Quarta-feira, 16 de Julho de 2014

Nótulas demográficas d'Além Sabor - 2: Freguesia de Vila Flor

Comecemos, pois, esta nova série de artigos, com a exposição e análise dos quadros demográficos referentes à freguesia sede do nosso concelho. A ordem a utilizar, seria a ordem alfabética (e vai ser, daqui para a frente), mas entendemos quebrar, por uma vez que seja, esse padrão, para falarmos em primeiro lugar, da evolução demográfica da sede de concelho, até porque é a que se apresenta com um cenário mais positivo entre todas as freguesias do concelho. Comecemos, portanto, com as boas notícias.

 

Este é o quadro que nos refere a evolução, ao longo dos últimos 150 anos, do número de habitantes que os sucessivos censos foram apurando na freguesia de Vila Flor (Vila Flor e Arco, portanto):

 

 

Apresentamos agora, o gráfico que mostra que tipo de variação (se positiva, se negativa) ocorreu na freguesia de censo para censo, e quanta percentagem a localidade perdeu ou ganhou entre cada recenseamento. (Este será o modelo a utilizar para todas as análises):
Procedamos, portanto, à análise destes dados. Constatamos que há 150 anos atrás, Vila Flor tinha perto de 1500 habitantes, cifra que até à última década do século XIX cresceu para os 2093 residentes (um aumento de de 34,5%, como podemos ver no segundo quadro). Este crescimento é, regra geral, comum ao país inteiro e coincide com um período de alguma prosperidade económica da nação, fruto do pós-regeneração que trouxe grandes avanços e alguma modernidade ao Reino português e que quebrou com a crise motivada por quase 50 anos de guerras, golpes de estado e instabilidades várias: desde as Guerras Napoleónicas, à Patuleia, passando pela perda do Brasil (que também envolveu uma mini-guerra) e pelas fratricidas guerras civis liberais. Só na segunda metade do século XIX, Portugal encontrou a paz, e com ela a estabilidade e o crescimento económico que justifica, pois, este crescimento demográfico generalizado e que também se verifica em Vila Flor.
Contudo, na última década desse século registamos uma perda de cerca de 400 habitantes, só na freguesia de Vila Flor!! Que justificará isso? A causa provável é a grande crise económica e financeira (em tudo similar à actual...) provocada pela falência do Estado em 1891/92 (também ela desencadeada por uma dívida externa insuportável...). Esta crise conduziu a uma emigração maciça para o Brasil (e com menor expressão, para os EUA).
As próximas décadas da demografia vilaflorense ficam marcadas pelo decréscimo, paulatino, do número de habitantes, até aos anos 20. Os efeitos da falência de 1892 prolongaram-se até ao fim da monarquia; a jovem República foi um antro de instabilidades; a Grande Guerra também levou a sua quota de homens para morrerem na Flandres e a gripe espanhola de 1918/19, causou fatalidades incontáveis entre a nossa população. Tudo isso levou a que a população vilaflorense, em 1920, se cifrasse em números similares aos de 1864. 
As três décadas seguintes foram, no entanto, de crescimento assinalável do número de habitantes, chegando Vila Flor aos anos 50 com cerca de 2200 habitantes. Porém, a estagnação do regime salazarista, aliada ao começo da Guerra Colonial, levou a que uma quebra notória se registasse e, 20 anos depois, havia menos cerca de 200 habitantes em Vila Flor.
Contudo a Vila (e ao arrepio, como veremos, das demais freguesias do concelho e de todo o interior em geral) conseguiu inverter este cenário com a chegada do regime democrático (que acabou com a Guerra e trouxe melhorias materiais importantíssimas) e registou um crescimento da população contínuo até ao fim do milénio, onde contava já com cerca de 2500 habitantes. Porém a tendência de decréscimo voltou, e em 2011, aquando do último recenseamento (e, portanto, antes presente da crise), já se registavam menos cerca de 250 pessoas a residir na sede de concelho. Os efeitos desta crise (que, todos sabemos, reacendeu fluxos emigratórios com números não praticados desde os anos 60) só serão grafados em 2021, mas tenho a certeza que, a esta altura, apenas 3 anos volvidos desde os censos, Vila Flor regista um decréscimo de habitantes.
Publicado por Ilídio Monteiro Alves às 10:10

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Terça-feira, 8 de Julho de 2014

Nótulas demográficas d'Além Sabor - 1: Apresentação

A demografia, ciência que estuda as flutuações populacionais ao longo dos tempos, é uma das áreas de interesse deste investigador-panfletista que se vos apresenta aqui com regularidade, conquanto nos mostra (no interior em geral, logo também em Vila Flor) um cenário assombroso  de desertificação, besta negra que nos aflige (ou devia afligir) a todos, mas que apoquenta este gazetista em particular, na medida em que conduz (talvez em maior medida do que qualquer outra causa, mais ou menos conjectural) o país à ruína, através de um desequilíbrio demográfico inquietante e de um abandono total de uma metade do país, a nossa metade do país.

 

Ímpio fardo a pesar sobre as povoações do interior, a desertificação não é coisa de agora (recordem-se as crónicas aqui escritas, há poucos meses, onde pudemos analisar as várias causas e consequências da desertificação), mas para saber quando, exactamente, começou a lavrar este imparável fogo que tudo consome, temos de ir aos dados estatísticos.

 

Pois bem, aproveitando uma série de quadros estatísticos do INE publicados na versão portuguesa da Wikipédia, iremos conduzir, ao longo das próximas semanas, uma análise sobre a evolução demográfica de cada freguesia de Vial Flor, ao longo dos últimos 150 anos, o que é um prazo bastante alargado, pelo que podemos ter acesso ao panorama geral da evolução demográfica de cada povoado.

 

Os méritos da recolha e tratamento dos dados estatísticos não são nossos (o seu a seu dono, pois claro!) e encontrámos estes quadros já feitos, mas a análise a publicar, onde entrecruzaremos os ditos dados com acontecimentos da história, para melhor perceber o porquê de cada variação, será da nossa feitura.

 

Uma vez que a desertificação é um dos maiores (o maior, até) problemas que afectam as nossas terras do sertão, sentimos ser nosso dever, dar alguma espécie de contributo (por ínfimo que seja) para alguma espécie de contra-ataque à desertificação (creio que uma resolução total já não será possível, mesmo que houvesse muita vontade política para tal). Assim, juntando às crónicas que aqui já deixámos (onde expusemos as causas e consequências), estas novas nótulas puramente estatísticas, pomos a nu o 'monstro' e chamamos a atenção para a sua verdadeira dimensão, fazendo a nossa parte, a do labor da pena, no ataque ao problema. A outros caberá, necessariamente, a outra parte, a mais importante: a do labor da espada, que possa lograr a fazer frente a fera tão destruidora, como é a desertificação.

 

 

 

 Gavião, outrora freguesia, hoje aldeia deserta, anexa ao Seixo de Manhoses, em fotografia própria de 2009. Se a evolução demográfica continuar com a tendência que tem tido nas últimas décadas, quantos mais 'Gaviões' existirão?

Temas:
Publicado por Ilídio Monteiro Alves às 10:10

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Terça-feira, 1 de Julho de 2014

VASCO FERNANDES DE SÃO PAYO

Um Grande Fidalgo de Vila Flor

 

Por: Jofre de Lima Monteiro Alves

 

    Vasco Fernandes de São Payo, filho primogénito e herdeiro de Fernão Vaz de São Payo e de D. Senhorinha Pereira, nasceu em 1420.

 

ÁRVORE DE COSTADOS DE VASCO FERNANDES DE SÃO PAYO

Próprio

Pais

Avós

Vasco Fernandes de São Payo

 

N. 1420

F. 1472

Fernão Vaz de São Payo

N. 1380

Vasco Pires de São Payo

 

D. Senhorinha Pereira

N. 1395

D. Henrique Pereira

 

 

 

    Foi moço-fidalgo da Casa Real[1] (1434); participou na Batalha de Alfarrobeira nas hostes do rei Dom Afonso V, contra o Infante Dom Pedro, “o das Sete Partidas” (20 de Maio de 1449); teve uma demanda com Martim Coelho «sobre hũua quymtãa que chamam de Bambares», no termo de Vila Real, «da quall quymtãa elle esteue em posse tempo avia e a possuya como cousa sua própria que era e de sua heramça», e que sem embargo dessa posse «ho ditto Martim Coelho ho trazia na dita demanda e comtenda sobre a dita quymtãa, mays por ho afadigar e lhe dar despesas e trabalho q por ter direito algũu neella», para além de o tal Martim Coelho ter sido partidário do Infante Dom Pedro na Batalha de Alfarrobeira e estava, por isso, ausente «e ora se fora de nossos regnos», motivo pelo qual El-Rei Dom Afonso V lhe deu razão e lhe fazia «merçee dalgũu direyto que o dito Martim Coelho comtra elle tiuesse» (30 de Junho de 1449)[2]; proprietário; 3.º Senhor Donatário de Vila Flor (1449); senhor da renda dos serviços novos e portagem dos judeus de Torre de Moncorvo e Vila Flor (1449); Senhor de Mós e Urros (1449)[3]; 2.º Senhor de Chacim, com todos os bens de raiz e móveis, de juro e herdade, por carta régia de confirmação dada em Évora (17 de Novembro de 1449)[4]; Senhor do Vale da Sancha (1449)[5]; Senhor de Frechas (1449); Senhor da Quintela de Lampaças (1449); Senhor de Barqueiros (1449); chefe da linhagem, do nome e das armas da família Sâo Payo ou Sampayo (1449); carta régia pela qual foi nomeado 3.º fronteiro da vila de Torre de Moncorvo e seu termo, de Vila Flor e da vila de Ansiães, em sucessão de seu pai e avô (11 de Março de 1450)[6]; 6.º Senhor da Honra de São Paio ou Sampaio, de juro e herdade (14 de Novembro de 1450); carta régia da mercê das “terças” das igrejas de Mós e Urros, cuja posse lhe era contestada por Pero Teixeira, contador d’el-rei na Comarca de Trás-os-Montes (15 de Fevereiro de 1452)[7]; fidalgo da Casa Real (1452); carta régia de confirmação da mercê de coudel geral de Ansiães, Lamas, Mós, Sampaio, Torre de Moncorvo, Vila Flor, Vilarinho da Castanheira e Vilas Boas e das «coudellarias dos seus lugares, scilicet d’Amçiaães e de Villa Froll e da Torre de Mem coruo e das Lamas e de Moos e de Villarinho da Castinheira e de Villas Boas e dos outros seus lugares» (10 de Abril de 1452)[8]; carta régia de 20.000 réis brancos de tença «ẽ cada huũ anno» pelo «casamento amtre Vasco Frr̃z de Sam Payo fidallgo da nossa cassa e Isabell de Gouvea filha de Iohã de Gouvea», a pagar no almoxarifado da Torre de Moncorvo, enquanto não se pagar a promessa de «duas myl coroas de boõ ouro e justo pesso», passada por el-rei Dom Afonso V em Évora (19 de Junho de 1453)[9]; instrumento público de contrato pelo qual João de Gouveia, cavaleiro fidalgo da Casa Real, e sua mulher, se comprometiam a dar «em dote Almendra e Castello Melhor com Isabell de Gouvea sua filha», «com todos seus beẽs movees e de raaiz e frutos», como penhor enquanto não pagasse «mill escudos douro em que lhe eram obriguados» a pagar a «Vaasqvo Fernandez», de Vila Flor (18 de Setembro de 1454)[10]; carta régia pela qual João de Gouveia e sua mulher concederam a «Vasco Fernãdez e Izabel de Gouvea sua molher» as rendas dos lugares de Almendra e Castelo Melhor, até lhes pagar integralmente o dote de 1000 escudos de ouro (30 de Setembro de 1454)[11]; carta régia pela qual seu sogro João de Gouveia foi autorizado a dar de penhor os lugares de Almendra e Castelo Melhor a Vasco Fernandes de São Payo, com as respectivas rendas e direitos, enquanto não desse ao seu genro o dote de 1000 escudos de ouro (7 de Outubro de 1454)[12]; os procuradores do concelho de Ponte de Lima nas Cortes de Lisboa apresentam queixa contra Vasco Fernandes de São Payo, por obrigar os seus moradores e vizinhos ao pagamento de portagens e passagens, indo ao ponto de lhes lançar «penhora» sempre que passassem por Torre de Moncorvo, e isto tudo era contrário às leis, pois os moradores de Ponte de Lima estavam isentos das obrigações de portagens e passagens, sempre que viajassem pelo Reino (Março de 1455)[13]; carta régia da mercê da renda dos foros e direitos do pão, pensão dos tabeliães, serviço novo e portagens dos judeus de Freixo de Espada à Cinta (4 de Fevereiro de 1458)[14]; Senhor de Vilas Boas (6 de Fevereiro de 1458); carta régia pela qual Dom Afonso V doa a Vasco Fernandes de São Payo, fidalgo da Casa Real, para ele e um seu filho que depois dele a dita terra herdar, da jurisdição civil e crime das terras de Vila Flor e Vila Boas e seus termos, e que aí possam nomear juízes e tabeliães, com a ressalva da reserva para o rei da correição e alçada régia e a confirmação dos ditos tabeliães, em duas vidas (6 de Fevereiro de 1458)[15]; carta régia da mercê ao «dito Vasco Fernandes de São Payo que tenha e haja daqui em diante em sua vida» da renda dos serviços novos e portagem dos judeus de Torre de Moncorvo, Vila Flor, Mós e outros lugares que Vasco Fernandes possuísse de «juro e herdade que são da coroa de nossos reinos», dada em Leiria (6 de Fevereiro de 1458)[16]; carta régia pela qual El-Rei Dom Afonso V autoriza «Vasquo Fernãdez de Sam Payo e sua mulher e filhos» a «hyr», «estar» e residir na «villa de Freixo» durante «dois meses em cada huũ anno pera averem de recadar e comer» os «foros e derytos q̃» têm «na vila de Freixo dEspada Cinta», e isto «sem enbarguo de privillegios que o dito Comcelho tenha» de embargar a presença de fidalgos (6 de Março de 1459)[17]; carta d’El-Rei Dom Afonso V respondendo a um capítulo apresentado em Cortes pelos procuradores da Torre de Moncorvo sobre a prepotência dos corregedores, arrematantes das rendas reais e poderosos da terra, queixando-se, também que «em esta villa ha huũa ribeira que chamam de Saavor e Vallariça», na qual os moradores e lavradores recebem «muj gramde agrauo» do «fidallguo» «Vasco fernandez de Sampayo e de seu mordomo» e, por isso, pedem «aos Juizes e officiaaes que façam guardar suas pusturas amtiiguas que dello teem. E nom comssemtam a Uaasco Fernandez que sobre ello faça alguũ em barguo e se o dito Uasco Fernandez de puro feitio» reincidir, pedem «ao corregedor da comarca que uenha aa dita uilla e faça comprir as ditas pusturas segumdo foor dereyto e rezam» (7 de Julho de 1459)[18]; contrato entre as vilas de Freixo de Espada à Cinta, Mogadouro e Mós, acerca dos limites dos respectivos concelhos, assinado, entre outros, por Vasco Fernandes de São Payo (1 de Agosto de 1460)[19]; o almotacé-mor Pero Lourenço inclui a localidade de Barqueiros, que pertencia ao fidalgo Vasco Fernandes de São Payo, no rol das vinte terras que não cumpriam a obrigação de respeitar o padrão métrico da cidade do Porto (1462)[20]; carta de Dom Afonso V fazendo mercê a D. Mécia, mulher de Vasco Fernandes de São Payo, de todos os bens móveis e de raiz confiscados a Vasco Afonso, mercador e morador em Moncorvo, por haver comprado espadins falsos para os passar por moeda boa (20 de Fevereiro de 1464)[21]; sentença da Comarca de Trás-os-Montes, dada em Murça de Panóias, contra as arbitrariedades de Vasco Fernandes de São Payo, Senhor de Sampaio e de Vila Flor (13 de Agosto de 1466)[22]; súplica de João Saraiva, mestre em Teologia e ao serviço do nobre Vasco Fernandes de São Payo, «in servitio nobilis militis Vasci Fernandi de Santo Payo, domorum castrorum de Villa Froll et de la Torre de Meencorvo», sobre benefícios eclesiásticos, apesar de ser religioso» (19 de Agosto de 1466)[23]; carta de Dom Afonso V, passada em Sintra, na qual dava licença a Rui Gonçalves Alcoforado, cavaleiro da Casa do Conde de Ourém, e a sua mulher, para venderem a Vasco Fernandes de São Payo a terra da Bemposta, de juro e herdade, com todas suas rendas e direitos, tributos e jurisdição cível e crime, assim e pela guisa que se continha e fazia menção nas cartas de doação outorgadas a Rui Gonçalves Alcoforado (2 de Outubro de 1469); carta régia de confirmação da compra da vila da Bemposta, a qual Vasco Fernandes de São Payo, «fidalgo da casa delrei e do seu Conselho», e dona Mécia de Melo, sua mulher, compraram a Rui Gonçalves de Alcoforado e a D. Filipa Vaz, sua mulher, por 235.000 reais brancos, «que logo receberam, todo pago em bom ouro de justo preço, que foram 587 anriques e meio de ouro, do cunho de Castela, contados a 400 rs. por peça, em que montaram os ditos 235.000 rs. brancos», com autorização e provisão d’El-Rei Dom Afonso V (6 de Dezembro de 1469)[24]; Senhor da Bemposta, na comarca de Trás-os-Montes, com todas as casas, pardieiros, vinhas, herdades de pão, azenhas, moinhos, pesqueiras e outros bens de raiz (1469); conselheiro do Conselho de El-Rei Dom Afonso V (1469); Senhor de Parada de Pinhão, na Comarca de Vila Real; Senhor de Torre de Moncorvo; alcaide-mor de Torre de Moncorvo[25]; carta régia pela qual El-Rei Dom Afonso V perdoa a Fernão da Mesquita, cavaleiro, o degredo de sete anos e qualquer outra pena, a que fora condenado para a cidade de Ceuta, pela morte de João de Mós, criado de Vasco Fernandes de São Payo, na sequência do perdão geral outorgado aos homiziados que serviram na armada e conquistas de Arzila e Tânger (14 de Novembro de 1471)[26]; carta régia a D. Mécia de Mello, «molher de Vasco Fernandez de San Payo do nosso Conselho», da mercê da renda dos foros e direitos do pão, pensão dos tabeliães, serviço novo e portagem dos judeus de Freixo de Espada à Cinta, que seu marido trazia da Coroa (12 de Fevereiro de 1472)[27].

