitos de Vila Flor e seu termo, «em tença e desconto de sua contia», por carta régia dada em Lisboa (18 de Novembro de 1381); grande proprietário, sendo um dos maiores potentados do Reino de Portugal; partidário de Dona Beatriz, Infanta de Portugal e Rainha de Castela, e do rei D. João I de Castela, durante a Crise Dinástica (1383); os «homens boõs» de Ansiães revoltaram-se contra João Rodrigues de Portocarreiro, por ser partidário de Castela, e este «se veo lançar sobre eles com peça de gentes e os combateo e roubou e queymou e lhes matou e prendeo homens» e quando ia em retirada o mesmo João Rodrigues de Portocarreiro foi atacado em Vilarinho da Castanheira pela população, onde «o combaterom e entrarom per força e que os tomarom e que delles prenderom e matarom» muita gente das hostes do dito João Rodrigues de Portocarreiro, que se pôs em fuga (1384); Dom João, Mestre de Avis, doou a Vasco Pires de São Payo todas as vilas, lugares e terras que João Rodrigues de Portocarreiro tinha recebido do rei Dom Fernando I em Ansiães, Vilarinho da Castanheira, Vila Flor, Torre de Moncorvo e Mós (2 de Maio de 1384); Dom João, Mestre de Avis, fez «doaçam pera sempre aos homens boõs e concelho dAnciaães» das terras que foram de João Rodrigues Portocarreiro, incluindo «todollos bens movees e de raiz quintaas e casaaes» que o dito senhor possuísse dentro da vila e no seu termo, «os quaees elle perdeo por seer com elrrej de Castella em deserviço destes regnos e senhor», para «remuneraçam das muitas perdas e dapnos que receberom en seus bens per o dito Joham Rodrigues Porto Carreyro» os «homens boõs» em «esta guerra», por carta expedida em Lisboa (15 de Junho de 1384); doação a Lopo Esteves da aldeia de Campelos, no termo de Ansiães, que antes pertencia a João Rodrigues de Portocarreiro, «com todos os direitos, frutos novos, rendas, foros, entradas e saídas e pertenças» (2 de Outubro de 1384); exilado em Castela.

Foi pai de:

Dona Maior Anes de Portocarreiro, nascida em 1350.

2.ª Senhora de Vila Real.

Casou com D. João Afonso Telo de Menezes, nascido em 1345, filho D. João Afonso Telo de Menezes, 4.º Conde de Barcelos, e de D. Guiomar Lopes de Vilalobos.

D. João Afonso Telo de Menezes foi fidalgo; 1.º Conde de Viana (1373); dado como refém e garante do tratado de paz entre os reis de Portugal e Castela (19 de Março de 1373); alcaide-mor de Beja (10 de Abril de 1376); mercê dos direitos reais da Vila da Lousã (17 de Fevereiro de 1377); mercê dos direitos reais da alcaidaria da vila de Beja (14 de Janeiro de 1381); Senhor da Honra de Canaveses e Britiande (15 de Julho de 1382); partidário da Infanta D. Beatriz e do rei D. João I de Castela (1383); alcaide-mor de Miranda do Corvo e Penela, por mercê de Dom João I de Castela (1383).

    Igreja Matriz de Nossa Senhora da Anunciação de Vale de Torno, em Vila Flor, que teve como primeiro orago Nossa Senhora do Castanheiro, foi vigararia de apresentação dos abades de Santa Maria Madalena de Vilarinho da Castanheira. Fotografia de Jofre de Lima Monteiro Alves, datada de Agosto de 2009.

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Publicado por Jofre de Lima Monteiro Alves às 01:01

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Segunda-feira, 23 de Dezembro de 2013

Inocência e Realidade

Por: Maria de Fátima Amaral

 

Em tempos  idos, a compra de bens era muitas vezes feita através da troca de outros produtos, pois o  dinheiro vivo era escasso na maioria dos lares portugueses.

 

Assim dito, compreende-se a história que se segue, a qual foi contada pela própria no passeio pelos limites da nossa aldeia no termo do Concieiro, realizado pela por iniciativa da Associação Cultural, Recreativa e Desportiva de Carvalho de Egas, e que fez as delícias dos participantes.

 

Dona Ernestina, que vai contando com mais de sete décadas, frequentou a escola primária, tendo por professora a Exm.ª  Sr.ª Dona Conceição, que já ultrapassou mais de nove décadas de idade e de quem, aqueles que foram seus alunos, ainda hoje se lhe referem com muita estima e consideração. Ambas são, pois, as personagens principais desta história.

 

Por necessidade de pagamento da caixa escolar, não faltava a recomendação da professora:

               

- "Meninos, não vos esqueceis  de pagar a caixa escolar!"

 

Ora, nem todos os meninos e meninas podiam trazer a moedinha que liquidaria a dívida, mas produtos simples, existentes em quase todos os agregados familiares, serviam como moeda de troca e neste caso concreto, eram ovos os meio de pagamento.

 

Chegou Dona Ernestina, ou menina Ernestina, neste contexto, afogueada e atrasada à escola, com dois ovinhos na mão, que entregou à professora visando saldar a dívida da caixa escolar. Ao receber os ovos, a Professora questionou a aluna:

              

  - "Ernestina, os ovos são frescos?"

 

Ernestina, botou os olhos ao chão com ar comprometido e com ingenuidade própria das crianças, respondeu:

             

- "Desculpe, Sr.ª Professora, estão quentes, porque eu ainda estiva à espera que a pita os pusesse..."

 

 

 

Presépio tradicional que enfeitou a freguesia de Carvalho de Egas, no Natal de 2010.
Toda a equipa do Blogue Vila Flor em Flor deseja em uníssono um Feliz Natal e um Próspero Ano de 2014 aos seus visitantes.
Publicado por Ilídio Monteiro Alves às 10:10

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Segunda-feira, 16 de Dezembro de 2013

Crónica de uma morte anunciada V

Já tomámos contacto com o problema; já vimos que nos últimos 50 anos o distrito de Bragança perdeu 40% dos seus habitantes, com alguns concelhos a registarem perdas acima de 60%; já vimos que a dificuldade de fixar população no interior não é questão nova;  já vimos o que têm ensaiado fazer as autoridades locais para tentar contrariar o fenómeno; mas, e o Estado Central? Que papel têm tido os sucessivos governos no meio desta questão? Para que lado têm, consciente ou inconscientemente, puxado? Que impactes, positivos ou negativos, tiveram as políticas seguidas nos últimos 50 anos? Que poderemos espectar de futuras medidas? Pois bem, ensaiemos uma resposta a estas demandas.

 

Atirando directamente ao alvo e sem rodeios afirmo desde já que, no meu entender, a intervenção do Estado Central em matéria de desertificação humana do interior, tem sido genericamente negativa e tem contribuído, em grande medida, para o cenário catastrófico a que se chegou. Afirmo-o sem escolhos. Assim, assertivamente.

 

Quer dizer, não nego que, aqui e ali, se tenham tomado algumas medidas que trouxeram algo de positivo, algo de bom para a luta contra a desertificação. Tal como na peça anterior não pretendi afirmar que, do lado das autarquias só se registam medidas positivas, também não afirmarei nestoutra que do lado do Estado Central, apenas malfeitorias se assinalam. Como é comum, as coisas nunca são tão lineares. Não negando essas medidas que o Estado Central tem tomado, não posso deixar de apontar um problema aí embutido: o problema é, a meu ver, que nos últimos 50 anos tais medidas não têm sobejado. Quem tomou as rédeas do desenvolvimento de esforços em prol do interior foram os órgãos municipais locais e não tanto o Estado Central que tem revelado desinteresse (desprezo até) por essa metade do país.

 

Assim de repente, nas últimas décadas e tirando as auto-estradas (que é sempre tema bem polémico), e as grandes barragens/complexos hidroeléctricos (que, como eu, muitos questionam qual o real proveito que trouxeram às povoações onde ficaram instaladas), que outros investimentos fez o Estado Central nas regiões do interior? De que maneira tentou (activamente, pois claro) promover o desenvolvimento dos nossos sertões? Que curriculum pode o Estado Central apresentar nesta matéria?

 

E não se venha aqui apontar nesta sede as obras de que já falámos anteriormente, como caminhos de ferro, escolas e estradas, pois, salvo excepções, são edificações que já vinham sendo feitas desde os tempos da regeneração e que, no seu grosso, se concluíram antes das décadas em análise. Não são, portanto, investimentos que possamos enumerar em defesa do papel do Estado na promoção do desenvolvimento regional nos tempos recentes

 

Claro que muitas das obras que creditei às autarquias locais no artigo anterior terão tido, inevitavelmente, uma participação, maior ou menor, do Estado. Claro que outras obras existirão, promovidas pelo Estado Central, que esteja a olvidar, ou a menosprezar. Mas se ambas as constatações são verídicas, mais certeira será a afirmação seguinte: é inegável que, principalmente nos últimos 20 anos, o Estado Central tem sido agente activo de promoção da desertificação, através de um desinvestimento atroz que se traduz no encerramento de grande parte das suas instalações, serviços e organismos que se encontravam ainda nas vilas do interior.

 

Se não, procedamos ao rol dos lamentáveis encerramentos: começando nos anos 90 com o encerramento de grande parte das linhas férreas do interior (no Distrito de Bragança ficou apenas a linha do Tua até Mirandela, entretanto novamente encurtada); depois iniciou-se o encerramento de escolas primárias, um pouco por todas as aldeias e freguesias do interior; de seguida experienciou-se o fecho dos hospitais/ unidades de saúde/urgências de grande parte das vilas do interior, sobrando apenas hospitais centrais distritais, que distam  para cima da centena de quilómetros de muitos dos povoados que pretender servir; nos últimos anos prosseguiu-se para outras áreas como o encerramento de Tribunais, postos policiais e estações de correios;  contemos já as anunciadas desactivações de repartições de finanças e conservatórias; e por último realcemos a extinção de algumas das freguesias do interior que deixaram muitas populações sem qualquer presença  próxima de qualquer tipo de Estado, seja ele central ou local.

 

E o papel que estes cortes de serviços desempenham na desertificação do país, não pode ser desvalorizado, porque cada encerramento causa efeitos concretos nas vidas das populações: o desperecimento do comboio privou algumas populações de qualquer serviço público de transporte, bem como impediu que houvessem alternativas ao automóvel na deslocação de e para o interior; o encerramento das escolas retirou às crianças do interior o direito de aceder à educação pública em condições semelhantes às demais, tendo agora de percorrer um caminho muito longo até à escola mais próxima, bem como privou às aldeias da presença animadora de crianças no seu seio; os encerramentos de serviços de saúde condenaram as populações do interior a ter de (exas)esperar muito mais por socorro médico urgente, a ter de ir nascer a Espanha (sim, chegámos a este ponto) e a ter de ir fazer tratamentos e consultas a cidades longínquas, para onde não existem transportes; o encerramento dos tribunais e de postos policiais leva ao aumento do sentimento de insegurança, pois, em caso de necessidade, o socorro policial está agora mais longe, bem como o Tribunal mais inacessível; os encerramentos das repartições e conservatórias levará a que se torne uma verdadeira provação o simples acto de se ir "tratar de um papel", como tão bem o povo chama a estas questões burocráticas que inevitavelmente vão surgindo.

 

E tudo isto vai contribuído para que seja mais frustrante viver no interior, onde ir tratar de qualquer assunto ou aceder a qualquer serviço público se torna uma aventura de muitos quilómetros e poucos meios de lá chegar. E por outro lado, torna o interior cada vez menos atractivo até para os próprios emigrantes que pensam em regressar à terra natal, pois ponderando bem, começam a ver que ir viver para um sítio onde o acesso a bens essenciais e básicos como a saúde, a educação para os filhos ou a justiça/segurança é um retrocesso intolerável.

 

Para resumir, começam hoje a existir concelhos inteiros onde inexiste qualquer sinal da presença do Estado. Concelhos inteiros tratados como verdadeira res derelicta, a coisa abandonada por seu dono no antigo Direito Romano, onde o Estado arrumou a trouxa e partiu, como se ali não houvesse também território português a governar e cidadãos portugueses a servir.  Concelhos onde os cidadãos continuam a pagar os seus imposto, mas em contrapartida deixaram de ter acesso, no seu território de residência, a serviços básicos cujos os seus impostos visam, precisamente, financiar. Uma lógica imunda se instalou no interior do país e votou os seus cidadãos ao abandono, ao mais profundo desprezo, como se de cidadãos de categoria inferior se tratassem, uma categoria que não tem direito a ter acesso efectivo aos serviços que o Estado providencia e deve providenciar, uma categoria que não conta, que talvez, na perspectiva do Estado, nem exista. Pois bem, pelo andar da carruagem, não faltará muito para que, na realidade, o interior deixe mesmo de existir.

 

 

 

Estação da Linha do Sabor de Duas Igrejas, em Miranda do Douro, um dos muitos símbolos do abandono do interior. (Fotografia de Aníbal Gonçalves)

 

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Domingo, 8 de Dezembro de 2013

Crónica de uma morte anunciada IV

A emigração dos anos 60 levou a que saíssem do território nacional entre 1,000,000 a 1,500,000 de portugueses, até ao fim do regime, em 1974! O número é um soco no estômago. Desaparecer, numa dúzia de anos, quase 15% da população do país, é algo de inimaginável. Quase sobrenatural.  Estatisticamente,  o país equilibrou, com a chegada de quase o mesmo número de retornados das ex-colónias a partir de 1974/75, o que deu para que se apagasse um pouco o fenómeno da década anterior.


O novo regime prometia (e cumpriu) a democratização, o fim da Guerra Colonial, a modernização do país e o desenvolvimento. Então, como se explica que a sangria tivesse continuado no interior, como nos mostraram os números publicados na parte I desta crónica?


A meu ver, o caso é complexo, mas tem um explicação. São inegáveis os esforços hercúleos que a 3ª República desenvolveu, no sentido de dotar o interior de um sem número de apetrechos que nunca tivera (e que outras partes do país já tinham). Chegou a água canalizada e própria para consumo à casa das pessoas; chegou a luz também; o saneamento básico; os liceus para que houvesse iguais oportunidades educativas; pavimentou-se e iluminou-se as ruas; melhorou-se as estradas e as vias de comunicação; enfim, um enormidade de esforços foram desenvolvidos para resgatar o interior da idade das trevas e transportá-lo, em consonância com o resto do país, para a modernidade.


Contudo estes foram esforços desenvolvidos, em grande medida, pelo poder local. O Estado Central delegou desde logo no poder local (e bem, pois será ao nível local que se conhece a realidade dos territórios e os obstáculos que as populações enfrentam) a tarefa de trazer o século XX a todo o país, mas no processo perdeu o contacto com o país real, com o país profundo. E essa perda de contacto foi determinante para a continuação do problema que nos tem levado a escrever estes panfletos: a desertificação irreversível do interior (exploraremos o papel do Estado Central na desertificação numa crónica ulterior).


Ora, como dizia, as autarquias locais usaram de todas as armas à sua disposição para procurar arrancar o interior das redes do isolamento medievo e trazê-lo para a contemporânea era. O esforço foi salutar, pois, para além de todas as mais-valias que trouxeram numa primeira fase (e que já descrevemos acima), veio ainda uma segunda geração de esforços (reforçada depois com os dinheiros comunitários), com vista a dotar o interior de equipamentos extra, que aumentassem a qualidade de vida das suas populações. Vieram centros culturais e respectiva oferta cultural e lúdica; piscinas e respectivas aulas de natação; associações culturais, recreativas e desportivas e consequentes equipamentos de desporto e lazer nas várias aldeias; redes municipalizadas de transportes públicos com especial atenção ao transporte de alunos; nalguns casos, até se trouxe algum género de instituto de ensino superior; construíram-se mercados municipais; estádios municipais; pavilhões municipais; praias fluviais; organizaram-se feiras-mostra, festivais gastronómicos, folclóricos, musicais, entre outros que tais para todos os concelhos; o esforço de fixação de população passou também pela concessão de subsídios vários de natalidade, de apoios ao arrendamento jovem, ou até, num caso mais extremo (em Vila de Rei, distrito de Castelo Branco), pela fixação de jovens casais vindos directamente do Brasil para 'colonizar' o território! Resumindo, as Câmaras Municipais desenvolveram um sem fim de tentativas de dinamizar os concelhos do interior, na esperança de fixar e atrair população.