 

    Faleceu em 1474[28]; carta régia de confirmação do senhorio de Vila Flor, Vilas Boas e Sampaio a «Fernãm Vaaz fidalguo da Cassa do Principe, filho de Vasco Fernandez de Sam Payo que se ora finou» (28 de Junho de 1474)[29]; carta régia a D. Mécia de Melo, viúva, de confirmação da mercê, em sua vida, da renda dos foros e direitos do pão, portagem e pensão dos tabeliães e serviço novo da portagem dos judeus em Freixo de Espada à Cinta e pela qual o contador da Comarca ou almoxarife de Torre de Moncorvo lhe deviam dar posse das ditas rendas e direitos (25 de Novembro de 1497)[30]; carta régia a D. Mécia de Melo, «mulher que fora de Vasco Fernandes de São Payo», de confirmação de doação e instrumento de compra da vila da Bemposta que apresentara, sem embargo de ser mulher (12 de Dezembro de 1498); padrão de 5$006 réis de tença a D. Mécia de Melo, viúva de Vasco Fernandes de São Payo, em vez da renda da portagem dos judeus de Freixo de Espada à Cinta (4 de Julho de 1500)[31]; carta de mercê a D. Mécia, mulher que foi de Vasco Fernandes de São Payo, do padrão de 5$600 reais de tença em satisfação da renda, foros e direitos de parte e pensão dos tabeliães e portagem de judeus de Freixo Espada à Cinta (4 de Junho de 1501)[32].

 

    Casou pela primeira vez em 1453 com D. Isabel de Gouveia, nascida em 1433, filha de João de Gouveia e de D. Leonor Gonçalves Colaço; sem geração.

 

    «Vasco Fernandez de Sampayo, Alcaide mayor de la torre de Moncorbo y Señor de Villaflor y otros lugares»[33] casou em segundas núpcias em 1455 com D. Mécia de Mello, filha de Vasco Martins de Mello[34], alcaide-mor de Évora, e de D. Beatriz[35] de Azevedo[36]; com geração.

 

ÁRVORE DE COSTADOS DE D. MÉCIA DE MELLO

Própria

Pais

Avós

D. Mécia de Mello

 

Vasco Martins de Mello

Alcaide-mor de Évora

Martim Afonso de Mello

D. Briolanja de Sousa

D. Beatriz de Azevedo

João Lopes de Azevedo

D. Leonor Leitão

 

    Filhos do casamento de Vasco Fernandes de São Payo e sua mulher D. Mécia de Mello:

1 – FERNÃO VAZ DE SÃO PAYO, nasceu em 1455.

4.º Senhor Donatário de Vila Flor; de quem um dia falaremos, quando houver ocasião para tal.

2 – FRANCISCO DE SÃO PAYO, nasceu em 1456.

Moço-fidalgo da Casa Real (1484)[37].

Faleceu em 1521.

Casou com D. Filipa da Silva Pereira, filha de Jaime Pereira; sem sucessão[38].

3 – D. JOÃO DE MELLO E SÃO PAYO ou João de Mello e Sampayo, nasceu em 1457.

6.º Dom Abade Comendatário do Mosteiro de Santa Maria de Pombeiro, no concelho de Felgueiras, «no tempo do Rey D. Manuel»[39] (1507 – 1525).

Faleceu em 1525 e foi sepultado no Mosteiro de Santa Maria de Pombeiro[40]; de quem um dia falaremos.

4 – D. BRITES DE MELLO PEREIRA[41], nasceu em 1459.

Casou com D. Jorge de Eça, alcaide-mor de Muge, filho de D. Garcia de Eça e de D. Joana de Albergaria[42].

5 – D. FILIPA DE MELLO, nasceu em 1460.

Casou com João de Mendonça, “o Cação”, alcaide-mor de Chaves, nascido em 1450, filho de Afonso Furtado de Mendonça e de sua segunda mulher D. Beatriz de Vilharguda; com geração[43].

6 – D. JOANA DE MELLO, nasceu em 1461.

Dama da Rainha Dona Leonor[44]; proprietária.

Casou com Duarte Peixoto de Azevedo, 3.º Senhor de Penafiel de Sousa e Vedor da Casa de El-Rei, filho de João Peixoto e de D. Briolanja de Azevedo[45]; com geração.

Filho bastardo de Vasco Fernandes de São Payo:

7 – DIOGO DE SÃO PAYO, nasceu em 1464 em Vila Flor.

Contador da Comarca de Trás-os-Montes; de quem falaremos noutro artigo.



[1] Manuel de Sampayo Pimentel Azevedo Graça, Santa Marinha de Vila Marim: Em Torno de Um Brasão-de-Armas…, in GENEALOGIA & HERÁLDICA, n.º 7/8, Porto, 2002, p. 66.

[2] ANTT, Livro 4 de Além-Douro, fl. 189.

[3] Humberto Baquero Moreno, A Batalha de Alfarrobeira: Antecedentes e Significado Histórico, volume II, Coimbra, 1980, p. 947.

[4] ANTT, Chancelaria de Dom Afonso V, liv. 34, fl. 24v.

[5] ANTT, Chancelaria de Dom Manuel I, liv. 28, fl. 15.

[6] ANTT, Chancelaria de Dom Afonso V, liv. 34, fl. 16.

[7] ANTT, Chancelaria de Dom Afonso V, liv. 12, fl. 18.

[8] ANTT, Livro 2 de Além-Douro, fl. 35v.

[9] ANTT, Chancelaria de Dom Afonso V, liv. 3, fl. 80.

[10] Luiz de Mello Vaz de Sampayo, Subsídios Para Uma Biografia de Pedro Álvares Cabral, Coimbra, 1971, p. LXI.

[11] ANTT, Chancelaria de Dom Afonso V, liv. 15, fl. 96.

[12] ANTT, Chancelaria de Dom Afonso V, liv. 10, fl. 106.

[13] ANTT, Chancelaria de Dom Afonso V, liv. 15, fl. 65v.

[14] ANTT, Livro 3 de Além-Douro, fl. 76v.

[15] ANTT, Chancelaria de Dom Manuel I, liv. 29, fl. 118, cota PT/TT/CHR/K/29/118-430.

[16] ANTT, Livro 1 de Além-Douro, fl. 211-212.

[17] ANTT, Livro 3 de Além-Douro, fl. 13.

[18] ANTT, Livro 3 de Além-Douro, fl. 20v; Chancelaria de Dom Afonso V, liv. 23, fl. 53v.

[19] Hirondino da Paixão Fernandes, Bibliografia do Distrito de Bragança: Série Documentos – Documentos (textos) Publicados 569 – 1870, tomo I, Bragança, 1996, p. 93.

[20] Sérgio Carlos Ferreira, Para Uma Nova Interpretação da Realidade Metrológica Tardo-Medieval: Geografia, Política e Sociedade, in REVISTA PORTUGUESA DE HISTÓRIA, tomo XLI, Coimbra, 2010, p. 233.

[21] ANTT, Chancelaria de Dom Afonso V, liv. 8, fl. 60v.

[22] Francisco Manuel Alves, Moncorvo: Subsídios Para a Sua História, Porto, 1909, pp. 188-189.

[23] Artur Moreira de Sá, Chartularium Universitatis Portugalensis (1456-1537), volume VI, Lisboa, 1974, p. 384.

[24] ANTT, Chancelaria de Dom Manuel I, liv. 13, fl. 27.

[25] Cristóvão Alão de Moraes, Pedatura Lusitana, volume II, tomo 1.º, Braga, 1997, p. 59.

[26] Manuel Abranches de Soveral, Ensaio Sobre a Origem dos Mesquitas.

[27] ANTT, Chancelaria de Dom Manuel I, liv. 35, fl. 82.

[28] Carta régia de 28 de Junho de 1474 de confirmação do senhorio de Vila Flor a Fernão Vaz de São Payo, filho de Vasco Fernandes de São Payo, «que ora se finou».

[29] ANTT, Livro 1 de Além-Douro, fl. 211-212.

[30] ANTT, Chancelaria de Dom Manuel I, liv. 13, fl. 26v.

[31] ANTT, Livro de Místicos da Chancelaria Régia, liv. 1, fl. 250v.

[32] ANTT, Chancelaria de Dom Manuel I, liv. 35, fl. 142, cota PT/TT/CHR/K/35/142-863.

[33] D. Luis Vilar y Pascual, Diccionario Histórico, Genealógico y Heráldico de Las Familias Ilustres de La Monarquía Española, tomo I, Madrid, 1859, p. 418.

[34] Vasco Martins de Melo, nascido em 1411 e falecido em 1459, filho de Martim Afonso de Melo e de D. Briolanja de Sousa, foi escudeiro (1432), alcaide-mor de Évora (1432), fidalgo da Casa Real (1439), alcaide-mor de Castelo de Vide, fronteiro-mor de Castelo de Vide (1443), procurador às Cortes (1455), conselheiro do Conselho Régio (1456) e participou na conquista de Alcácer Ceguer (1458). Casou a primeira vez em 1433 com D. Beatriz de Azevedo, filha de João Lopes de Azevedo e de D. Leonor Leitão, e casou em segundas núpcias em 1439 com D. Isabel de Abreu Silveira, filha de Nuno Martins da Silveira e de D. Leonor Gonçalves de Abreu.

[35] Ou D. Isabel de Azevedo, segundo opinião de Felgueiras Gayo.

[36] Manuel de Menezes de Mello Vaz de São Payo, O Parágrafo Segundo (A Casa de Ribalonga), Lisboa, 1984, p. 9.

[37] D. António Caetano de Sousa, Provas da Historia Genealogica da Casa Real Portugueza, tomo II, Lisboa, 1742, p. 181.

[38] D. António de Lima Pereira, Nobiliário de Portugal, cópia de Álvaro Ferreira de Vera, 1644, fl. 459.

[39] Manuel Felgueiras Gayo, Nobiliário de Famílias de Portugal, IX volume, tomo XXVI, Braga, 1990, p. 264.

[40] Padre António José Ferreira Caldas, Guimarães: Apontamentos Para a Sua História, volume I, Porto, 1881, p. 241.

[41] Ou D. Brites da Silva Pereira, segundo Felgueiras Gayo, ou D. Brites de Melo, na opinião de Alão de Moraes.

[42] D. António Caetano de Sousa, Historia Genealogica da Casa Real Portugueza, tomo XI, Lisboa, 1745, p. 714 e 1715.

[43] Manuel Abranches de Soveral, Manuel Lamas de Mendonça, Os Furtado de Mendonça Portugueses: Ensaio Sobre a Sua Verdadeira Origem, 2004, p. 83.

[44] Felgueiras Gayo, Nobiliário de Famílias de Portugal, VIII volume, tomo XXII, Braga, 1989, p. 125.

[45] Maria Adelaide Pereira de Moraes, Velhas Casas de Guimarães, volume 2, Porto, 2001, p. 627.

Publicado por Jofre de Lima Monteiro Alves às 00:30

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Domingo, 8 de Junho de 2014

Outros Concelhos dentro do Concelho de Vila Flor - n.º 5 - VILAS BOAS

Para findar esta série de crónicas referentes aos antigos concelhos que tiveram, em tempos de antanho, existência dentro do espaço físico que hoje o concelho de Vila Flor ocupa, cumpre traçar o retrato do concelho de Vilas Boas.

 

E no que toca a Vilas Boas, uma peculiaridade surge, que concerne em saber quando exactamente foi esta povoação elevada à categoria de município. Um qualquer caso típico de fundação autárquica será, como todos os casos até agora analisados, efectuado por um foral, concedido, como vimos, por El-Rei ou por outro poder senhorial (fidalgo ou clérigo), numa data determinada e com estipulações certas sobre os direitos e deveres dos vizinhos. Ora Vilas Boas tem esse mesmo documento foraleiro, datado de 1512, outorgado por D. Manuel I.

 

Contudo, a confusão, no caso de Vilas Boas surge ao se tentar perceber se antes dessa data já existia aí um concelho, pois não há certeza absoluta que um foral anterior exista. Expliquemos pois, do melhor que pudermos, este caso bicudo da história.

 

É seguro que quando Mirandela recebeu foral em 1250, passado por El-Rei D. Afonso III, Vilas Boas fazia parte deste concelho. A questão reside pois, em saber quando ganhou autonomia. A dúvida toda radica num episódio do reinado fernandino que, como já observámos na crónica anterior (referente ao Vilarinho da Castanheira), herdando um país largamente despovoado por causa da peste negra, decide operar uma extensa reforma administrativa (a primeira que o país conhecera) extinguindo concelhos, transferindo povoados de uns concelhos para outros ou mandando que certos aldeãos fossem povoar determinadas vilas. Uma das primeiras medidas dessa reforma incidiu precisamente sobre Vila Flor, que, detendo uma área pequena e não estando "pobrada como compria", leva D. Fernando a decidir em 1369 anexar-lhe "as aldeas todas de Mirandella e outrossi Vilasboas com suas aldeas que tem", para que "se pudesse milhor pobrar" a dita vila.

 

Quanto a este documento, o modo vago como é formulado ("as aldeas todas") poderá surgir desde logo uma dúvida: teria, nessa data, Vila Flor abarcado todo o concelho de Mirandela? A melhor opinião será a sufragada pelo P.e Ernesto Sales (estudioso-mor da história de Mirandela e contemporâneo e confrade do Abade de Baçal na busca do conhecimento dos assuntos relativos ao Distrito de Bragança) e mais tarde pelo Professor Doutor Baquero Moreno que defendem que se tratou apenas de uma anexação das aldeias de Mirandela que eram contíguas com Vila Flor (não sendo possível identificar quais, pois o documento não esclarece) uma vez que Mirandela seria uma vila importante e não há registo que alguma vez tenha sido suprimida.

 

Mas, e naquilo que nos toca? Isto é, quanto a Vilas Boas em si? Teria sido toda ela anexada a Vila Flor? E a sua referência no documento, autonomizada de Mirandela, quereria significar que nesse ano de 1369, Vilas Boas já era independente de Mirandela? E se o era, desde quando?

 

As respostas e estas indagações podem ser retiradas de um documento que os habitantes de Vilas Boas enviaram a D. Fernando em 1374, queixando-se dessa mesma anexação a Vila Flor, por não respeitar uma carta que D. Afonso IV (seu avô, portanto) tinha outorgado em favor de Vilas Boas, impedido que os de Mirandela se intrometessem nos seus assuntos.

 

Ora segundo uma interpretação viável deste documento, todas as questões acima demandadas teriam resposta positiva: Vilas Boas já seria concelho, tendo ganho autonomia de Mirandela algures no reinado de D. Afonso IV (entre 1325 e 1357) e estaria agora totalmente sujeita a Vila Flor.

 

E se bem que, por um lado o tal documento Afonsino nunca veio à luz pelo que não será totalmente claro que essa dita "carta" fosse um verdadeiro foral, por outro porém, em minha opinião, é bastante seguro defender que Vilas Boas seria já sede de concelho deste meados do século XIV, pois devemos lembrar que nem todos os forais eram iguais, na medida em que podiam estabelecer graus de autonomia diversos dos vários concelhos, podendo estabelecer concelhos totalmente dignos desse nome, mas que numa ou noutra área estariam dependentes de um concelho vizinho de maior tamanho (por exemplo, no que à defesa tocava). Era, aliás, uma situação bastante comum na era medieval, pelo que, mesmo que a tal "carta" que D. Afonso IV teria outorgado a Vilas Boas (e sabemos que este monarca andou muitos anos por terras Bragançanas, tentando evitar a pestilência) não fosse um exemplo clássico de um foral completo, poderia, não obstante, instituir um concelho.

 

 

Mapa retratando os limites aproximados do concelho de Vilas Boas nas vésperas da sua extinção, que se mantiveram praticamente inalterados ao longo dos 500 anos que existiu.

 

 

Seja como for, D. Fernando deu razão à petição dos munícipes de Vilas Boas e fez saber ao concelho de Vila Flor "ca nossa mercee he de lhe ser guardada a dicta carta e de seerem issentos sobre ssy" assim ordenado que "o concelho de villas boas seia julgado sobre ssy", logo confirmando a autonomia de Vilas Boas como concelho  e expressamente o afirmando como tal.

 

Outro indício de que Vilas Boas já teria uma autonomia como concelho anterior ao foral de 1512, é o facto deste foral começar com uma frase em que D. Manuel I diz: "A quantos esta carta de foral virem dado à nossa vila de Vilas Boas fazemos saber", estando pois referir-se à localidade já com o tratamento de vila, significando tipicamente (mas não exclusivamente) que essa povoação já detinha o estatuto de vila antes do foral que o monarca se propõe a outorgar.

 

Deste modo propugnamos, ao contrário do que é nos dias de hoje voz corrente, que o foral manuelino de 1512 não foi o documento que instituiu a independência autárquica de Vilas Boas relativamente a Mirandela, mas antes se tratou de uma confirmação (de um foral novo, como quase todos os passados por D. Manuel I) dessa mesma autonomia que já radicava num documento dos tempos de D. Afonso IV, que, mesmo não sendo conhecido, foi usado por D. Fernando I em 1374 para assegurar a autonomia de Vilas Boas como concelho face a Vila Flor (e Mirandela, naturalmente).

 

Esclarecida que está esta questão de saber quando ocorreu a fundação do município de Vilas Boas (quer dizer, esclarecido, segundo nossa opinião, que admite, como é óbvio, melhor opinião contrária sustentada), podemos prosseguir ao referir algumas outras indicações que relevem sobre o concelho de Vilas Boas em tempos antigos.

 

O concelho sempre foi de certo modo diminuto, e por isso partilhava alguns órgãos com Vila Flor. Por exemplo, na COROGRAFIA PORTUGUEZA, dá-nos conta o P.e Carvalho da Costa que o Juiz dos Órfãos era comum com o de Vila Flor, do mesmo modo que o Ouvidor de Vila Flor tinha jurisdição sobre Vilas Boas, bem como a Companhia  de Ordenanças local respondia ao Capitão Mor de Vila Flor. Nesta época (1707) o concelho contava com 216 fogos: 145 na sede, 30 no Vilarinho das Azenhas, 25 no Vieiro, 12 em Meireles e apenas 4 na Ribeirinha (que aparece sob o nome de Sarzeda...).  

 

Em 1758, nas MEMÓRIAS PAROQUIAIS, o município de Vilas Boas continha 192 fogos, sendo que 125 se localizavam na sede, 32 no Vilarinho  das Azenhas, 32 em Meireles e apenas 3 na Ribeirinha. Note-se porém que se desconhece o número de fogos do Vieiro, pois foi contabilizado em uníssono com Freixiel, pois, recordamos, embora civilmente tenha integrado o concelho de Vilas Boas, religiosamente ainda estava na paróquia de Freixiel. Nos censos de 1801 contaram-se 708 habitantes em todo o concelho. Era, portanto, um concelho pequeno, pelo que não pôde resistir quando os liberais triunfantes decidiram atear um fogo extintivo aos antigos concelhos, foros e liberdades das populações, pondo um termo a grande parte das autonomias locais e privando as populações da proximidade dos centros de decisão.

 

 

 Pelourinho de Vilas Boas, do século XVI, símbolo magnífico da autonomia local em fotografia própria de 2014.

Publicado por Ilídio Monteiro Alves às 10:10

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Domingo, 1 de Junho de 2014

CANTIGAS POPULARES DE TRÁS-OS-MONTES XXXII

TANHO NO MAR UM NABIO

 

Tanho[1] no mar um nabio

Cum[2] bint’e cinco[3] jinelas[4];

Cando[5] eu lá num[6] bou

Num s’abre[7] ninhũa[8] delas.

 

Tenho no mar um peixinho

Que se tchama tubarão;

S’ele[9] nũ[10] comess’a[11] jãite[12]

Dába lo[13] meu coração.

 

A felore[14] da gesta branca

De piquéna[15] cobr’o[16] o tchão;

Tâmém[17] as tuas ausências

Cobrãi[18] o meu coração.

 

Deitei o limão corrẽido[19]

Da praça pro poleirinho[20];

Canto mais o limão corre

Mais eu te quero, ámorzinho.

 

As môças para ser bouas[21]

Debem-se tchamar Maria:

A rosa para ser rosa

Debe ser d’Alèxandria[22].

 



[1] Tenho.

[2] Com.

[3] Vinte e cinco.

[4] Janelas.

[5] Quando.

[6] Não.

[7] Se abre.

[8] Nenhuma.

[9] Se ele.

[10] Não.

[11] Comesse a.

[12] Gente.

[13] Dava-lhe o.

[14] Flor.

[15] Pequena.

[16] Cobre o.

[17] Também.

[18] Cobrem.

[19] Correndo.

[20] Pelourinho.

[21] Boas.

[22] Alexandria.

Publicado por Jofre de Lima Monteiro Alves às 01:00

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Segunda-feira, 26 de Maio de 2014

Eleições Europeias - Resultados em Vila Flor

O tema da actualidade, as eleições para o Parlamento Europeu deste fim de semana, não pode deixar de ser tratado aqui, neste cantinho da blogosfera reservado ao concelho de Vila Flor, pelo que aqui se publicam os resultados das ditas eleições no Munícipio e no Distrito.

 

 

No Concelho de Vila Flor, o eleitores pronunciaram-se da seguinte maneira:

Já a nível distrital, os eleitores bragançanos, decidiram-se assim:
Estas eleições ficam marcadas, porém, por uma abstenção assombrosa a nível nacional (2/3 dos eleitores totais), sendo que tanto no Distirto de Bragança como no concelho de Vila Flor, como se pode observar no fundo de cada imagem, a falta de adesão da população ronda os 70%, superior à média nacional. 
Publicado por Ilídio Monteiro Alves às 10:10

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Sexta-feira, 23 de Maio de 2014

Outros Concelhos dentro do Concelho de Vila Flor - n.º 4 - VILARINHO DA CASTANHEIRA

Dando seguimento ao tema que tem vindo a ser tratado nesta série de crónicas, prossigamos ao escrevinhar umas quantas nótulas sobre o ancião concelho de Vilarinho da Castanheira, outrora importante, hoje extinto, e cuja sede se encontra actualmente no vizinho concelho de Carrazeda de Ansiães.

 

Destarte, à partida, poderia parecer que seria injustificado um estudo historiográfico sobre este antigo concelho, uma vez que acabou integrado na Carrazeda, e não em Vila Flor, terra sobre a qual este blogue se centra.

 

Nada de mais errado! É que, com efeito, a maioria das antigas freguesias que integraram o extinto concelho sub judice foram arrematadas pelo concelho de Vila Flor, como veremos, constituindo toda a parte sul do município.

 

Em tempos mais recuados, aquando da fundação da nacionalidade, teria o Vilarinho da Castanheira pertencido a Ansiães, concelho mais antigo de Portugal (em conjunto com São João da Pesqueira). Mas desde cedo logrou a sua autonomia, obtendo foral em 1218, passado por D. Afonso II.

 

No documento, que é expressamente baseado no foral de Longroiva, o monarca estabelece os limites do concelho (que, diga-se se mantiveram praticamente inalterados durante os quase 650 anos que durou) citando muitos locais que ainda hoje podemos situar no mapa: começando nas margens do Douro e partindo de leste para oeste, iniciaria na folialada (local que não consegui identificar), passaria por Cabeza de Mauro (Cabeça de Mouro, hoje no município de Moncorvo), seguia pela fontem de Vide (também no município de Moncorvo), depois para a ecclesia de Manozes (Seixo de Manhoses), passaria depois por um lugar apelidado de seixo de Codesaes (que ficará algures entre Seixo de Manhoses/Carvalho de Egas por um lado e Samões por outro, mas que não logrei a identificar), corria depois pela pala das Teeras (a Pala das Tieiras, que fica entre Carvalho de Egas, Valtorno e Candoso), passava por Penafria, pelo porto do sseira (a ribeira da Osseira, situada entre Seixo de Ansiães e Vilarinho da Castanheira), prosseguindo para a carvala verina e para a armada de Fernando Mendes  (locais que não consegui identificar), para terminar, já de novo junto ao Douro na losa de bolfata, foz de lobazin e farfon (hoje em dia, respectivamente, as Quintas da Bulfata, de Lubazim e de Farfão, esta última já na freguesia da Lousa, Moncorvo).

 

 

 Mapa do concelho de Vilarinho da Castanheira, com as povoções que o constituiram, desde a primeira à última hora.