E esses esforços dotaram as povoações de equipamentos e providenciaram às populações serviços que na esmagadora maioria dos concelhos do litoral são inexistentes. Por exemplo, em muitos dos concelhos do litoral são inauditos equipamentos públicos como piscinas ou polidesportivos municipais, bem como são inexistentes os transportes escolares gratuitos, ou ainda ausentes toda a panóplia de actividades culturais e lúdicas que os centros culturais municipais e as associações culturais subvencionadas proporcionam no interior. O que se quer dizer é que, em muitos casos, os esforços de modernizar,  de conferir equipamentos  e de  proporcionar serviços, que os municípios do interior foram fazendo, superaram, em muito, os esforços homólogos que os municípios do litoral fizeram. E mesmo assim, o problema persistiu e persiste ainda. Porquê?


Porque não se logrou a gerar empregos. Simplesmente isso.  As pessoas vão viver para onde têm trabalho e as oportunidades de emprego têm sempre escasseado no interior. E não por falta de empenho das Câmara Municipais, neste campo também, quer proporcionando por elas próprias empregos (mas não podendo, obviamente, empregar toda a gente), quer pelas tentativas de atracção de empresas e negócios para os concelhos, através da redução de impostos locais e do preço de outros custos de produção (água, luz, etc.) e da concessão  de subsídios vários. Também neste aspecto as edilidades tentaram, infelizmente de forma vã, contrariar as tendências de desertificação.


Nem tudo foi, obviamente, feito de modo adequado. Não é meu intuito vir aqui cantar loas  às Câmaras Municipais, arguindo que tudo o que fizeram foi perfeito. Não será esse o caso. Cometeram-se erros, seguramente. Excessos, certamente. Houve manifestações pontuais de megalomania. Não raro, gastou-se o que se não tinha. Tudo isso será, naturalmente, verdade.


Mas o que se pretende realçar é o seguinte facto: foram as câmaras municipais que lideraram este combate tão ingrato contra esse temível inimigo, qual monstro da mitologia grega clássica ou dragão dos contos medievais, que é a desertificação humana do interior e que tem, ao longo dos decénios, com assinalável sofreguidão, ganho tantas batalhas e causado tantas baixas. E quando falo de baixas, afirmo-o no sentido literal: cada uma das 92,000 pessoas que o distrito de Bragança perdeu nos últimos 50 anos (remete-se para o quadro apresentado na primeira destas crónicas), são verdadeiras baixas e cada uma dessas pessoas representa uma batalha perdida contra este adversário. São gente que partiu e que não volta. São testemunhas, na primeira pessoa, do drama que temos vindo a retratar. São, no fim de contas, fatalidades clamadas pela desertificação. 

 

Edifício da Câmara Municpal e do Tribunal Judicial de Vila Flor. Fotografia retirada de arquivo próprio.

 

 

 

(Esta crónica tem novo capítulo a publicar futuramente.)



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Domingo, 1 de Dezembro de 2013

VASCO PIRES DE SÃO PAYO

UM GRANDE FIDALGO DE VILA FLOR

 

Por: Jofre de Lima Monteiro Alves

 

    Vasco Pires de São Payo, filho de Pedro do Souto ou Pedro Anes do Souto e de D. Francisca Pais de São Payo, nasceu em 1340.

 

Árvore de Costados de Vasco Pires de São Payo

Próprio

Pais

Avós

Vasco Pires de São Payo

 

N. 1340

F. 1403

Pedro Anes do Souto

 

N. 1300

João Pires Alcoforado

 

N. 1270

 

D. Francisca Pais de São Payo

 

N. 1320

Paio Martins de São Payo

N. 1290

 

 

    Foi vassalo d'El-Rei e «homem muito honrado», o qual «serviu bem» aos reis Dom Fernando I e Dom João I; fidalgo; 4.º Senhor da Honra de Sampaio, em sucessão de sua mãe; 2.º Senhor do lugar de Fiolhal, em sucessão de seu pai; Senhor dos Foros da Terra de Bragança; Senhor da Quintela de Lampaças (14 de Junho de 1381); Senhor de Frechas; carta régia de mercê da doação dos bens móveis e de raiz de João Lombardo, de Vila Flor, e Gonçalo Esteves, de Marialva, que estavam refugiados em Castela (9 de Abril de 1382); mercê dos privilégios aos moradores da sua aldeia de Alagoa, no termo de Alfândega da Fé, «a qual era herma» para que os mesmos fossem isentos do pagamento de  fintas e talhas, rendas, obras públicas e outros encargos pertencentes ao concelho de Alfândega (6 de Abril de 1383); Senhor da Terra e do Julgado de Chacim (18 de Julho de 1383); Senhor da Terra de Vale da Sancha (18 de Julho de 1383); partidário de Dom João, Mestre de Avis, durante a Crise Dinástica (1383 – 1385); mercê de todos os bens móveis e de raiz que João Nunes de Aguilar e seu irmão Pero Nunes de Aguilar tinham em Vila Flor, por andarem refugiados em Castela (1383); participou «no cerco de Chaves por el-Rei D. João 1.º de Portugal, quando a vila estava por Castela» (1384); vencedor da «batalha campal no lugar de Val de Vioza meya legoa» de Ansiães, contra os castelhanos e João Rodrigues de Portocarreiro (1384); Senhor de Parada de Pinhão (2 de Maio de 1384); Dom João, Mestre de Avis, doou a Vasco Pires de São Payo todas as vilas, lugares e terras que João Rodrigues de Portocarreiro tinha recebido do rei Dom Fernando I em Ansiães, Vilarinho da Castanheira, Vila Flor, Torre de Moncorvo e Mós (2 de Maio de 1384); carta de mercê dos bens móveis e de raiz que o judeu Abrafan Rico tinha em Vila Flor e seu termo, por este ter ido em «deseruiço» para Castela (6 de Maio de 1384); 1.º Senhor de Vila Flor, de juro e herdade, para sempre, para si e seus sucessores (7 de Maio de 1384); mercê de todos os foros, direitos, rendas e portagens das vilas, lugares «acastellados» e termos de Ansiães, de Torre de Moncorvo, de Vilarinho da Castanheira, de Vila Flor e de Mós, de «juro e herdado», para sempre, por carta de mercê de Dom João, Mestre de Avis (7 de Maio de 1384); Senhor de Vilarinho da Castanheira, de Vale de Torno, de Carvalho de Egas, de Seixo de Manhoses, de Mourão e de Alagoa (7 de Maio de 1384); 1.º Senhor de Vilas Boas e seu termo, que «he terra chaã» e sem castelo, com o privilégio de poder vender, dar, doar ou fazer escambo (7 de Maio 1384); Senhor de Mirandela (1384); Senhor de Alfândega da Fé (1384); Senhor de Torre de Moncorvo (1384); Senhor de Carrazeda de Ansiães (1384); Senhor de Mós (1384); carta régia de confirmação da doação que lhe fez Rui Pereira, «per o poder que de nos avia», de «juro e herdado» dos lugares de Mirandela e Alfândega da Fé (15 de Abril de 1385); 1.º fronteiro da vila de Torre de Moncorvo, de Vila Flor e da vila de Ansiães; mercê de todos os bens móveis e de raiz que Fernão Gonçalves Reboredo perdeu por andar em Castela ao serviço de inimigos do Reino de Portugal (23 de Setembro de 1387); mercê das coudelarias de Anciães, Vila Flor, Torre de Moncorvo, Lamas, Mós, Vilarinho da Castanheira, Vilas Boas e de outros lugares, bem como a faculdade de poder nomear coudéis nas suas terras, por carta de Dom João I, datada de Évora (13 de Janeiro de 1397); carta de autorização para Vasco Pires de São Payo dividir a sua grande casa pelos dois filhos mais velhos, por mercê do Rei Dom João I (31 de Agosto de 1398).

Faleceu em 1403.

Casaria com D. Maria Pereira, filha do marechal D. Álvaro Pereira e de D. Mécia Vasques Pimentel, enquanto outros asseguram que casou com D. Isabel de Gouveia, filha de Vasco Fernandes de Gouveia, o que é menos credível, mas qualquer dos casamentos atribuídos são meras fantasias. Filhos:

1 – FERNÃO VAZ DE SÃO PAYO, 5.º Senhor da Honra de Sampaio; 2.º Senhor de Vila Flor; com geração.

2 – LOPO VAZ DE SÃO PAYO, 2.º Senhor de Ansiães; 2.º Senhor de Vilarinho da Castanheira; 3.º Senhor de Fiolhal; com geração.

3 – D. MÉCIA VAZ DE SÃO PAYO, casada com Martim Fernandes de Freitas, anadel-mor de besteiros.

4 – AMADIS VASQUES DE SÃO PAYO, foi cavaleiro da Casa Real (1437); despenseiro d’El-Rei D. Duarte; juiz e dizimeiro da Alfândega de Lisboa (20 de Abril de 1439); mercê da tença de 7000 reais brancos, «consijrando os mujtos e boos seruiços» (3 de Abril de 1451); com geração.