 

 

 

Do foral, que como todos os forais contem variadas disposições com vista a regular a vida quotidiana do vizinhos, podemos destacar uma norma, amplamente curiosa que ditava que quem matasse um urso, devia entregar ambas a mãos do animal ao alcaide...! Terminava a o documento, como também era comum na época, por equiparar a Iudas traditor (Judas, o traidor) quem contra ele se insurgisse, que também estava, neste caso concreto, condenado a ser engolido pela terra como Datã e Abirão (personagens bíblicos que se revoltaram contra Moisés).

 

Este não foi o único foral do Vilarinho da Castanheira, que conheceu mais três cartas forais, nomeadamente em 1287 (D.Dinis), 1363 (D. Pedro) e 1514 (D. Manuel). Dizia PINHO LEAL, no último quertel do século XIX, que "poucas villas do nosso paiz tiveram tantos foraes como esta, o que prova que foi uma vila muito importante!"

 

Porém, esta importância não obstou a que o concelho estivesse brevemente extinto, no reinando de D. Fernando. Com efeito, este monarca, foi o primeiro governante a operar uma reforma administrativa extintora de concelhos e autonomias (500 anos antes da reforma de Passos Manuel, e 650 anos antes da reforma que, pelo andar da carruagem, o futuro próximo trará), extinguindo umas boas dezenas de autarquias locais. Não nos podemos olvidar da  infame peste negra, que terá morto entre 50 a 75 milhões de pessoas em toda a Europa (um terço da população à época), mas que em Portugal terá ceifado quase metade da população. Assim, esta catástrofe demográfica levou a que muitos concelhos, que já seriam pequenos, ficassem quase desabitados, o que orientou o rei a decidir-se pela supressão em massa. O Vilarinho foi deste modo integrado em Moncorvo  em 1381, concelho que já tinha absorvido na década anterior os antigos concelhos de Urros e Mós (hoje, novamente, meras freguesias de Moncorvo). No entanto esta reforma não foi duradoura, devido a vários protestos dos conselhos suprimidos e a breve trecho, grande parte destes foram restaurados, incluindo o Vilarinho da Castanheira, em 1394, já sob égide de D. João I (monarca que em 1384 tinha integrado o Vilarinho da Castanheira, bem como Alijó, Ribatua, Favaios e Vila Real no concelho de Ansiães em punição por terem firmado com Castela na Guerra do Interregno). 

 

Em 1707, a COROGRAFIA PORTUGUEZA assinala no concelho dois juízes ordinários, um juiz de órfãos e três Companhias de Ordenanças, bem como 955 fogos, divididos da seguinte maneira: 240 na sede de concelho (200 no Vilarinho mais 40 no Pinhal do Douro), 250 na freguesia da Lousa, 125 na freguesia do Castedo, 38 na freguesias de Carvalho de Egas (aparecendo grafado como Carvalhadegas, assim, tudo junto e no feminino), 60  na freguesia de Seixo de Manhoses, 10 na freguesia do Gavião (hoje aldeia deserta, mas na época ainda era freguesia autónoma, veja-se bem), 82 na freguesia do Mourão, 120 na freguesia de Valtorno e 30 na freguesia de Alagoa (grafada como Lagoa, que na época ainda era freguesia autónoma face a Valtorno).

 

Meio século mais tarde, nas MEMÓRIAS PAROQUIAIS, registou-se uma ligeira diminuição na população, ma medida em que apenas se totalizavam 918 fogos no concelho inteiro, dividindo-se da seguinte forma pelas respectivas freguesias: 201 na sede, 75, no Seixo de Manhoses, 45 em Carvalho de Egas, 33 na Alagoa, 110 em Valtorno, 126 no Castedo, 246 na Lousa e 72 no Mourão.

 

No final desse século, em 1796, na DESCRIPÇÃO DA PROVINCIA DE TRAZ OS MONTES, registavam-se 927 fogos no concelho, totalizando 3321 habitantes, nos censos de 1801 contabilizavam-se  3003 habitantes e nos de 1849, somaram-se 3748 munícipes.

 

O concelho, que sempre gozou de alguma importância e prosperidade agrícola foi resistindo às duas primeiras vagas de supressões municipais operadas pelos liberais nos anos 30 e 40 da centúria de 1800, mas acabou por cair às mãos da reforma de 1853, sendo as freguesias de Carvalho de Egas, Seixo de Manhoses (com o Gavião já anexo), Mourão, Valtorno e Alagoa integradas no concelho de Vila Flor, sobrando as freguesias do Castedo e da Lousa para Torre de Moncorvo e a freguesia da sede para Carrazeda de Ansiães. Assim acabou um dos concelho mais velhos do nosso país, retalhado em três que nem um cordeiro, sendo a vila que o encabeçava votada a um abandono agonizante que lhe tolheu o crescimento e a reduziu à míngua demográfica perpétua. 

 

 

 

Pelourinho (recém reconstruido) de Vilarinho da Castanheira, em fotografia própria de 2014.

 

 

 

Publicado por Ilídio Monteiro Alves às 10:10

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Quinta-feira, 15 de Maio de 2014

'Vamos Limpar a Europa' passou por Vila Flor

O município de Vila Flor associou-se ao movimento trans-europeu 'Vamos Limpar a Europa' que pretende criar um ambiente mais sustentável no Velho Continente, para tal organizando num dia em cada ano, uma acção de voluntariado em que os cidadãos são convidados a sair de casa e em conjugação com as respectivas autoridades locais, botar mãos ao trabalho e limpar a sua área envolvente.

 

Este ano, o concelho de Vila Flor aderiu a esta campanha pan-europeia, com uma acção que decorreu no dia 12 deste mês, na Serra da Lapa, sobranceira à Vila, aonde acorreram inúmeros de vilaflorenses, que, com espírito colectivista e intensões sadias, abraçaram a causa que pretende criar um ambiente melhor, por toda a Europa globalmente, começando por cada localidade em particular.

 

Saúda-se o envolvimento dos munícipes e das instituições locais nesta iniciativa e deseja-se que haja continuidade nos anos que advém, pois um ambiente limpo e são, exige cuidados continuados.

 

Temas:
Publicado por Ilídio Monteiro Alves às 10:10

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Quinta-feira, 8 de Maio de 2014

Outros Concelhos dentro do Concelho de Vila Flor - n.º 3 - SAMPAIO

Prosseguimos este nosso mergulho no passado municipal de Vila Flor tratando do extinto concelho de Sampaio, que, por ter sido diminuto no tamanho e na duração, nos levará a produzir, em consonância, um artigo menor.

 

O vocábulo 'Sampaio' remete, com toda  a certeza para o Santo homónimo. Conta a hagiografia tradicional que São Paio ou São Pelágio (a primeira forma é a corruptela popular desta última), seria um cristão martirizado em Córdova no início do século X, a mando do próprio Califa Abderramão III, depois  de ter sido capturado numa batalha que opusera o monarca maometano a El-Rei Ordonho II de Leão. O seu culto é apenas relevante na península ibérica, sendo celebrado a 26 de Junho. Curiosamente, embora a povoação porte o nome deste santo, ele não é, de facto, o orago da paróquia, pertencendo esse posto a Santo André (o que é uma situação muito mais comum do que se possa pensar...).

 

Situado já em pleno vale da Vilariça, este povoado pertencia, ao tempo da fundação da nacionalidade, ao antiquíssimo concelho de Santa Cruz da Vilariça, como todas as demais terras da região (Vila Flor inclusive). A parir do final do século XIII, aquando da fundação do concelho de Vila Flor, Sampaio foi uma das terras que o integrou ab initio, em conjunto com as demais povoações da vertente ocidental do vale da Vilariça, que hoje constituem a parte oriental do concelho de Vila Flor: Roios, Santa Comba, Vale Frechoso, Benlhevai, Nabo, Samões, Assares e Trindade.

 

Sampaio foi, desde cedo, sede do potentado da casa de Sampaio, donatários de Vila Flor e Vilas Boas, entre outras, cujos gloriosos feitos de membros dessa família já por diversas vezes foram aqui tratados, nesta virtual gazeta. E por ser o local matricial de tão distinta e poderosa família, El-Rei D. Manuel I, em 1512, no âmbito da sua contínua reforma administrativa foralenga, elevou Sampaio à categoria concelhia, transformando-a numa 'honra' dos Condes de Sampaio.

 

Numa 'honra'?, perguntará o leitor. Com efeito, nesses tempos de antanho, os concelhos não eram uniformes, quer em termos de tamanho, como em termos de categoria. Por exemplo, se quisermos falar das disparidades em termos de dimensão entre concelhos de antigamente, vejamos o caso do concelho de Bragança que abarcava uma extensão de território incomensurável, abrangendo grande parte dos actuais concelhos de Vinhais, Vimioso (que já existiam, mas era mmuito mais pequenos do que hoje em dia) e Macedo de Cavaleiros (à altura inexistente), chegando mesmo às portas da Trindade, vejam bem! E isto tudo, enquanto continha, encravado dentre de si outro concelhos (como Gostei ou Rebordãos) exíguos e normalmente compostos por apenas uma, duas ou três povoações e, não raro, dependente de concelhos vizinhos maiores para a sua administração civil, militar ou judicial.

 

 

Mapa ilustrativo do panorama concelhio do actual distrito de Bragança, em meados do século XVIII. Podemos observar, como descrito no parágrafo anterior, a existência de concelhos enormes (como o de Bragança) par a par com concelhos minúsculos, muitas vezes encravados dentro do território de outro concelho. Fica bem patente que os concelhos não eram todos iguais e que foi, supostamente para atingir uma maior uniformidade e equilíbrio na composição dos concelhos que se deu a reforma administrativa de 1836.

 

 

É, neste último grupo de concelhos que, territorialmente, se incluía Sampaio, composto apenas pela sede e Lodões, ocupando uma área geográfica diminuta, e estando subordinado judicialmente e militarmente a Vila Flor, na medida em que partilhavam juízes e a companhia de ordenanças de Sampaio se encontrava subordinada à de Vila Flor.

 

 

 Mapa demonstrando os limites do antigo concelho de Sampaio, na alvorada do século XIX, pouco antes da extinção. 

 

 

Mas ainda se perguntará o leitor: uma ''honra'? Respondamos a esta dúvida persistente. Nos tempos de outrora, os concelhos não detinham todos a mesma classificação, variando consoante quem fosse seu 'dono'. Isto é, paralelamente aos concelhos em sentido corrente (que formavam a esmagadora maioria), existiam outros que, por pertencerem a determinadas entidades portavam outra denominação. Assim, se um concelho pertencesse à Coroa chamar-se-ia de 'reguengo'; se pertencesse a uma instituição religiosa, denominar-se-ia de 'couto'; e se pertencesse a um nobre, apelidar-se-ia de , isso mesmo, 'honra'. Ora, como a vila de Sampaio pertencia aos Condes de Sampaio, constituía, pois, uma 'honra'. Atente-se que, nestas três categorias ora expostas, os donos não eram meramente donatários dessas terras (digamos que, detentores por delegação do Rei) eram verdadeiros proprietários desses concelhos.

 

Do mais que se diga sobre o antigo concelho de Sampaio, destaca-se sempre essencialmente e sua pequenez crónica. Em 1707, continha apenas 140 fogos, em 1758, ainda menos, 72 fogos e em 1801, tinha 336 habitantes. Foi esta mesma pequenez perpétua que ditou a sua extinção, logo em 1836 e consequente (re)integração no concelho de Vila Flor, tendo, deste modo, o concelho de Sampaio durado pouco mais de três centúrias.

 

 

Perspectiva geral de Sampaio, à entrada da aldeia, de quem vem de sul.

 

 

Publicado por Ilídio Monteiro Alves às 10:10

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Quinta-feira, 1 de Maio de 2014

JOÃO BAPTISTA LOPES MONTEIRO

Por: Jofre de Lima Monteiro Alves

 

    João Baptista de Morais Frias de Sampaio e Melo Lopes Monteiro, de seu nome completo, filho de eng.º Manuel Maria Lopes Monteiro, doutor em Matemática, engenheiro civil e natural da freguesia de Castanheiro do Norte, e de D. Flora Amélia de Morais Frias de Sampaio e Melo, proprietária e natural da freguesia de Santa Maria Madalena de Fonte Longa, nasceu a 5 de Maio de 1892, faz agora 122 anos, na freguesia de Castanheiro do Norte, concelho de Carrazeda de Ansiães, distrito de Bragança.

 

ÁRVORE DE COSTADOS DE JOÃO BAPTISTA LOPES MONTEIRO

Próprio

Pais

Avós

João Baptista de Morais Frias de Sampaio e Melo Lopes Monteiro

 

N. Carrazeda de Ansiães 1892

Eng.º Manuel Maria Lopes Monteiro

Francisco Lopes Monteiro da Mesquita

D. Joana Monteiro de Morais

D. Flora Amélia de Morais Frias de Sampaio e Melo

Dr. João Baptista de Morais

D. Maria Teresa de Frias de Sampaio e Melo

 

    Foi baptizado na Igreja Matriz de São Brás de Castanheiro pelo reverendo pároco Inácio Alexandre Ribeiro Malheiro, servindo de padrinhos o dr. João Baptista de Morais, bacharel em Direito, e D. Maria do Céu Monteiro Frias (20 de Junho de 1892); licenciado em Medicina pela Escola Médico-Cirúrgica do Porto (1917); médico; tenente médico miliciano; combatente na Grande Guerra (1918); subdelegado de Saúde (1920); casou na freguesia de São João Baptista de Roios, concelho de Vila Flor, com sua prima D. Maria das Mercês de Jesus Pegado de Sousa Pinto Barroso, filha do dr. António Alexandre de Sousa Pinto Barroso e de sua mulher e prima D. Maria Amália Gomes de Magalhães Pinto Pegado (30 de Setembro de 1921); proprietário em Vila Flor e Carrazeda de Ansiães; Senhor da Casa de Roios (família Sampaio e Melo), em Vila Flor, pelo seu casamento (1921); Senhor da Casa do Farol, na Foz do Douro, Porto, pelo seu casamento; governador civil substituto do distrito de Bragança (1926); fundador e director do Hospital de Nossa Senhora dos Remédios (Julho de 1932 – Outubro de 1955); membro da Comissão Nacional de Assistência (1946); homenageado pela Câmara Municipal de Vila Flor pelos serviços prestados (28 de Novembro de 1957); provedor da Mesa Administrativa da Santa Casa da Misericórdia de Carrazeda de Ansiães (1966 – 1970); patrocinou a «construção de um Bairro de Casas para pobres» em Carrazeda de Ansiães ou Bairro da Misericórdia, com 24 moradias (1968 – 1970); sua mulher D. Maria das Mercês faleceu em Vila Flor (22 de Setembro de 1970).

 

    Faleceu na freguesia de Linhares, concelho de Carrazeda de Ansiães, a 5 de Abril de 1976, com 84 anos incompletos.

 

Publicou:

Breves Considerações Sobre a Gastro-Entérostomia, Porto, 1917.

O Castelo de Ansiães, 1948.

Publicado por Jofre de Lima Monteiro Alves às 01:01

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Quarta-feira, 23 de Abril de 2014

Outros Concelhos dentro do Concelho de Vila Flor - n.º 2 - FREIXIEL

O primeiro dos antigos concelhos que existiram dentro do território do actual concelho de Vila Flor que iremos tratar em artigo próprio é Freixiel, seguindo uma ordem alfabética. Sobre a antiga vila de Freixiel muito há a dizer, pelo que, botemos as mãos ao trabalho.

 

O étimo "Freixiel" é de si um topónimo de raiz vegetal, derivando com alguma evidência de freixo, árvore que prolifera tão grandemente pelo nordeste trasmontano e que, por isso mesmo, também 'apadrinha' diversas povoações por este sertão de Além-Douro (Frechas, Vale Frechoso, Freixeda, Freixo de Espada-à-Cinta, etc).

 

O ancião concelho de Freixiel foi fundado em 1195 (em território que pertencia ao concelho de Ansiães, o mais velho do país), no reinado de D. Sancho I, segundo  monarca de Portugal. Mas não foi o rei a outorgar o foral que nessa data estabeleceu o concelho de Freixiel, pois, ao contrário da crença comum, nem sempre era o rei que concedia forais. Mas escutemos quem sabe, no caso os eméritos professores RUY e MARTIM DE ALBUQUERQUE: "Os forais eram outorgados quer pelo monarca - hipótese mais usual -, quer por um senhor eclesiástico (por exemplo o foral do Porto de 1123, que foi concedido pelo bispo D. Hugo) ou um senhor secular (como o de Sernancelhe de 1124, o de Numão de 1130, o de Arganil de 1175), quer ainda por uma instituição religiosa (estão nesta situação, o de Ferreira de 1156, o de Redinha de 1159, os de Tomar de 1162, 1174 e 1176, os de Pombal e do Castelo da Foz do Zêzere de 1174, todos oriundos de uma ordem militar)".

 

Ora, é precisamente neste último grupo de casos típicos de outorga de forais que se inclui o de Freixiel, que dimanou de D. Sancho Fernandes, Prior da Ordem do Hospital ou "prioll do espritall de todo portugal" como aparece no dito foral, consultado na monumental obra do ABADE DE BAÇAL. Como curiosidade note-se que esta outorga embora partisse da Ordem Militar do Hospital de São João de Jerusalém, teria o beneplácito régio, uma vez que sua majestade figurava, conjuntamente com o Bispo de Lamego e o Arcebispo de Braga, no rol de testemunhas da carta.

 

O foral fora redigido em latim pelo que, uns séculos depois se achava já incompreensível para as gentes de Freixiel. Assim, em meados do século XIV recorreu-se a Rui Fernandes, clérigo de Valtorno, "o qual era um homem gramático e bem entendido e que entendia bem o latim e o destinçava bem" que tratou de traduzir "do latim para linguagem o melhor que ele o entendera". O acto foi então oficializado por Pedro Domingos, tabelião régio de Vila Flor, que aí colocou seu sinal perante as testemunhas arroladas, confirmando a verdade do foral com selo real (e mediante o pagamento de cinquenta reis, pois com certeza...). 

 

Ora é essa versão em português medievo (ou linguagem, como o documento tão curiosamente refere) que ainda sobrevive e que pode ser consultada no tomo IV da obra do ABADE DE BAÇAL.

 

O foral em si seguia o estilo típico dos forais medievais: começa por ensaiar sobre os limites do concelho visado; passa para disposições sobre os direitos que os senhores da terra terão; e acaba a estatuir regras que regulem a vida quotidiana dos munícipes. O foral de Freixiel termina, porém, com a seguinte punição para quem contra o foral e os seus ditames se insurgir: "seja maldito e escomungado com Judas ho treedor no inferno condapnado"!

 

Como em quase todo lado, também Freixiel obteve foral novo das mãos de D. Manuel I, em 1515, que outorgava à "vila e terra de Freixiel da Ordem de Jerusalém" uma nova série de direitos e deveres, revogando expressamente o foral antigo.

 

Territorialmente, o próprio concelho de Freixiel não se manteve inalterado durante os cerca de 650 anos que existiu: era constituído à partida pelos povoados de Freixiel, Folgares e Vieiro (que ainda conserva hoje em dia, como freguesia de Vila Flor), mas também por Candoso, Pereiros, Codeçais, Mogo (posteriormente chamado Mogo de Malta, para se distinguir do Mogo de Ansiães e por causa de a Ordem do Hospital passar a ser conhecida por Ordem de Malta - nome que ainda hoje toma - por ter fixado a sede nessa ilha no século XVI). Contudo, no princípio do século XIV (1310), efectua-se uma demarcação territorial entre os concelhos de Freixiel e Vila Flor, e Candoso aparece já como pertencendo a Vila Flor, conforme atestado por várias testemunhas de Carvalho de Egas, Valtorno, Vilarinho da Castanheira, Fontelonga, Folgares e Ansiães. De igual modo, o Vieiro chega a estar anexo ao concelho de Vilas Boas, conforme aparece na Corografia Portugueza do P.e CARVALHO DA COSTA, lavrado em 1707. Porém, embora em termo de administração civil Candoso e Vieiro tenham deixado Freixiel, no que concerne à administração religiosa nunca deixaram de pertence à Comenda de Santa Maria Madalena de Freixiel, à qual também pertenciam (para além, como é óbvio, das citadas povoações do concelho: Freixiel, Folgares, Codeçais, Pereiros, Mogo de Malta) Samões, Barcel, Assares (!) e Santo Estêvão, aldeia vizinha da anterior, hoje deserta.

 

 

 Mapa com os limites do concelho de Freixiel à data da sua extinção em 1836. As povoações assinaladas de Candoso e Vieiro pertenciam-lhe também à data da sua fundação, mas foram posteriormente perdidas para Vila Flor e Vilas Boas.

 

 

Mas mais podemos saber sobre o passado do concelho, retirando-se dados das inquirições e memórias paroquiais, proto-censos já bastante avançados, bem como de algumas obras enciclopédicas que estudiosos como o P.e CARVALHO DA COSTA ou PINHO LEAL intentaram fazer sobre todo o território nacional.

 

Daí podemos conhecer algumas informações sobre o concelho, por exemplo, a evolução demográfica de Freixiel ao longo dos tempos. Assim, em 1530, o Numeramento da População, apura em Freixiel 90 moradores, no Mogo 12, nos Folgares 6, 20 em Pereiros e 4 em Codessais, o que perfaz um total de apenas 134 habitantes no concelho inteiro!

 

Já no que toca à supracitada Corografia do início do século XVIII, a contagem demográfica faz-se em vizinhos/fogos, o que quer dizer que se contou os lares que existiam e não os  habitantes em si. Havia pois em Freixiel nesta altura 286 vizinhos (habitações ocupadas), divididos da seguinte forma: 135 em Freixiel, 60 em Pereiros, 33 em Codeçais, 18 nos Folgares (que aparece como Felgares) e 40 no Mogo. Mais se diz nesse compêndio geográfico e etnográfico que Freixiel é "terra muito quente, & enferma, por estar fundada em hum valle rodeado de altos montes: tem o terreno fertil, & assim produz muito paõ, & azeite, moderado vinho, poucos gados, & alguma caça."

 

Das Memórias Paroquiais, realizadas em 1758, retiramos um crescimento reduzido da população do concelho nesses cerca de 50 anos que haviam transcorrido. Passa o município a ter 336 vizinhos (mais uma vez se lembra que se reporta a fogos) repartidos pelas povoações do seguinte modo: 137 em Freixiel (mais 2 em 50 anos), 100 em Pereiros (cresce substancialmente), 19 em Codeçais - grafado como Quadessais - (perde bastante gente), 30 nos Folgares e 50 no Mogo (ambos as crescer um pouco).  Mais se informa que a terra produz pão trigo e centeio em abundância, vinho e azeite e alguma castanha.

 

Ao longo da sua história, Freixiel foi um típico concelho pequeno: detinha juiz próprio, companhia de ordenanças própria e demais cargos característicos de um município. Não era um concelho decisivamente pequeno, sendo que em 1801, no recenseamento ora organizado pelas autoridades eclesiásticas, contam-se 1339 habitantes no concelho de Freixiel. Não obstante, foi um dos concelhos marcados para extinguir em Novembro de 1836 na «reforma» administrativa de Passos Manuel.

 

O fim do concelho chegou pois em 6 de Novembro de 1836, sendo Freixiel e Folgares anexos a Vila Flor, formando aí a actual freguesia de Freixiel junto com a regressada aldeia do Vieiro, que, como já vimos, civilmente tinha passado há bastante tempo para Vilas Boas, mas que religiosamente nunca deixara Freixiel e que agora, findo também o concelho de Vilas Boas, retrocede à casa de partida para. 

 

As restantes povoações (Pereiros, Codeçais e Mogo de Malta), passariam a integrar, como ainda hoje o fazem, o concelho da Carrazeda de Ansiães. Na recente reforma que agregou freguesias (2013), o Mogo de Malta juntou-se a Belver e desse modo, pela primeira vez em oito séculos, os dois Mogos (de Malta e Ansiães) constituem uma unidade geográfica.

 

 

 Pelourinho de Freixiel (em fotografia própria de 2014), símbolo máximo da autonomia local (e não lugar onde se punisse quem quer que fosse, como erradamente se fez veicular sobre os pelourinhos no século XIX). Denote-se as armas picadas no topo, que pertencem ao Marquês de Vila Real, donatário de Freixiel, condenado ao patíbulo em 1641 por ter firmado com o partido Castelhano da Guerra da Restuaração. 

 

 

Publicado por Ilídio Monteiro Alves às 10:10

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Segunda-feira, 14 de Abril de 2014

Reflexões sobre uma expedição falhada ao Cabeça da Mina

Os leitores recordarão certamente a recente notícia, que também por esta gazeta virtual ecoou, de que o concelho de Vila Flor acabara de ganhar um sítio classificado, mais concretamente o Cabeço da Mina, local de primaz interesse arqueológico por datar da Idade do Bronze, contando por isso com cerca de 4000 anos!

 

Ora, imbuído pela curiosidade e pelo orgulho vilaflorense, decidi aproveitar uma recente deslocação ao nosso concelho para visitar in loco o referido Cabeço da Mina com o fito de poder (ad)mirar na primeira pessoa o património que aí os nossos rupestres antepassados lograram edificar e, logicamente, tirar umas fotografias de modo a poder partilhar o experimento com os leitores.

 

Para esse ensejo, realizei uma busca na internet para me inteirar sobre a exacta localização do citado património calcolítico, coisa que veio a ocorrer (não sem alguma dificuldade) no próprio sítio virtual do IGESPAR, o organismo que vela pelo património classificado. Aí, encontrei um mapa (anexo aqui em baixo) que posiciona o Cabeço da Mina entre as aldeias de Assares e Lodões, mesmo na fronteira com o concelho de Alfândega da Fé, portanto mesmo à beira da ribeira da Vilariça.

 

 

Pois bem, confrontando o referido mapa do IGESPAR com um dos mapas virtuais mais fiáveis, gizei uma rota desde Carvalho de Egas até à EN 102, planeando depois virar à direita algures entre Lodões e Assares (pouco após o nó rodoviário do IP2/IC5), para um caminho de terra batida, conforme sugeriam as indicações recolhidas.

 

Ora o problema ocorreu precisamente neste último passo: onde virar concretamente. Contara eu que um local de importância tão assinalável, património classificado, datando de cerca de 2000 a.C., detivesse uma placa, singela e humilde que fosse, para orientar o visitante curioso rumo ao monumento calcolítico. Nada disso! Ao invés, surgem nessa zona da EN 102 três caminhos de terra batida, mas em nenhum se encontra qualquer indicação, qualquer pista que possa guiar o turista no sentido correcto.

 

Ora, sem saber qual das três vias rudimentares seguir, e não querendo arriscar a sanidade da viatura numa qualquer caça aos gambozinos por caminhos de cabra desconhecidos, optei por voltar para trás e encarar o falhanço da expedição com desânimo. Nem Cabeço, nem Mina, nem coisa nenhuma se visitou…

 

E nessa inglória viagem de regresso à base, ocorreu-me: isto não é caso virgem! Já por mais de uma vez tentei em vão visitar alguns locais de interesse histórico/arqueológico/etnográfico no nosso concelho sem sucesso devido a ausência de placas indicativas que guiem para esse dito local.

 

Mas o raciocínio que este explorador derrotado que vos escreve elaborou nessa fatídica viagem de retorno foi mais longe! Cheguei à temerosa conclusão que, por exemplo, a minha própria aldeia natal (Carvalho de Egas) está desprovida de uma(!) única placa que seja que assinale pelo menos a Igreja Matriz ou a Capela Quinhentista, bem como quaisquer outros pontos de potencial interesse que aqui se encontrem: o carvalho que dá nome à terra, a antiquíssima estalagem (quiçá única no concelho), ou a curiosa formação rochosa dos mal casados, etc. Reitero: nem uma placa! Alguém que por aqui passe (e não esqueçamos que a aldeia é atravessada de lés a lés por uma estrada nacional) fica com a ideia de que passa por um povoado desprovido de património e órfão de história.

 

E essa pesarosa constatação é aplicável a muitas das povoações do concelho, onde os pontos de interesse que o internauta encontra descritos em muitas publicações on-line, se encontram parcial ou totalmente desassinalados no mundo real. Uma notável excepção a esta ‘regra’ é Freixiel, onde os pontos de interesse estão convenientemente indicados por placas (que até contêm uma fotografia do que o visitante irá encontrar). No restante território do município (incluindo a própria sede), de uma maneira geral e salvo algumas excepções, a informação é parca, as placas rareiam e as indicações inexistem.

 

Assim, infelizmente podemos constatar uma coisa: ou o visitante já vem previmente munido com um guia autóctone, alguém que seja da freguesia que pretende visitar, ou então arrisca-se a não encontrar os pedaços de história espalhados pelos vários pontos do concelho que, para além de grandemente abandonados e maltratados, ainda se encontram, de algum modo, escondidos.