Casa do Paço ou Solar dos Condes de São Payo, em Vila Flor, edificada no século XVII. 

Publicado por Jofre de Lima Monteiro Alves às 01:01

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Sábado, 23 de Novembro de 2013

Crónica de uma morte anunciada III

Tendo preteritamente atentado aos números impressionantes da desertificação do distrito brigantino, nos últimos 50 anos e tendo, igualmente, feito um intróito sobre os fluxos migratórios que antecederam esse período, é chegada a hora de reflectirmos um pouco sobre as causas concretas, que retiraram aos nossos concelhos do  interior tantos milhares de habitantes, em tão curto intervalo temporal.

 

E nesse aspecto, todos nós, de um modo ou de outro, estamos cientes das razões que levaram a este êxodo. E quanto a mim,  tudo se reconduz a uma causa maior, o desinvestimento a que o Estado Central votou o interior, que, associado a um motivo circunstancial dos anos 60 (a Guerra no Ultramar), conduziram a este cenário dantesco, onde concelhos perdem quase 70% da sua população em 50 anos.

 

O desinvestimento e desinteresse que tem caracterizado, em grande medida, a relação entre o Estado Central e o interior do país, não é, em parte, novidade.  Creio até, que a primeira grande machadada no interior foi operada pelos liberais triunfantes em 1833/34, que trataram de efectuar uma "reforma" (tremei perante esta palavra) administrativa, em  1836, que, para além de suprimir os forais que desde sempre tinham governados as populações, resultou também na supressão de 351 dos 826 concelhos existentes. Até ao fim do século XIX, outras supressões de municípios se seguiram (com algumas reversões, após largos e sangrentos protestos por parte da população) e o número de concelhos fixou-se em 291 em 1911, cifra que nos cem anos seguintes aumentou para os 308 actuais. Por exemplo, só no território actual concelho de Vila Flor, existiam antes das sucessivas reformas liberais, quatro municípios: Vila Flor, Freixiel, Vilarinho da Castanheira e Vilas Boas.

 

Contudo, esta reforma, se bem que por um lado causou o desaparecimento de povoados inteiros (vide o emblemático caso de Monforte do Rio Livre, no actual concelho de Chaves, onde a supressão do concelho resultou no desaparecimento total  da povoação, até ao final desse mesmo século!), por outro lado foi acompanhada por um investimento assinalável de infraestruturas. E quando digo assinalável, não me refiro apenas ao investimento em si, refiro-me ao facto de ter incluído o interior, tanto como o litoral. O fontismo  pôs em marcha um projecto de modernização do país e, desta vez pelo menos, o interior não foi excepção. Chegaram as primeiras estradas, vias férreas, modernas pontes, telégrafos e demais vias de comunicação, bem como as primeiras escolas e assistiu-se a uma rápida e progressiva evolução das vilas sedes de concelho (que restaram após as supressões).

 

Podemos considerar que este período, com avanços e recuos, foi-se prolongando até aos anos 30/40. Efectivamente, a jovem república assumiu a educação como a sua "paixão" (onde é que já se ouviu isto?) e continuou o investimento em escolas; do mesmo modo, os primórdios do Estado Novo ficaram marcados ainda por extensas obras públicas (que depois eram apresentadas na Lição de Salazar).

 

Consequentemente, até aos anos 50, e pese embora as migrações que abordámos  na crónica anterior, a população foi aumentado, tanto a nível global, como ao nível local. Isto é, todos os concelhos, de um modo geral, viam a sua população crescer a cada censo que passava e, por conseguinte, aumentava também a população global do país. Isto até aos anos 50.

 

Mas a partir dos anos 60 o cenário mudou. O catalisador, terá sido, sem dúvida a Guerra Colonial, mas havia outros motivos subjacentes. Aos nossos olhos modernos e, sobretudo, aos dos que já não vivenciaram em primeira mão, será um pouco difícil imaginar a miséria geral que caracterizava o interior, nos anos 60, principalmente se falarmos das aldeias (pois, de algum modo, as vilas já detinham alguns dos confortos da vida moderna).

 

Mas nas aldeias do Portugal profundo, o panorama era, no mínimo medieval. Sim, vivia-se ainda como viveram os nossos antepassados na Idade média. De uma maneira geral, não havia água, nem luz, nem saneamentos; muitas das ruas não eram pavimentadas; algumas aldeias estavam ainda isoladas, sem qualquer estrada de acesso; as casas toscas, para além de deixarem entrar o frio e a chuva invernais pelos seus incontáveis buracos, não dispunham de qualquer equipamento, que hoje nos parecerá básico, nem, em muitos casos, havia sequer camas para todos os ocupantes (ouvi já relatos de quem tinha que dormir com o gado e só dormiu numa cama quando foi para a tropa...); as pessoas, mal vestidas e mal nutridas, não tinham acesso a cuidados de saúde; nem de higiene; nem de educação; nem de lazer; nem de coisa nenhuma; a economia era de subsistência, obrigando a labutar de sol a sol, para pouco colher; a pobreza grassava; a miséria gritava; a taxa de mortalidade infantil era das maiores do Velho Continente. Reitere-se: era a Idade Média em pleno século XX.

 

Estava, assim, criada toda uma legião de pessoas que nada tinha e que sabia que pouco podia ter. Quando rebenta a Guerra Colonial, muitos optam por partir. Preferível arriscar tudo na esperança de ir para uma vida melhor, num país onde a Idade Média já tivesse acabado, do que arriscar a vida na guerra. E foram, a salto, contrabandeados como gado por rotas clandestinas, por essas Espanha fora, sempre vivenciando o risco de serem apanhados pela Guardia Civil e devolvidos à casa de partida (tendo aí de lidar com a PIDE) ou de serem enganados pelos passadores e abandonados no meio do nada. E foram; e um chamou o outro; e mais outro; e veio a mulher (para se fazer mais dinheiro em menos tempo, para mais rápido se regressar); e veio o filho (para poder ter oportunidades que não teria na terra natal); e, quando se deu por ela, tinha ido quase toda a gente; foi como um fósforo ardente, que num instante consumiu povoações quase inteiras, e que não mais as devolveu.

 

(Esta crónica tem continuação)

 



Monumento ao emigrante, na Póvoa do Varzim, representando de forma crua e verdadeira a emigração dos anos 60, o salto.

(Fotografia de Pedro Magalhães, retirada de: http://www.panoramio.com/photo/31706998 )

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Publicado por Ilídio Monteiro Alves às 10:13

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Sábado, 16 de Novembro de 2013

Crónica de uma morte anunciada II

A primeira parte desta crónica serviu para tomarmos contacto com uma realidade aflitiva, que vai,  de ano em ano, flagelando cada vez mais o distrito de Bragança, bem como todo o interior deste país: a desertificação humana. Fizemo-lo, através da confrontação dos dados relativos ao número de habitantes dos concelhos do distrito brigantino, entre 1960 e 2011 - cinco décadas, portanto.


A conclusão necessariamente retirada da análise da flutuação populacional nesse período, é só uma: o interior está a morrer e a desertificação é hoje o maior dos problemas  que assola esta metade do país. Tomado contacto com o problema, urge a necessidade de se tecerem algumas considerações sobres as eventuais causas que levaram, e continuam a levar, a que chegássemos a este ponto sórdido.  Mas antes disso será importante trilhar um pequeno percurso pelos antecedentes históricos ocorridos no campo das migrações, antes do período de cinco décadas sob análise.


É que numa acepção minimalista, dir-se-ia, tão-somente, que a causa da desertificação são as migrações. E tal afirmação, não poderia deixar de estar, formalmente, correcta, pelo que faz sentido demorarmo-nos aqui um pouco. De facto, nos últimos 50 (quase 60) anos, assistiu-se a um fenómeno de migração maciça tanto para o estrangeiro (França, Brasil, Suíça, Alemanha e Luxemburgo são alguns dos principais destinos desse fluxo migratório), como para os centros urbanos do Litoral (Lisboa e Porto, essencialmente). A este mega fenómeno, há que ainda somar outro de menor dimensão que leva as pessoas das aldeias a mudarem-se para as vilas sede de concelho. De igual modo, as cidades capitais de distrito recebem habitantes dos outros concelhos do seu distrito.


Como vemos, estabeleceram-se várias rotas migratórias possíveis, que vão desde a mera deslocação para a sede de concelho, até à fuga para os países mais longínquos imagináveis. Ora, e como não há um fluxo migratório inverso (pelo menos em numero assinalável) nem uma taxa da natalidade razoável (em 2011 cifava-mos nos 1.35 filhos por mulher, sendo mesmo a mais baixa da UE, segundo dados do INE) não tem sido possível repor os níveis populacionais no interior. Mas desenvolver-se-á este ponto noutra altura.


Por agora, e divagando um pouco pelas rotas da história, há que referir que a emigração não é fenómeno novo em  Portugal e que, desde que destas coisa há memória, sempre temos sido um país de forte emigração. Logo que nos lançámos na expansão marítima no século XV, assistimos imediatamente ao estabelecimento de fluxos migratórios - de diminuta escala, é certo, mas existente -  para as várias colónias e feitorias que possuíamos no norte de Africa,  costa africana, ilhas atlânticas, subcontinente indiano, extremo oriente , sudoeste asiático e américa austral. Este fluxo populacional tinha causas administrativas, digamos assim. Isto é, seria impulsionado por uma necessidade de administrar militar, civil e religiosamente os novos territórios, que seguia paralela à necessidade de manter feitorias mercantis nesses pontos. Seria, portanto, uma emigração povoada por gente que saía do país quase em comissão de serviço ao reino, esperando cumprir uns anos nessas paragens, para depois  voltar à terra pátria (vendo bem as coisas, não será com essa mesma vontade que saem todos os emigrantes?...)


Posteriormente, o ouro do Brasil levou muitos a atravessar o Atlântico e tentar a sorte por terras de Vera Cruz nos inícios do século XVIII, o que configurou, talvez, o primeiro grande êxodo da nossa história.  Mais tarde, a partir da segunda metade do século XIX, assistiu-se a um novo fluxo emigratório, novamente com o Brasil como destino, que se manteve muito constante durante as décadas seguintes e seria mesmo alargado, em menor escala, aos Estados Unidos.  Portanto, mesmo antes destes últimos 50 anos, a emigração  já era um facto de natural ocorrência entre nós.


Outro fluxo populacional que importa referir, a migração interna para os centros urbanos do litoral, começou no século XIX com o surgimento dos primeiros polos industriais e foi sempre aumentando de intensidade até se tornar maciça nos anos 50 do século XX, altura em que as cidades de Lisboa e Porto (e os seus arrabaldes) cresceram exponencialmente. E foi precisamente este o tiro de partida para a catástrofe que começou na década seguinte e que nos trouxe, longo de cinquenta anos, ao ponto em que estamos hoje.


 

 

Emigrantes Portugueses no Terreiro do Paço, à espera de embarcar rumo a outras paragens, nos finais do século XIX.

Fotografia retirada de http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Imigrantes_portugueses.jpg




(Esta crónica tem continuação)

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Sexta-feira, 8 de Novembro de 2013

Crónica de uma morte anunciada I

                 Comecemos por colocar, sobriamente, o dedo na ferida: o interior está a morrer. Assim. Ponto. Sem rodeios. Está a moribundo há já cinco décadas e aparentemente, não há nada que se possa fazer para evitar este desfecho, uma vez que, tudo o que se fez na tentativa de contrariar este cenário, nomeadamente ao nível do poder local (pois o Estado central tem sido promotor activo desta fatalidade), foi inglório (mas não totalmente inútil) e não logrou inverter, nem sequer travar, ou quanto muito desacelerar o penoso processo de perecimento total da metade do país que não esta 'à beira mar plantada'.

                Reitere-se: o interior está a morrer. Quanto às causas, não as apontaremos neste artigo, ficando para uma outra oportunidade. Mas não são misteriosas. Todos as conhecemos. O que importa antes de mais é reconhecer o problema. E para isso há que tomar contacto com os números e aí, o quadro não mente. Observando a evolução demográfica, desde 1960 até 2011 (data dos últimos censos), deparamo-nos com a sombria constatação  de que o distrito de Bragança perdeu  40% dos seus cidadãos nos últimos 50 anos. Em apenas meio século mais de 92.000 pessoas desapareceram, qual êxodo, do distrito brigantino.

                Como se pode observar no quadro, o panorama em todos os concelhos é genericamente mau. A única excepção é a capital distrital, que perdeu apenas à volta de 2000 habitantes (o que corresponde a pouco mais de 0,5% da população) e que, portanto, é o único concelho que tem mantido uma cifra populacional constante. O cenário da perda de população começa a piorar se passarmos para as outra cidades do distrito, Mirandela e Macedo de Cavaleiros. Aqui as perdas humanas já atingem valores na casa dos 20%, o que já começa a configurar um cenário preocupante.

                Nas restantes nove municipalidades do distrito, o assunto ganha contornos catastróficos, registando todas elas valores acima da média distrital, que, recorde-se, se cifra em 40,46% da população. O panorama ascende a um patamar verdadeiramente dantesco, onde as perdas de habitantes ultrapassam mesmo os 60%, em três concelhos: Miranda do Douro, Vimioso e Vinhais. Este último é mesmo o campeão da desertificação humana, tendo perdido, note-se bem, 17.511 habitantes nas últimas cinco décadas, o que é o mesmo que dizer, que Vinhais perdeu 65,88% da sua população! Uma tragédia humana, que parece apenas ser possível, aos olhos da lógica mundana, em casos de acidentes nucleares, algo que, segundo tenho notícia, não ocorreu no nordeste trasmontano.

                Quanto a Vila Flor, duas palavra há a dizer: insere-se, como quase todos os outros concelhos, no patamar tenebroso dos que perderam mais de 40% da população (patamar, aliás, onde só não figuram as três cidades do Distrito), mas, dentro desse grupo é o que regista o cenário melhor, rectius, menos mau. O município perdeu 43.38% da sua população no último meio século (averba menos 5000 habitantes do que em 1960), número que coloca Vila Flor como o concelho que mais próximo está da média distrital, de onde se infere que, na verdade, Vila Flor é o rosto, o concelho-tipo, da desertificação humana do distrito de Bragança.

Temas:
Publicado por Ilídio Monteiro Alves às 08:46

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Sexta-feira, 1 de Novembro de 2013

D. NUNO MARTINS DE CHACIM

UM GRANDE FIDALGO TRANSMONTANO NA CORTE RÉGIA

 

Por: Jofre de Lima Monteiro Alves

 

D. Nuno Martins de Chacim, nasceu em 1218, filho de Martim Peres de Chacim e de D. Froile ou D. Fruilhe Nunes de Bragança.

 

Árvore de Costados de D. Nuno Martins de Chacim

Próprio

Pais

Avós

D.   Nuno Martins de Chacim

 

N.   1218

F.   1286

Martim   Peres de Chacim

 

N.   1190

Pedro   Mendes “Estriga”

N.   1160

 

D.   Fruilhe Nunes de Bragança

 

N.   1200

F.   1258

D.   Nuno Peres de Bragança

N.   1155

F.   1209

D.   Maria Fogaça

 