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Publicado por Ilídio Monteiro Alves às 10:10

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Segunda-feira, 7 de Abril de 2014

CANTIGAS POPULARES DE TRÁS-OS-MONTES XXXI

O ANEL QUE TU ME DESTES

 

O anel que tu me destes

Trago-o no dedo nédinho[1];

Cada bês que tu ma lembras,

Ò anel dôu um beijinho.

 

Luzerna[2] de três luzes

Q’afumas[3] catro[4] cantos;

Nom[5] te quero, ò m’nina

Q’ és combersada[6] de tantos.

 

Amore, p’la tua bida

Munto[7] p’la tua caridade,

Tira-me desta ribeira

Leba-me àquela cidade.

 

Anéles[8] doiro num[9] é prenda

Nãi[10] o de prata lambrança[11];

Anel de cuntinhas pretas

Requere todà[12] cunfiança[13].

 

Trazeis o tchapéu bàixinho

Mandai-o arredundar[14];

Debaixo do tchapéu anda

Òlhinhos de namorar.

 

O setestrelo[15] bai alto

O cajato[16] bai birando;

Menina abra-m’a[17] porta

O sono já me bai dando.

 



[1] Mendinho.

[2] Candeia de azeite.

[3] Que defumas.

[4] Quatro.

[5] Não.

[6] Namorada.

[7] Muito.

[8] Plural irregular de anel.

[9] Não.

[10] Nem.

[11] Lembrança.

[12] Toda a.

[13] Confiança.

[14] Arredondar.

[15] Nome vulgar do grupo de estrelas celestes.

[16] Cajado.

[17] Abre-me a.

Publicado por Jofre de Lima Monteiro Alves às 01:00

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Terça-feira, 1 de Abril de 2014

Exposição “Maria Keil – Itinerários Artísticos”











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Publicado por Jofre de Lima Monteiro Alves às 14:14

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Sexta-feira, 21 de Março de 2014

Outros Concelhos dentro do Concelho de Vila Flor - n.º 1

Todos conhecemos o concelho de Vila Flor actual, as suas fronteiras e limites, estendendo-se do Tua à Vilariça, da Alagoa a Macedinho. Mas e no passado? Ao longo dos séculos, tem tido sempre estes limites?

 

Não, e tal nem sequer seria espectável, uma vez que raros são os concelhos (se é que existe algum) que tenha tido as suas fronteiras inalteradas ao longos dos tempos, até porque, na realidade, os pouco mais de 300 concelhos que existem hoje, constituem apenas uma parcela do número total de concelhos que existiam noutros tempos.

 

De facto, e sendo Portugal um país de tradição municipalista, tradicionalmente o mapa nacional estava polvilhado de autarquias dos mais variados tamanhos e tipos, havendo um Concelho, Reguengo, Honra ou Couto a cada esquina, principalmente no norte e centro de Portugal, sendo que, por exemplo, no território do actual município de Idanha-a-Nova, estão compreendidos 11 antigos concelhos!

 

Este estado de coisas foi alterado pelos liberais triunfantes em 1833/34, que trataram de efectuar uma reforma administrativa, em  1836, que, para além de suprimir os forais que desde sempre tinham governados as populações, resultou também na supressão de 351 dos 826 concelhos existentes. Até ao fim do século XIX, outras supressões de municípios se seguiram (com algumas reversões, após largos e sangrentos protestos por parte da população, como foi  caso do vizinho concelho de Alfândega da Fé) e o número de concelhos fixou-se em 291 em 1911, cifra que nos cem anos seguintes aumentou para os 308 actuais.

 

Esta reforma, pode parecer algo de menor importância, ou até algo de necessidade evidente, pois muitos dos 826 concelhos existentes na aurora do século XIX, não passavam de minúsculos vilarejos com poucas centenas de habitantes e por se poder considerar os forais como um instituto ultrapassado (nalgumas partes de Espanha ainda estão em vigor nos dias de hoje...), mas foi algo profundamente traumático para as populações locais, que viram desaparecer num ápice todos os sinais de poder local (câmara, juiz, companhia de ordenanças, etc), que eram a base da incipiente vida mercantil da zona, o que se traduziu, inevitavelmente, num processo de acentuado declínio económico e social dessas vilas e consequentemente, das suas gentes.

 

Nalguns casos, como no infame caso de Monforte do Rio Livre, no actual concelho de Chaves, onde, sendo extinto o concelho em meados da centúria de 1800, não foram precisas mais do que 4 ou 5 décadas, para que a antiga sede de concelho se encontrasse completamente abandonada.

 

Porém, prossigamos ruma à questão que aqui nos trás: e como era o panorama no actual território de Vila Flor há dois séculos, antes do inícios das supressões de concelhos em massa que o regime liberal levou a cabo? Como se pode ver nos mapas anexos, no território actual do município de Vila Flor, existiam antes das sucessivas reformas liberais, cinco autarquias: Vila Flor, Freixiel, Sampaio, Vilarinho da Castanheira e Vilas Boas. E como se pode observar do mapas, nos casos de Vilas Boas e Sampaio ocorreu uma absorção total dessas municipalidades, ao passo que no que toca a Freixiel e a Vilarinho da Castanheira, Vila Flor anexou apenas parte desses antigos municípios: em Freixiel a absorção foi quase integral; já do Vilarinho, apenas se anexou a metade norte, que constitui hodiernamente a ponta sul do concelho de Vila Flor. 

 

 

O actual mapa do concelho de Vila Flor, como o conhecemos hoje em dia.

 

 

 Mapa com o antigos concelhos que existiam no território de Vila Flor, na alvorada do Século XIX

 

 

Nota: nas próximas semanas iremos escrevinhar algumas notas sobre cada um desses antigos concelhos, desde o seu nascimento até à sua morte e integração em Vila Flor.

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Publicado por Ilídio Monteiro Alves às 10:10

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Sábado, 8 de Março de 2014

Resumo da entrevista do Presidente da Câmara de Vila Flor ao Mensageiro de Bragança

 

O semanário brigantino "Mensageiro de Bragança" conduziu uma entrevista a Fernando Barros, presidente da Câmara Municipal do nosso  concelho, onde o edil faz o balanço dos primeiros meses à frente dos destinos  da autarquia vilaflorense, bem como discutes alguns dos temas do futuro da autarquia.

 

Efectuamos um resumo da entrevista, sem quaisquer fitos 'politiqueiros' e muito menos partidários (campos onde este blogue nunca se intrometeu), mas antes por se considerar relevante uma entrevista que o autarca número um do município dá a um dos órgãos de comunicação mais importantes do distrito, e que poderá ter passado despercebido a alguns vilaflorenses.

 

O primeiro tema que o autarca abordou, foi a questão das águas, cujos tarifários podem vir a subir, por ordem da administração central. Fernando Barros assume a sua oposição à medida que "prevê que o utilizador pague o custo do serviço que lhe é oferecido", o que poderá significar "para Vila Flor, de acordo com as expectativas do organismo regulador, ao abrigo de toda a estrutura legislativa que está aprovada, teremos aumentos, num horizonte de cinco anos, de 429 por cento", pelo que, remata, "numa  altura de crise [...], não há forma de justificar isto". Defende que as "tarifas devem ser competência dos municípios e não de um organismo regulador que se vai sobrepor a eles" uma vez que os municípios têm autonomia e propôe antes um um "aumento muito gradual das tarifas" já que "numa altura de crise, ter de impor às pessoas aumentos quatro vezes superiores, quando me batem à porta a pedir emprego e outras coisas, não se justifica". Ainda assim confidencia que ainda alimenta  a esperança que a medida não avance.

 

Revela-se ainda crítico da chamada Lei dos Compromissos, que, relembre-se, veda aos município a capacidade de contrair nova dívida sem acordo do Estado-Central, por tratar, como considera, por igual todas os concelhos, sem distinguir entre "cumpridores e os que têm dívidas elevadas", recordando que o município Vila Florense não recorre a empréstimos há vários anos e que tem apenas "uma dívida a longo prazo de cerca de três milhões de euros", tendo ainda "dinheiro em tesouraria suficiente para pagar os fornecedores". Assim,  denota que "nós, que mostrámos durante 20 anos que sabíamos gerir, gastar só o que temos, somos obrigados a cumprir uma lei que é um garrote a uma gestão muito equilibrada", pois "obriga-nos a cumprir determinados procedimentos que não facilitam em nada a gestão da administração", "sobretudo para Câmaras pequenas".

 

Para o futuro, projecta essencialmente a requalificação da Praça da República, o "coração de Vila Flor". Nas palavras do autarca: "É um projeto que já temos em carteira há uns tempos e que não conseguimos candidatar neste quadro comunitário mas que gostaria de ver executado". Pensa ainda em proceder à requalificação do Museu Municipal, tanto no edifício em si, como no conteúdo que  !precisa de ser informatizado, catalogado, porque se pode perder".

 

Traça ainda um elogio à Santa Casa da Misericórdia Local, "a maior empregadora do concelho": "Tem seis lares, vários centros de dia e uma cobertura a cem por cento do concelho. É uma instituição que tem 210 funcionários, uma Unidade de Cuidados Continuados, farmácia, uma quinta, uma padaria, enfim, é uma instituição grande" que ajuda a dar resposta aos problemas sociais do concelho, nomeadamente dando "resposta às necessidades dos mais idosos".

 

Realça ainda a política de "não sobrecarregar as pessoas" que o executiva tenta seguir, nomeadamente no que toca as taxas e tarifas, lembrando que "somos um dos cinco municípios que não cobram nada pela recolha de resíduos [...]. Ficamos com dois por cento do IRS e damos três aos munícipes. O IMI é o mais baixo que a lei permite", tudo para que a crise não signifique que o "município saia incólume mas [com] as pessoas [a] ficarem cada vez mais prejudicadas, mais enterradas." E, mesmo reconhecendo as dificuldades financeiras dos tempos presentes, não pretende mudar de linha: "Tem de ser. Se a lei me permitir é assim que irei trabalhar".

 

Intui ainda que deve ser apenas a união dos Municípios da região pode contribuir para o desenvolvimento: "temos de criar infraestruturas de desenvolvimento no concelho, de promover o desenvolvimento, mas não de uma forma isolada", pois "sentimos que cada vez mais o processo individual acabou." Nesse âmbito, demonstra-se tenaz opositor dos sucessivos encerramentos de serviços que assolam a região: "Não posso ser a favor do fecho dos tribunais. O tribunal de Vila Flor nunca esteve em causa fechar mas tenho de ser solidário com os outros. E sou. Estou a ser solidário com a região e com os meus vizinhos. Não posso concordar com o fecho dos tribunais porque todos nós temos o direito – pois não temos descontos nos impostos – e temos o direito de sermos servidos como qualquer outro cidadão."

 

Prossegue, criticando os fechos de serviços alertando que podem vir a ser extensíveis "às Finanças, à Segurança Social" entre outros. Opina até que "fica bem a toda a gente dizer que devíamos reivindicar uma discriminação positiva", pois argumenta "se vivemos numa zona mais desertificada, com mais problemas, então devíamos, até, ser mais beneficiados e não sofrer as consequências de quem está no Poder Central e decide numa folha de Excel". Conclui em resumo que o "processo de encerramentos é um contra-ciclo" que "leva o país à ruína porque isso não é planear". Eu sua opinião "devíamos era incentivar os investidores para que viessem cá investir". Nesse sentido considera que as obras nas vias comunicacionais (IP2, IC5 e A4), são positivas, pois "os restaurantes e a própria hotelaria dizem que hoje há mais facilidade em chegar cá. Mas também há mais facilidade em sair", pelo que as novas estradas também "vieram beneficiar muito o escoamento das águas Frize, dos cogumelos da Sousacamp" algumas das indústrias mais proeminentes do concelho. Ainda assim, alerta que as melhorias "não se registam de um momento para o outro, demoram algum tempo". 

 

Noutros campos, congratula-se com o desenvolvimento que  o desporto tem vinda a registar no município. Ao mesmo tempo que dá ênfase à performance recente do Vila Flor SC, revela que "o mais animador é a prática desportiva das crianças, dos jovens, dos idosos, dos mais velhos. E para esses as infraestruturas do município estão sempre à disposição", relembrando que "temos um estádio municipal com uma relva artificial com a avaliação FIFA duas estrelas, excelente. Temos uma pista de tartan, o estádio está disponibilizado gratuitamente para todas as associações do concelho e até grupos que se juntem. Temos um pavilhão excelente, requalificado, uma piscina coberta das melhores e aberta, gratuitamente. Temos vários polidesportivos e campos de terra batida".

 

 

 

 

 

 

 

A entrevista completa pode ser consultada em: http://www.mdb.pt/noticia/deviamos-ser-mais-beneficiados-por-vivermos-numa-zona-desertificada-2343.

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Publicado por Ilídio Monteiro Alves às 10:10

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Sábado, 1 de Março de 2014

FERNÃO VAZ DE SÃO PAYO

Um Grande Fidalgo de Vila Flor

 

Por: Jofre de Lima Monteiro Alves

 

    Fernão Vaz de São Payo ou Fernão Vasques de São Payo, nasceu cerca de 1380, filho primogénito e co-herdeiro de Vasco Pires de São Payo[1] e de sua mulher, cujo nome se ignora.

 

ÁRVORE DE COSTADOS DE FERNÃO VAZ DE SÃO PAYO

Próprio

Pais

Avós

Fernão Vaz de São Payo

 

N. 1380

F. 1449

Vasco Pires de São Payo

N. 1340

Pedro Anes do Souto

N. 1300

D. Francisca Pais de São Payo

N. 1320

 

 

 

 

    Foi moço fidalgo da Casa Real[2]; carta de autorização para Vasco Pires de São Payo dividir a sua grande casa pelos dois filhos mais velhos, Fernão Vaz de São Payo e Lopo Vaz de São Payo, por mercê do Rei Dom João I (31 de Agosto de 1398); mercê do direito de pousada nas suas quintãs, coutos e honras, situadas em Panóias, termo de Vila Real, e em Além dos Montes, por carta de Dom João I (27 de Fevereiro de 1400); proprietário; 5.º Senhor da Honra de São Paio, por herança paterna (1403); 2.º Senhor de Vila Flor, como herdeiro de seu pai (1403); Senhor de Torre de Moncorvo, por herança paterna (1403); Senhor de Mós, como herdeiro de seu pai (1403); Senhor de Vilas Boas e seu termo, por herança paterna (1403); Senhor de Parada de Pinhão, como herdeiro de seu pai (1403); Senhor de Frechas, por herança paterna (1403); 2.º fronteiro da vila de Torre de Moncorvo, de Vila Flor e da vila de Ansiães (1403); 2.º coudel das coudelarias de Anciães, Vila Flor, Torre de Moncorvo, Lamas, Mós, Vilarinho da Castanheira, Vilas Boas e de outros lugares (1403); chefe da linhagem e da família São Payo (1403 – 1449); vassalo d’El-Rei (1409); mercê a Fernão Vasques de São Payo, vassalo real, da confirmação duma carta que el-rei dera a seu pai Vasco Pires e pela qual as aldeias de Sampaio e Cardenha, termo de Vila Flor, eram suas e por isso não pagavam peitas, fintas e talhas ao concelho de Vila Flor por decisão deste, conforme se mostrou por um público instrumento feito por Vasco Esteves, tabelião da vila, por isso el-rei mandara que Sampaio houvesse por termo Cardenha e Vilarelhos, por carta régia de Dom João I dada em Santarém (19 de Abril de 1410)[3]; carta régia de confirmação a Fernão Vaz de todos os foros, rendas, direitos, pertenças e portagens das vilas de Vila Flor e Vilas Boas e seu termo, e de metade da aldeia da Quintela de Lampaças, que seu pai Vasco Pires lhe cedera «por quanto era filho mor do dito Vasco periz, sem dar dellas partilhas a seus Jrmaãos» (1 de Março de 1413); cavaleiro fidalgo da Casa d’El-Rei Dom João I, com a moradia de 8.900 libras (1414)[4]; carta de Dom João I para o abade Martim Aires se defender perante o Juiz dos Feitos da acusação feita por João Álvares, Fernão Vasques da Cunha e Fernão Vasques de São Payo de que teria adquirido bens reguengos para a erecção dum capela que instituíra na igreja de Santo Tirso (26 de Agosto de 1427)[5]; carta régia de confirmação da doação que lhe fez seu pai, dos foros, rendas, direitos, pertenças e portagens da vila de Moncorvo e seu termo, dada no Porto pelo rei Dom João I (28 de Julho de 1433)[6]; carta régia da confirmação de cinco cartas de Dom João I da doação de juro e herdade de todas os direitos, rendas, foros e portagens das vilas de Anciães, Vilarinho da Castanheira, Vila Flor, Torre de Moncorvo e Mós e seus termos, outra da metade da aldeia de Quintela de Lampaças, também de todos os foros, rendas, direitos, pertenças e portagens da vila de Moncorvo e seu termo, assim como todos os foros, rendas, direitos, pertenças e portagens da vila de Mós e seu termo e ainda de todos os foros, rendas, direitos, pertenças e portagens das vilas de Vila Flor e Vilas Boas com todo seu termo, e de metade da aldeia da Quintela de Lampaças, tudo confirmado pelo Rei Dom Duarte a Fernão Vasques de São Payo como filho de Vasco Pires de São Payo (26 de Maio de 1434)[7]; carta régia de confirmação da doação que lhe fez seu pai da vila de Mós e seu termo, dada por Dom Duarte em Évora (10 de Maio de 1435); mercê da doação das honras de S. Cibrão e Lamares, no termo de Vila Real, a Fernão Vasques de São Payo, «vassalo do rei», por carta d’El-Rei Dom Duarte (14 de Março de 1437)[8]; uma carta de confirmação da doação para sempre de 48 alqueires de pão que tinha na honra de S. Cibrão e 36 alqueires que tinha na honra de Lamares, ambas na terra de Vila Real (24 de Março de 1437); Dom Afonso V confirma a nomeação de Gonçalo Eanes, criado de Fernão Vasques de São Payo, no cargo de juiz dos feitos das sisas da Torre de Moncorvo e seu termo (9 de Setembro de 1439)[9]; fidalgo da Casa Real (1439); carta régia de confirmação da doação que lhe fez seu pai do senhorio das vilas de Vila Flor e Vilas Boas e de metade de Quintela de Lampaças e dos direitos que pertenciam a seu pai, «por ser filho maior do dito Vasco Pires, sem dar dellas partilhas a seus irmãos», dada em Santarém por El-Rei Dom Afonso V (1 de Março de 1441)[10]; escudeiro da Casa do Regente (1443); carta régia de Dom Afonso V de confirmação da doação de Vila Flor e seu termo, com a sua jurisdição, a Fernão Vasques de São Payo e da mesma forma que a tinha seu pai Vasco Pires (11 de Janeiro de 1444); carta régia de Dom Afonso V de mercê a Fernão Vasques de São Payo da doação «para sempre» da Terra e Julgado do Chacim, terra de Vale de Sancha e Quintela de Lampaças, bem como os bens móveis e de raiz que tinham pertencido a João Nunes de Aguilar e de Pedro Nunes, que os perderam por terem ido para Castela (11 de Março de 1444); mercê das terças das igrejas de Mós e Urros; 1.º Senhor da Bemposta, na sua família.

 

    Faleceu em 1449[11] e foi sepultado sob o segundo arco da nave esquerda da Igreja de Santa Maria dos Olivais, em Tomar, em sepultura com lápide sepulcral armoriada, com a seguinte inscrição: “Aqui jaz Fernã de Sãpaio, Cavalleiro fidalgo, criado delrei dom Afonso, e sua filha Mª de Sãpaio”[12].

 

    Casou pela primeira vez, em 1417, com D. Senhorinha Pereira[13], filha de D. Henrique Pereira, comendador de Poiares; com geração.

 

    Casou em segundas núpcias, em 1445, com D. Joana de Sousa e Alvim[14], nascida em 1425, filha de Pedro de Sousa, alcaide-mor de Bragança, e de D. Margarida de Alvim; sem geração.

 

    Filhos do primeiro casamento:

1 – D. GENEBRA PEREIRA, nasceu em 1419.

Casou em 1439 com Aires Ferreira, nascido em 1399, Senhor do Morgadio do Casal de Cavaleiros e vedor das obras reais de Entre-Douro-e-Minho[15].

2 – VASCO FERNANDES DE SÃO PAYO, nasceu em 1420.

6.º Senhor de São Paio e 3.º Senhor de Vila Flor; casado e com geração.

3 – LUÍS VAZ DE SÃO PAYO, nasceu em 1422.

Cavaleiro fidalgo da Casa Real com 1700 réis de moradia (1462)[16]; casado e com geração.

4 – D. MARIA DE SÃO PAYO, nasceu em 1424.

Sepultada conjuntamente com seu pai na Igreja de Santa Maria dos Olivais, em Tomar, em sepultura com lápide sepulcral armoriada.

    Filho bastardo de Fernão Vaz de São Payo, havido de Leonor Afonso, mulher solteira:

5 – LOPO VAZ DE SÃO PAYO, nasceu em 1430.

Foi legitimado por Dom Afonso V (1453).

 


[1] Manuel Felgueiras Gayo, Nobiliário de Famílias de Portugal, IX volume, tomo XXVI, Braga, 1990, p. 262; Jofre de Lima Monteiro Alves, Vasco Pires de São Payo: Um Grande Fidalgo de Vila Flor, 2013.

[2] Francisco Manuel Alves, Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança: Os Fidalgos, tomo VI, Bragança, 1981, p. 432.

[3] ANTT, Chancelaria de Dom Manuel I, livro 28, fl. 104v.

[4] Comissão Executiva das Comemorações do V Centenário da Morte do Infante D. Henrique, Monumenta Henricina (1431-1434), volume IV, Coimbra, 1962, p. 233.

[5] Arquivo Distrital do Porto, Convento de Santo Tirso, PT/ADPRT/MON/CVSTST/0201, fl. 289.

[6] Francisco Manuel Alves, Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança, tomo IV, Bragança, 1981, p. 231.

[7] ANTT, Chancelaria de Dom Duarte, livro 1, fl. 98.

[8] ANTT, Chancelaria de Dom Duarte, liv. 1, fl. 141.

[9] ANTT, Chancelaria de Dom Afonso V, livro 19, fl. 41.

[10] ANTT, Chancelaria de Dom Manuel I, livro 28, fl. 14v.

[11] Luiz de Mello Vaz de São Payo, As Distracções de D. António Caetano de Sousa, Lisboa, 1979, p. 13.

[12] Luciano Cordeiro, Vésperas do Centenário da Índia: Inscripções Portuguezas, Lisboa, 1895, p. 22.

[13] Corografia Portuguesa, tomo I, cap. 22, fl. 470.

[14] D. Joana de Sousa e Alvim casou em segundas núpcias, em 1451, com Fernão de Sousa Camelo, senhor da jurisdição de Roças (1453) e fidalgo da Casa Real (1462), de quem foi segunda mulher.

[15] Manuel Abranches de Soveral, Ensaio Sobre a Origem dos Ferreira: Os Ferreira de Aguiar de Sousa e sua Descendência até ao Século XV.

[16] Manuel Felgueiras Gayo, Nobiliário de Famílias de Portugal, volume VIII, tomo XXII, pp. 199 e 200; D. António Caetano de Sousa, Provas da História Genealógica da Casa Real Portuguesa, tomo II, I parte, p. 31.

Publicado por Jofre de Lima Monteiro Alves às 01:01

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Sábado, 15 de Fevereiro de 2014

Cabeço da Mina, em Vila Flor, é Sítio Classificado

O Cabeço da Mina, no concelho de Vila Flor, distrito de Bragança, acaba de ser classificado Sítio de Interesse Público, num processo com quase duas décadas para reconhecimento do lugar considerado dos mais importantes achados da pré-história portuguesa.

 

A decisão do secretário de Estado da Cultura, Jorge Barreto Xavier, foi hoje publicada em Dário da República, e realça a importância deste sítio arqueológico que se julga tratar-se de um santuário pré-histórico, datável do Calcolítico, da Idade inicial do Bronze, entre 2000 a 1800 antes de Cristo.

 

O Cabeço da Mina situa-se numa pequena elevação no vale da Ribeira da Vilariça e há várias décadas que tem despertado o interesse dos arqueólogos, tendo-se iniciado em 1997 o processo de pedido de classificação do mesmo.

 

O fértil Vale da Vilariça, em Trás-os-Montes, é conhecido pela "notável aptidão agrícola propícia ao estabelecimento de populações, desde a época pré-histórica", segundo a descrição que sustenta a classificação deste sítio.

 

O Cabeço da Mina será um vestígio desta antiga ocupação e os trabalhos arqueológicos que ali têm sido realizados "deram a conhecer um importante alinhamento de estelas decoradas, tendencialmente retangulares, que deveriam circundar todo o cabeço ainda não explorado na totalidade".

 

A decisão de classificação sustenta que "a importância deste sítio, interpretado como espaço de caráter sagrado, se relaciona não só com o tipo de implantação e potencial arqueológico que ainda possui, como com a quantidade relevante destes exemplares, o mais numeroso conjunto proveniente de uma só estação, e um dos mais importantes da Península Ibérica".

 

A secretário de Estado concluiu que o Cabeço da Mina reúne todos os critérios para ser classificado Sítio de Interesse Público pelo "interesse do bem como testemunho simbólico ou religioso, a sua importância do ponto de vista da investigação histórica e científica e pelas circunstâncias suscetíveis de acarretarem diminuição ou perda da sua perenidade ou integridade".

 

Também hoje foi publicado em Diário da República a abertura do processo para a classificação de outro monumento no distrito de Bragança, a Torre do Relógio em Alfândega da Fé.

 

O procedimento visa a classificação como Imóvel de Interesse Municipal com a categoria de monumento, e parte da iniciativa da Câmara de Alfândega da Fé.

 

A partir deste momento, o imóvel beneficia de uma zona de proteção especial que impede a concessão de licenças para obras de construção ou para intervenções no bem sem parecer favorável da administração do património cultural competente.

 

Quem tiver algo a opor a este processo de classificação da Torre do Relógio de Alfândega da Fé pode reclamar ou interpor recurso no prazo de 15 dias, a partir de hoje.

 

 

 

 

 

 

Notícia  e imagem retiradas de PortoCanal.sapo.pt. Todos os direitos reservados à referida entidade.

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Sábado, 8 de Fevereiro de 2014

Programa de Prevenção do "Bullying"

O bullying pode ser definido como a prática sistemática de actos agressivos, com vista a inflingir em outrem violência psicológica ou física, particularmente incidente em ambiente escolar. É um termo anglófono que serve para designar as seculares práticas dos brutamontes do recreio, que perseguem, batem ou insultam uma determinada vítima repetidamente, normalmente, alguém indefeso.

 

Este fenómeno está cada vez mais mediatizado, começando os casos de "bullying" a ter, portanto, maior importência no seio das comunidades escolares, sendo uma das questões que mais vai preocupando, nos nossos dias, pais, professores e alunos.

 

Pois bem, Vila Flor passou para a linha da frente no combate as estas práticas vexatórias nos recreios das nossas escolas e tomou as rédeas ao assunto, organizando  uma série de acções de prevenção que têm decorrido em vários estebelicimentos escolares do concelho desde a última semana de Janeiro e que se prolongará até meados de Fevereiro.

 

As acções de formação e sensibilização ficam a cargo do Gabinete de Psicologia do município e visam, antes demais, sensibilizar todos os membors da comunidade educativa para a existêcnia do problema, para os efeitos nefastos que tais actos podem causar nas vítimas, suas famílias e comunidades e acima de tudo previnir ou detectar potencias casos de "bullying".

 

É uma iniciativa que junta a Câmara Municipal, a Santa Casa da Mesiricórdia e o Centro de Saúde local e que se insere no âmbito da Unidade Móvel de Saúde, projecto que procura trazer os temas da saúde ao seio das populações.

 

 

 

 

Fontes: Rádio Renascença, CM de Vila Flor e PortoCanal.

 

 

 

 

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Sábado, 1 de Fevereiro de 2014

DR. FERNÃO DA MESQUITA

Um Magistrado Régio Natural de Vila Flor

 

Por: Jofre de Lima Monteiro Alves

 

Fernão da Mesquita nasceu em Vila Flor cerca de 1440, quinto filho varão de Martim Gonçalves Pimentel e de D. Inês Esteves da Mesquita[1].