    Foi armado cavaleiro pelo seu primo D. Fernando Garcia de Bragança (1237); cavaleiro fidalgo; rico-homem; chefe da linhagem Braganção, embora descendesse dessa família por linha bastarda feminina (1250 – 1286); comprou metade da vila de Morais; apoderou-se dos reguengos de Vilar de Peredo e de Vilar de Talhas, em Macedo de Cavaleiros; proprietário em Grijó de Vale Benfeito; obrigou o concelho de Santa Cruz da Vilariça a dar-lhe de facto a metade da vila do Prado que ele já trazia ocupada à força; apropriou-se de metade do lugar de Prados da Ribeira e de todo o lugar de Vilarelhos e os herdamentos de Carvelas e de Vale de Asnos; segundo as Inquirições Gerais de Dom Afonso III era um verdadeiro pontentado, dos maiores proprietários de Trás-os-Montes, a maioria devido a actos de usurpação, em especial nos actuais concelhos de Alfândega da Fé (Santa Catarina de Vilares de Vilariça, Santa Justa de Vilarelhos, Santo Apolinário de Vale Pereiro, São Tomé de Vilarelhos), Bragança (Agrochão, Azeneiro, Casal de Cibrão de Izeda, Santa Comba de Rossas, Santa Eufémia de Bragada, Santa Maria de Bragança, Santa Maria de Grijó de Parada, Santa Maria de Izeda, Santa Maria de Morais, Santa Maria de Quintela de Lampaças, Santa Maria de Sarzeda, Santa Maria de Serapicos, Santo Estêvão de Espinhosela, São Bento de Castro de Avelãs, São Cláudio de Formil, São Gens de Parada de Infanções, São Geraldo de Moredo, São Geraldo de Santa Comba Nova, São Justo de Calvelhe, São Mamede de Sortes, São Martinho de Quintela, São Miguel de Fermentões, São Miguel de Paçó de Sortes, São Miguel de Valdreses, São Nicolau de Salsas, São Pedro de Carção, São Pedro de Corrézios, São Pedro de Sendas, São Pedro de Zorrozinhos, São Vicente de Bragança, Vale de Gosende, Vale de Nogueira, Vilar de Baldreias, Vilar de Bovaeses, Vilar de Coelhoso, Vilar de Deilão, Vilar de Sanceriz, Vilar de Talhas, Vilarinho), Macedo de Cavaleiros (Azibeiro, Grijó de Vale Benfeito, Santa Comba de Chacim, Santa Isabel de Vilar de Bouzende, Santa Maria da Torre de Ferreira, Santa Maria de Bornes, Santa Maria de Castelãos, Santa Maria de Lamas de Podence, Santa Maria de Podence, Santa Maria de Talhinhas, Santa Maria de Vale Benfeito, Santo André de Morais, São Geraldo de Banrezes, São Geraldo de Carrapatas, São Jerónimo de Vale de Prados, São Martim de Travanca, São Martinho de Vilar do Monte, São Miguel de Cernadela, São Miguel de Talhas, São Nicolau de Vale de Cortiços, São Pedro de Macedo de Cavaleiros, São Vicente de Vale da Porca, Vilar de Peredo, Vilar de Santa Ala de Macedo), Mirandela (Quintã de Gulfeiras, Santa Comba de Monte Orelhão, Santa Cruz de Lamas de Orelhão, Santa Maria de Franco, Santa Maria de Mascarenhas, Santa Maria de Mirandela, Santa Maria de Suçães, Santa Maria de Valverde, Santo André de Vale de Gouvinhas, São Brás de Carvelas, São Gonçalo de Cedaínhos, São Gonçalo de Vale da Sancha, São Miguel de Frechas, São Pedro de Vale de Asnes, Vale de Lobo, Vila Nova das Patas), Torre de Moncorvo (Lagoa, Prado de Ribas, Santa Cruz de Vilariça, Santiago de Junqueira da Vilariça, São Sebastião de Horta da Vilariça), Valpaços (Santa Comba de Monte Orelhão, Santa Maria de Bouçoães, Santa Maria de Émeres, Santa Maria de Sobreimares, Santa Maria de Veiga de Lila, Santiago da Ribeira de Alhariz, São Bartolomeu de Água Revés e Crasto, São Mamede de Argeriz, São Nicolau de Carrazedo de Montenegro, São Nicolau de Vales, São Pedro de Lila, São Pedro de Rio Torto, Vila de Auarenta, Vila de Rendufe ou Randufi de Trascarrazedo de Montenegro, Vila de Ripis ou Ribas), Vila Flor (Alagoa, Santiago de Lodões, Santo André de Sampaio, São Lourenço de Vale Frechoso, São Pedro de Santa Comba de Vilariça), VimiosoVinhais (Santa Maria de Vinhais, Santo André de Ousilhão, Santo Estêvão de Brito, Santo Ildefonso de Moás, São Facundo de Crespos, São Mamede de Agrochão, São Mateus e São Miguel de Sobreiró, São Miguel de Vila Boa de Ousilhão, São Pedro de Moimenta, São Pedro de Montouto, São Pedro de Penhas Juntas) e Chaves (1258); fixa residência na Corte Régia (1258); valido e «muito honrado e privado d’el-rei»; adiantado-mor em Entre-Douro-e-Minho; adiantado-mor na Beira; meirinho-mor do Reino de Portugal (1261 – 1276); embaixador encarregado de traçar a delimitação da fronteira entre Portugal e o Reino de Leão, desde Sabugal até ao Rio Minho (1264); comprou a herdade de Chacim a seu tio Fernão Fernandes Cogominho (1265); governador da tenência de Bragança (1265 – 1285); como «Nunus Martinj de Chasin meyrinus tenens Bragaciam» confirma o foral de Silves (1266); aio do Infante Dom Dinis, futuro rei Dom Dinis (1270 – 1279); nomeado pelo rei para «tutor, procurador e guardador» dos filhos e netos de seu tio Fernão Fernandes Cogominho e testamenteiro encarregado de fazer as respectivas partilhas dos bens (1277); 27.º mordomo-mor do Reino, na Cúria do Rei Dom Dinis (1279 – 1284); indicado como garante do acordo para pôr fim às desavenças entre o rei Dom Dinis e seu irmão Infante Dom Afonso (1281).

Faleceu em 1286 e foi sepultado no Mosteiro de São Salvador de Castro de Avelãs, em Bragança.

D. Nuno Martins de Chacim casou pela primeira vez, em 1242, com D. Sancha Peres Correia, filha de D. Pedro Pais Correia e de D. Dordia Pires de Aguiar. Filhos:

1 – D. MARIA NUNES DE CHACIM, nasceu em 1243.

Casou com Fernão Esteves Pintalho, filho de Estêvão Anes da Macieira e de D Urraca Viegas de Portocarreiro; com geração.

2 – D. MAIOR NUNES DE CHACIM, nasceu em 1244.

Casou com Gonçalo Anes de Revereda; com geração.

3 – GOMES NUNES DE CHACIM, nasceu em 1246.

Foi clérigo «mui boo e muito hõrado».

D. Nuno Martins de Chacim casou em segundas núpcias, em 1248, com sua parente D. Teresa Nunes da Silva, filha de D. Nuno Mendes da Silva, “o Queixada”, e de D. Sancha Pais de Alvarenga. Filhos:

4 – HEITOR NUNES DE CHACIM, nasceu em 1249.

Foi meirinho-mor de Entre-Douro-e-Minho (1299).

Faleceu em 1303.

Casou com sua parente D. Marquesa Gil de Soverosa, filha de D. Gil Vasques de Soverosa e de D. Aldonça Anes da Maia; sem descendência, tendo contudo geração bastarda.

5 – D. FRUILHE NUNES DE CHACIM, nasceu em 1250.

Proprietária no Julgado de Baião.

Casou com Pedro Nunes de Baião; com geração.

6 – ÁLVARO NUNES DE CHACIM, nasceu em 1252.

Morreu quando o «matarom por ser sandeu».

7 – GIL NUNES DE CHACIM, nasceu em 1255.

Pajem da Casa do Infante Dom Dinis; cavaleiro vassalo (1278).

Faleceu em 1297.

Casou com D. Maria Martins Zote, filha de Martim Pires Zote e de D. Maria Vicente; com geração.

8 – SANCHO NUNES DE CHACIM, nasceu em 1258.

Cavaleiro; proprietário na Terra de Panoias, Julgado de Vermoim e Julgado de Baião.

Faleceu em 1301.

Casou com D. Teresa Vasques de Zagomba, filha de Vasco Gomes Zagomba e de D. Maria Pires; com geração.

9 – D. SANCHA NUNES DE CHACIM, nasceu em 1260.

Senhora da Honra de Agrochão, em Vinhais.

Casou com seu parente D. Lourenço Soares de Valadares, filho de D. Soeiro Pais de Valadares e de D. Estevainha Ponce de Baião; com geração.

10 – D. URRACA NUNES DE CHACIM, nasceu em 1261.

Casou com Martim Anes do Vinhal, filho de D. João Gomes do Vinhal e de D. Maria Pires de Aguiar.

11 – D. TERESA NUNES DE CHACIM, nasceu em 1262.

Casou com D. Fernão Pires de Barbosa, filho de D. Pedro Nunes de Barbosa e de D. Elvira Martins da Maia; com geração.

12 – D. BERENGÁRIA NUNES DE CHACIM, nasceu em 1264.

Freira no Mosteiro de Santos.

Faleceu em 1292.

13 – D. BRANCA NUNES DE CHACIM, nasceu em 1265.

Monja no Mosteiro de Arouca.

Filhos bastardos de D. Nuno Martins de Chacim:

14 – RUI NUNES DE CHACIM, nasceu em 1243, filho bastardo de D. Nuno Martins de Chacim e de D. Marinha Gomes de Briteiros, monja e abadessa do Convento de Arouca.

Foi legitimado por carta régia (18 de Novembro de 1265); proprietário em Santa Maria de Vale Benfeito.

Casou com sua prima D. Aldonça Martins de Bragança, filha de Martim Pires Tavaia e de D. Aldonça Pais Marinho; com geração.

15 – MARTIM NUNES DE CHACIM, nasceu em 1255.

Foi freire da Ordem de Santiago; comendador de Parada (1288). Com geração ilegítima.

Cruzeiro de Santa Comba de Vilariça, no concelho de Vila Flor. 

Publicado por Jofre de Lima Monteiro Alves às 01:01

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Sábado, 26 de Outubro de 2013

Tomada de Posse dos Órgãos Autárquicos, 2013-2017

Tomaram posse, no passado dia 19 de Outubro, os titulares dos novos órgãos autárquicos do concelho de Vila Flor, eleitos no sufrágio de dia 29 de Setembro, para o mandato de 2013/2017. A cerimónia decorreu no Centro Cultural de Vila Flor e deixamos aqui algumas fotografias do evento. Informa-se ainda que no mesmo dia, tomaram igualmente posse as novas Assembleias e Juntas de Freguesia de todo o município.



Tomada de posse do novo Presidente da Câmara Municipal, O Eng.º Fernando Barros.





Tomada de posse do Dr. Fernando Almeida, como vereador.






Tomada de posse como Deputado à Assembleia Municipal do Dr. João Valério e perspectiva da plateia que testemunhou as cerimónias.
Publicado por Ilídio Monteiro Alves às 22:43

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Quarta-feira, 23 de Outubro de 2013

Caminhada em Vila Flor


Participe!
Temas:
Publicado por Ilídio Monteiro Alves às 23:40

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Domingo, 15 de Setembro de 2013

ÓRGÃOS SOCIAIS DA ASSOCIAÇÃO DE CARVALHO DE EGAS

Órgãos Sociais da Associação Cultural Recreativa e Desportiva de Carvalho de Egas para o triénio de 2013 – 2016, eleitos a 21 de Agosto de 2013:

 

Mesa da Assembleia Geral

Presidente: Ilídio Inocêncio Monteiro Alves

Secretário: Carlos Seixas

Vogal: Maria de Fátima Amaral

 

Direcção

Presidente: Maria Fernanda Trigo Neri Tabuada

Tesoureiro: Amândio Taboada Trigo

Secretário: Manuel Tabuada

 

Conselho Fiscal

Presidente: Maria Teresa Nunes

Secretário: Manuel Carreto

Vogal: Francisco Nunes

Publicado por Jofre de Lima Monteiro Alves às 09:00

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Sexta-feira, 30 de Agosto de 2013

FESTA DA ASSOCIAÇÃO DE CARVALHO DE EGAS – V



Publicado por Jofre de Lima Monteiro Alves às 09:00

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Quarta-feira, 28 de Agosto de 2013

FESTA DA ASSOCIAÇÃO DE CARVALHO DE EGAS – IV



Publicado por Jofre de Lima Monteiro Alves às 09:00

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Terça-feira, 27 de Agosto de 2013

FESTA DA ASSOCIAÇÃO DE CARVALHO DE EGAS – III



Publicado por Jofre de Lima Monteiro Alves às 11:30

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Segunda-feira, 26 de Agosto de 2013

FESTA DA ASSOCIAÇÃO DE CARVALHO DE EGAS – II



Publicado por Jofre de Lima Monteiro Alves às 09:00

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Domingo, 25 de Agosto de 2013

FESTA DA ASSOCIAÇÃO DE CARVALHO DE EGAS – I

Imagens da festa do V Aniversário da Associação Cultural Recreativa e Desportiva de Carvalho de Egas, que decorreu no passado dia 18 de Agosto de 2013 na aldeia de Carvalho de Egas, freguesia do concelho de Vila Flor.

Publicado por Jofre de Lima Monteiro Alves às 09:00

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Sábado, 10 de Agosto de 2013

PARA A HISTÓRIA DE VILA FLOR: Destilarias em Roios e Santa Comba

Por: Jofre de Lima Monteiro Alves

 

    A prática da destilação vem dos fundos dos tempos da humanidade, pese embora tenham sido os árabes quem inventaram os princípios e instrumentos gerais aplicados à extracção de álcool e aromas das plantas, introduzindo, ainda o alambique, o qual foi durante séculos o único meio utilizado na Europa. As modernizações introduzidas no século XIX pelo operário Eduardo Adam, de Ruão, permitiram a industrialização acelerada de líquidos diferentes e em grande escala, o que levou a um notável incremento.

 

    Foi nesse contexto que começaram a surgir um pouco por todo o lado do território nacional diversas instalações destilatórias, um arremedo de industrialização moderna. Para colocar alguma ordem no caos, o processo de licenciamento era centralizado administrativamente na Repartição Técnica da Direcção-Geral das Obras Públicas, em Lisboa, logo no arranque da Regeneração, em meados da centúria de Oitocentos.

 

    As fabriquetas em causa obedeciam a diversos preceitos e regras de segurança, exigindo a obrigatoriedade de «remover cuidadosa e promptamente para fóra do edificio os residuos da destilação», a necessidade de «cobrir de lageado ou calçar de pedra miuda o pavimento inferior da oficina», para além de «uma ventilação ampla». O projecto era igualmente acompanhado pelo esboço da planta do edifício.

 

 

    Na centúria de 1800 e no espaço geográfico do concelho de Vila Flor, temos notícia de certa certeza da existência de fábricas de destilação de aguardentes nas seguintes localidades, indicando por ordem cronológica, sempre que possível, o proprietário e o ano de licenciamento, lista que não é exaustiva nem tampouco esgota o tema:

Roios: Manuel António de Oliveira e António Benedito de Moraes, por licença da Direcção-Geral das Obras Públicas, em Agosto de 1859;

Santa Comba de Vilariça: Manuel António de Oliveira e José António de Oliveira, por licença da Direcção-Geral das Obras Públicas, em Agosto de 1859;

Meireles: Daniel Gonçalves de Seixas, por resolução do Conselho Distrital de Bragança de 24 de Novembro de 1863;

Vilarinho das Azenhas: por licença da Direcção-Geral das Obras Públicas de 19 de Janeiro de 1864;

Freixiel: Eduardo António de Almeida, por resolução do Conselho Distrital de Bragança de 26 de Abril de 1864;

Vilas Boas: José de Morais Botelho, por resolução do Conselho Distrital de Bragança de 3 de Novembro de 1864, no sítio da Batoca;

Vila Flor: Manuel da Silva e Luís da Costa Morais, por licença da Direcção-Geral das Obras Públicas, autorizados em 1866 a montar uma destilaria na Rua da Portela;

 – Vila Flor: João Alves Calado, em 1872;

Vilarinho das Azenhas: João Alves Calado, por resolução do Conselho Distrital de Bragança de 2 de Abril de 1872, no sítio da Custunha;

Samões: José Aurelino de Moraes, por licença da Direcção-Geral das Obras Públicas, autorizado em 1873 a criar a fábrica de destilação de vinho para aguardente no lugar do Barracão;

Seixo de Manhoses: Augusto dos Santos Moutinho, por licença da Direcção-Geral das Obras Públicas em 1874;

Freixiel: Joaquim Ferreira Henriques, por alvará do Governo Civil do Distrito de Bragança em 10 de Março de 1876.

 

    O documento que hoje trago à colação está depositado no Arquivo Nacional da Torre do Tombo e, embora não seja vital para a História, é, sem dúvida, um testemunho curioso e gracioso. Trata-se do envio duma nota do Ministério das Obras Públicas, Comércio e Indústria, que depois de ter ouvido a opinião consultiva do Conselho de Obras Públicas e Minas, remete para a devida apreciação do Ministro dos Negócios do Reino.

 

    Em causa estava a autorização para fundar destilarias industriais ou «fábrica de aguardente», conforme o texto, nas freguesias de São João Baptista de Roios e de São Pedro de Santa Comba de Vilariça, no concelho de Vila Flor, e, também, em São Romão de Edral, no termo de Vinhais. Na parte que nos interessa particularmente, o torrão vila-florense, os peticionários eram Manuel António de Oliveira e António Benedito de Moraes, para Roios, e o mesmo Manuel António de Oliveira desta feita de braço dado com José António de Oliveira para a freguesia de Santa Comba. Eis, o documento em causa, naquela grafia agridoce das eras passadas:

 

Ministerio das Obras Publicas

Direcção Geral das Obras Publicas

Repartição Techica

 

Ill.mo e Ex.mo Snr.

 

Em respostas aos officios que V. Ex.ª se dignou dirigir-me em datas de 30 de Junho ultimo, cabe-me a honra de enviar a V. Ex.ª as consultas do Conselho d’Obras Publicas e Minas e seus respectivos processos, relativos ás licenças que pedem para estabelecer no Districto de Bragança algumas fabricas d’aguardente – Luiz Lopes e Luiz de Souza no logar d’Edral – Manuel Antonio d’Oliveira e Antonio Benedicto de Moraes no sitio de Roios – Manuel Antonio d’Oliveira e José Antonio d’Oliveira no logar de Santa Comba.

Deus Guarde a V. Ex.ª

Ministerio das Obras Publicas, Commercio e Industria em 12 d’Agosto de 1859.

Ill.mo e Ex.mo Snr. Ministro e Secretario d’Estado dos Negocios do Reino

 

Antonio de Serpa Pimentel

 

    Na folha anexa, a Administração do Concelho de Vila Flor lavrou a informação respeitante ao custo da remessa da papelada para a capital do império:

Pagou de Sello Real desta na forma a quantia de quarenta réis e compor averbamento que fica lançado no livro competente fl. 7 vº

Villa Fllor 6 de Junho de 1859

O Administrador do Concelho

Seabra

O Recebedor

M S Seixas

 

 

    Dos peticionários nada consta, gente que ficou soterrada no anonimato do pó da História. Porém, noutra ocasião direi alguma coisinha do administrador Seabra – espero ansiosamente que não seja no Dia de São Nunca.

 

    Entrementes, por serem figuros mastodônticos nas páginas da gesta da Pátria, alinhavo já umas migalhas telegráficas acerca dos dois ministros envolvidos, a começar pelo remente e assinante. Ao leitor com digestões pesadas e estômagos delicados aconselho vivamente a terminar a leitura desde já. O que vem a seguir é deveras maçudo, um fardo de palha, tão-somente serve para aumentar a zoeira da cabeça.

 

    António de Serpa Pimentel nasceu em Coimbra a 20 de Novembro de 1825, filho do dr. Manuel de Serpa Machado e de D. Ana Rita Freire Pimentel de Mesquita. Foi aspirante de Infantaria (4 de Março de 1842); alferes de Infantaria (16 de Fevereiro de 1844); doutor em Matemática pela Universidade de Coimbra (1846); redactor do jornal O FAROL (1848 – 1849); tenente (6 de Dezembro de 1848); professor de Álgebra e de Cálculo da Escola Politécnica de Lisboa (1851); capitão do Exército (24 de Abril de 1851); sócio da Academia Real das Ciências (1851); jornalista (1852); deputado da Nação pelo círculo de Oliveira de Azeméis (24 de Janeiro de 1856); Ministro das Obras Públicas, Comércio e Indústria (16 de Março de 1859 – 4 de Julho de 1860); ministro interino da Guerra (24 de Abril de 1959 – 1 de Maio de 1860); fundador e redactor da GAZETA DE PORTUGAL (1862); membro da comissão especial da Câmara de Deputados para apreciar a proposta acerca das Congregações Religiosas do Ensino (1862); conselheiro do Tribunal de Contas (12 de Janeiro de 1867); Par do Reino (23 de Dezembro de 1871); Ministro dos Negócios da Fazenda (2 de Agosto de 1872 – 5 de Março de 1877); major do Exército (10 de Setembro de 1873); tenente-coronel (4 de Outubro de 1876); conselheiro efectivo do Conselho de Estado (21 de Janeiro de 1876); Ministro dos Negócios da Fazenda (29 de Janeiro de 1878 – 1 de Junho de 1879); coronel graduado do Exército (26 de Janeiro de 1881); Ministro dos Negócios Estrangeiros (14 de Novembro de 1881 – 31 de Maio de 1883); enviado extraordinário e ministro plenipotenciário junto à Conferência de Berlim (Novembro de 1884 – Fevereiro de 1885); presidente do Tribunal de Contas (12 de Agosto de 1886 – 2 de Março de 1900); chefe do Partido Regenerador (20 de Julho de 1887); fundador e editor do PARTIDO REGENERADOR: Jornal da Noite (Agosto de 1887); presidente Conselho de Ministros, Ministro da Presidência, Ministro dos Negócios do Reino e Ministro da Guerra (13 de Janeiro de 1890 – 14 de Outubro de 1890); agraciado com a grã-cruz da Ordem da Torre e Espada (1890); presidente da comissão de sindicância da administração da Companhia Real dos Caminhos de Ferro Portugueses (12 de Janeiro de 1892); presidente da comissão para o convénio com os credores externos (1892); poeta; dramaturgo; ensaísta; estadista. Faleceu em Lisboa a 2 de Março de 1900.

 

    O ministro dos Negócios do Reino, a quem se destinava a papelada, era o famosíssimo Fontes Pereira de Melo, o maior estadista da fase final do século XIX. António Maria de Fontes Pereira de Melo nasceu em Lisboa a 8 de Setembro de 1819, filho do conselheiro João Fontes Pereira de Melo e de D. Jacinta Venância Rosa da Cunha Matos Oliveira e Fontes. Foi grumete voluntário da Marinha (13 de Agosto de 1833); alferes de Engenharia (3 de Novembro de 1835); 2.º tenente do Real Corpo de Engenheiros (Novembro de 1839); fidalgo da Casa Real; director das Obras Públicas de Cabo Verde (1840 – 1842); tenente de Engenharia (20 de Julho de 1841); deputado da Nação pelo círculo de Cabo Verde (25 de Abril de 1848); fundador da REVISTA MILITAR (1 de Dezembro de 1848); capitão de Engenharia (29 de Abril de 1851); Ministro da Marinha e Ultramar (7 de Julho de 1851 – 4 de Março de 1852); Ministro dos Negócios da Fazenda (21 de Agosto de 1851 – 6 de Junho de 1856); Ministro das Obras Públicas, Comércio e Indústria (30 de Agosto de 1852 – 6 de Junho de 1856); introduziu os caminhos-de-ferro; introduziu a telegrafia eléctrica (1855); enviado especial do Governo a Inglaterra e França a fim de arranjar crédito externo para construir os «melhoramentos materiais» (Novembro de 1855 – Janeiro de 1856); deputado da Nação pelo círculo de Lisboa (24 de Janeiro de 1857); vice-chefe do Partido Regenerador (1858); Ministro dos Negócios do Reino (16 de Março de 1859 – 4 de Julho de 1860); deputado da Nação pelo círculo de Viana do Castelo (1860); deputado da Nação pelo círculo de Lisboa (10 de Junho de 1861); deputado da Nação pelo círculo de Nova Goa (13 de Janeiro de 1865); major de Engenharia (10 de Outubro de 1865); Ministro da Fazenda (4 de Setembro de 1865 – 4 de Janeiro de 1868); conselheiro efectivo do Conselho de Estado (7 de Maio de 1866); ministro interino da Guerra (9 de Maio de 1866); tenente-coronel de Engenharia (30 de Junho de 1868); Par do Reino (18 de Janeiro de 1870); chefe do Partido Regenerador (1870); Presidente do Conselho de Ministros, Ministro da Presidência e Ministro da Guerra (13 de Setembro de 1871 – 5 de Março de 1877); Ministro da Fazenda (13 de Setembro de 1871 – 2 de Agosto de 1872); coronel de Engenharia (2 de Outubro de 1873); Presidente do Conselho de Ministros, Ministro da Presidência e Ministro da Guerra (29 de Janeiro de 1878 – 1 de Junho de 1879); general de Brigada (25 de Setembro de 1879); presidente da Comissão Central 1.º de Dezembro de 1640 – Sociedade Histórica da Independência de Portugal (1 de Fevereiro de 1880 – 22 de Janeiro de 1887); presidente da Câmara dos Pares do Reino (Junho de 1881); governador da Companhia Geral do Crédito Predial Português (1881 – 1887); Presidente do Conselho de Ministros, Ministro da Presidência e Ministro da Guerra (14 de Novembro de 1881 – 20 de Fevereiro de 1886); Ministro dos Negócios da Fazenda (14 de Novembro de 1881 – 24 de Outubro de 1883); ministro interino das Obras Públicas (24 de Fevereiro de 1885 – 19 de Novembro de 1885); presidente do Supremo Tribunal Administrativo; general de Divisão (30 de Junho de 1886). Faleceu em Lisboa 22 de Janeiro de 1887.

Publicado por Jofre de Lima Monteiro Alves às 01:01

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