 

ÁRVORE DE COSTADOS DE FERNÃO DA MESQUITA

Próprio

Pais

Avós

Dr.   Fernão da Mesquita

 

N.   Vila Flor 1440

 

F.   Lisboa 1519

Martim   Gonçalves Pimentel

 

N.   1410

F.   1481

Frei   Álvaro Gonçalves Pimentel

 

D.   Inês Esteves da Mesquita

 

N.   Vila Flor 1421

F.   Vila Flor 1472

Estêvão   Pires da Mesquita

Beatriz   Vaz Moutinho

 

Estudante de latim; habilitado em Braga com ordens menores, sendo identificado com nome de «Fernam Martinz, filho do dito Martim Gonçalluez de Villa Frroll e da dicta sua mollher Ines da Mizquita da dicta frreiguesia» de «Sam Bertolameu de Villa Froll desta diocese», em companhia de seus irmãos Álvaro Martins da Mesquita e Luís Martins Pimentel (23 de Setembro de 1452)[2]; cavaleiro da Casa Real; condenado pela morte de João de Mós, criado de Vasco Fernandes de Sampaio, com pena de agravo e degredo de sete anos para as partes de Ceuta (1470); como homiziado participa na armada do rei Dom Afonso V que partiu para a conquista de Arzila e Tânger, em Marrocos (Agosto de 1471); perdoado o degredo de sete anos a que fora condenado, na sequência do perdão geral outorgado aos homiziados que serviram na armada e conquista de Arzila e Tânger, por carta régia do rei Dom Afonso V (14 de Novembro de 1471); aluno da Universidade de Siena (1474); formado na Universidade da «Lorena por não haver universidade neste Reino»[3]; doutor em Leis (1476); oficial redactor dos documentos da Chancelaria Régia (1476 – 1492)[4]; colocado no Desembargo e Petições (1476); identificado como doutor Fernão da Mesquita, subscreve em conjunto com o dr. Diogo da Fonseca, uma carta de perdão do Desembargo do Paço (29 de Novembro de 1476)[5]; um criado de Fernão da Mesquita é provido no ofício de tabelião das notas de Arronches (27 de Fevereiro de 1483); subscreve com o doutor Diogo de Lucena uma carta de perdão, assinando como sendo do Desembargo e por ausência dos Desembargadores do Paço (13 de Dezembro de 1485); chanceler-mor interino da Chancelaria-Mor da Corte e do Reino de Portugal (1491); Juiz Desembargador dos Agravos da Casa da Suplicação e do Desembargo do Rei, tendo para seu mantimento 500.000 reais de prata, com todas as honras e liberdades, por carta régia do rei Dom João II (29 de Janeiro de 1492); proprietário no Alentejo; mercê régia da doação de umas casas em Évora (1492); instituidor e 1.º Senhor do Morgado de Sovereira, em Portel[6] (1493); subscreve em conjunto com o licenciado Aires de Almada, ambos desembargadores dos agravos, a carta de perdão a Álvaro Carvalho, lavrador no termo da vila de Alenquer, por ter ferido a Fernão Álvares Preto (21 de Março de 1496); subscreve em conjunto com o licenciado Aires de Almada, ambos desembargadores dos agravos, a carta de perdão a Branca Fernandes, moleira, mulher de João Pires, moradora no termo de Alcobaça, «que pecara na lei do casamento com Estêvão Gil, clérigo de missa» (21 de Março de 1496); subscreve em conjunto com o licenciado Aires de Almada, ambos desembargadores dos agravos, a carta de perdão a Fernão Afonso, carcereiro na cadeia e prisão de Miranda do Douro, que deixou fugir um preso e por isso tinha sido condenado (22 de Março de 1496)[7]; subscreve a carta passada a Afonso Anes, morador em Vilar de Porcos, de confirmação do privilégio de estalajadeiro por ter acrescentado umas casas para servirem de estalagem (23 de Março de 1496); provisão régia pela qual os «Desembargadores Fernam de Mizquita, e Rodrigo Homem, e o Bacharel João Rodrigues Cordeiro, Sobrejuiz da Casa do Civel», são enviados em «Alçada ás Provincias d’Entre Douro e Minho, e Tras os Montes», com «amplíssimos poderes» (27 de Março de 1498)[8]; Desembargador dos Agravos na Corte com poderes de alçada nas Comarcas de Entre-Douro-e-Minho e Trás-os-Montes (1498 – 1502)[9]; rol dos pagamentos aos Desembargadores da Casa da Suplicação, pelo qual autoriza «Joham Rodriguez Mazcarenhas que ora teemdes carreguo do pagamento dos desembargadores d’El Rey Nosso Senhor» e a «Dom Fernando Coutinho Bispo de Lameguo do Conselho do dito Senhor e Regedor da sua Cassa da Sopricaçom», a proceder ao pagamento «ao Doctor Fernam da Mizquita quimze mil reaes», da «comtias que cada huum tem» e «as quaaes lhes montam aveer de seus mantimentos hordenados do seguundo quartell deste anno presemte» (17 de Julho de 1501)[10]; identificado como «doutor Fernão de Mesquita, desembargador dos agravos na corte, […] do desembargo do rei com poderes de alçada nas comarcas d’Antre Doiro e Minho e Tra-los-Montes», subscreve conjuntamente com o bacharel João Rodrigues Cordeiro, sobrejuiz na Casa do Cível de Lisboa, a carta passada a «Pero de Nisa, escudeiro, fidalgo, morador em Vila Real», de «perdão de parte do degredo de 3 anos para Ceuta a que foi condenado por, enquanto juiz nessa vila, ter dormido com uma presa manceba de um clérigo e de ter solto dois presos» (21 de Agosto de 1501); mercê do ofício de tabelião do público e judicial de Basto e Gouveia a Francisco de Macedo, criado do dr. Fernão da Mesquita, por o ter perdido Diogo de Abreu, o qual tinha vendido o ofício sem licença d’el-rei a um tal Álvaro Mendes, clérigo de ordens menores e de coroa aberta (16 de Novembro de 1504)[11]; como «doutor Fernã da Myzquita, do Desembargo d'El Rei», assina um recibo sobre 60.000 reais, do primeiro quartel a que têm direito os desembargadores da Casa da Suplicação de seus ordenados (21 de Abril de 1510)[12]; carta pela qual «Joana de Luçena molher que foy do doctor fernam da Mizquita» emprazou por 36 reais um chão da comenda de Mendo Marques, na Ordem de Cristo, «que estaa dentro em suas casas em que estaa huua escaada de pedra» (5 de Setembro de 1519); carta de privilégio «a Joana de Lucena, viúva do doutor Fernão da Mesquita», pela qual «é outorgado que seus criados e homens, mordomos, caseiros e lavradores que estejam e lavrem em suas quintas e casais encabeçados sejam privilegiados e escusados de pagarem encargos lançados pelos concelhos» (6 de Maio de 1520)[13].

 

Faleceu em 1519, provavelmente em Lisboa.

 

Casou «à hora da morte» com D. Joana de Lucena, filha de mestre Rodrigo, médico de Dom João II. Filhos:

1 – ÁLVARO DA MESQUITA, nasceu em 1465.

Foi criado de D. Afonso de Portugal, bispo de Évora (1485); almoxarife das rendas de Alvito, no almoxarifado de Estremoz (1496).

2 – D. BEATRIZ DA MESQUITA, nasceu em 1467.

3 – DIOGO DA MESQUITA, nasceu em 1470.

4 – CRISTÓVÃO DA MESQUITA, nasceu em 1475.

Foi almoxarife de Torre de Moncorvo.

5 – IÑIGO PIRES DA MESQUITA, filho bastardo, nasceu em 1480.

Foi abade de S. João de Arroios e Vilarinho de S. Romão, no termo de Sabrosa; proprietário em Murça.

6 – D. FILIPA DA MESQUITA, nasceu em 1489, filha bastarda do doutor Fernão da Mesquita e de Ana Fernandes, mulher solteira.

Foi legitimada por carta régia (4 de Julho de 1503).



[1] Jofre de Lima Monteiro Alves, Ascendência de Vila Flor nas Veias do Minhoto Fernão de Magalhães, 2011.

[2] M. Antonino Fernandes, Matriculas dos Ordinandos da Mitra de Braga (1430 – 1588), tomo I, Ponte de Lima, 2002, p. 189.

[3] Manuel Felgueiras Gayo, Nobiliário de famílias de Portugal, volume VII, tomo XX, Braga, 1990, p. 315.

[4] Isabel Carla Moreira de Brito, A Burocracia Régia Tardo-Afonsina: A Administração Central e os Seus Oficiais em 1476, volume II, Porto, Faculdade de Letras, 2001, p. 29.

[5] ANTT, Chancelaria de Dom Afonso V, Livro 7, fl. 56v.

[6] Cristóvão Alão de Moraes, Pedatura Lusitana, volume I, tomo 2.º, Braga, 1997, p.611.

[7] ANTT, Chancelaria de Dom Manuel I, Livro 26, fl. 64v.

[8] João Pedro Ribeiro, Additamentos e Retoques á Synopse Chronologica, Lisboa, 1829, p. 164.

[9] ANTT, Chancelaria de Dom Manuel I, Livro 37, fl. 29v, PT/TT/CHR/K/37/29-125V.

[10] ANTT, Corpo Cronológico, Parte 2.ª, maço 4, doc. N.º 125.

[11] ANTT, Chancelaria de Dom Manuel I, Livro 23, fl. 38.

[12] Manuel Abranches de Soveral, Ensaio Sobre a Origem dos Mesquita, 2006.

[13] ANTT, Chancelaria de Dom Manuel I, Livro 5, fl. 5.

Publicado por Jofre de Lima Monteiro Alves às 01:00

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Quinta-feira, 23 de Janeiro de 2014

XX Gala "Cantar os Reis"- II

Como em Janeiro o tema forte é o Cantar dos Reis, ficam aqui mais fotografias da XX Gala "Cantar os Reis" que decorreu no Centro Cultural de Vila Flor, no passado dia 5.

 

A Actuação do Grupo da Freguesia de Santa Comba de Vilariça
O Grupo de Cantares “os Pelões”, de Freixiel
E como as crianças são o futuro, aqui fica a actuação do Jardim Flor de Liz.
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Publicado por Ilídio Monteiro Alves às 10:10

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Quarta-feira, 15 de Janeiro de 2014

XX Gala "Cantar os Reis"

O auditório do Centro Cultural de Vila Flor, recebeu no passado dia 5, 11 grupos, oriundos de todos os cantos do concelho, para aí se realizar a já tradicional Gala "Cantar os Reis", que já vai na 20ª edição.

 

Nesta gala, que pretende reavivar a tradição de imemorial das janeiras, participaram representantes das seguintes colectividades: Grupo da Associação Cultural e Recreativa de Vila Flor, Jardim Flor de Liz (associada à Santa Casa da Misericórdia de Vila Flor), Escola de Música Zécthoven (Vila Flor), Coro de S. Bartolomeu (Vila Flor), Grupo de Danças e Cantares de Vila Flor, Grupo de Cantares de Seixo de Manhoses, Grupo da União de Freguesias de Valtorno e Mourão, Grupo da Freguesia de Santa Comba de Vilariça, Associação Cultural, Recreativa e Desportiva  de Carvalho de Egas - Alegre Atitude, Grupo de Cantar os Reis de Vale Frechoso e Grupo de Cantares “os Pelões” (Freixiel).

 

Deu-se, deste modo, seguimento a uma das mais enraizadas tradições musicais, não só da etnografia trasmontana, mas também da cultura nacional, uma vez que cantar os reis é algo de transversal a todo o território nacional, pelo que Vila Flor cumpriu este ano, mais uma vez, a sua parcela no dever de conservar esta enternecedora tradição.

 

 

 

Vista geral da Gala, com uma plateia bem compostas que se reuniu para a ocasião.
Actuação do Grupo de Danças e Cantares de Vila Flor. 
Actuação da Associação Cultural, Recreativa e Desportiva de Carvalho de Egas.
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Publicado por Ilídio Monteiro Alves às 10:10

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Quarta-feira, 8 de Janeiro de 2014

Crónica de uma morte anunciada VI

Façamos um pequeno desvio à toada sequencial que estas crónicas têm tomado, para nos focarmos num facto que me choca particularmente, no meio de todos os calamitosos encerramentos de que falámos na última vez.

 

Recorde-se que, tratando do papel do Estado Central no processo de desertificação em curso, acusámos, sem escolhos, o Estado de ser agente promotor da catástrofe que temos vindo a abordar neste espaço, e apontámos como prova do afirmado as consecutivas ondas de encerramentos de todo o tipo de estabelecimentos, serviços e organismos com que o interior tem sido selvaticamente golpeado.

 

Ora, no meio destes fechos todos, há um que queria destacar. E estou ciente de que não será o mais preocupante (se cuidássemos de realizar um escala), mas que traduz um simbolismo, talvez inalcançado pela maioria da opinião pública, que traz sobressaltos à alma da gente.

 

Falo do encerramento de tribunais, medida que a breve trecho irromperá por este país fora, e dará mais uma machadada (mas ainda não é a final) no interior, juntando-se a outras machadadas, passadas e futuras, para, numa simbiose de cortes, garrotear definitivamente a metade sertaneja do país, enformando aí um novo deserto no planeta, o qual ainda não rivaliza com os seus consortes Saara, Góbi ou Atacama, mas para lá caminhará.

 

E, como disse, tenho consciência que os encerramentos nas áreas da saúde e da educação, têm prevalência na escala de preocupação das populações, pois afectam-nas em maior medida.  De facto, os cortes nos cuidados de saúde (ainda por cima contendo o interior uma população tão envelhecida e com dificuldades de circulação), ou de educação (que obriga os infantes a transcorrerem um percurso de corta-mato todos os dias para chegarem ao seu estabelecimento de ensino) são bem mais preocupantes do que o encerramento de tribunais, se bem que estes últimos também já signifiquem uma gravidade assinalável, incorrendo o Estado num pérfido crime de denegação de justiça às populações que vêm, de súbito, partir a sua Domus Iustitia.

 

Mas, não é pela sua maior ou menor gravidade que escolho abordar em artigo próprio o encerramento dos tribunais, no meio dos golpes que vão matando o interior. Faço-o porque vejo neste tipo de encerramentos uma carga simbólica que nunca antes foi experimentada entre nós.

 

É que, nunca houve por cá concelhos sem tribunais. Os concelhos foram criados para vários propósitos (expostos nos seus respectivos forais), mas à cabeça surgia sempre a noção de administração da justiça. Não havia concelho sem tribunal, nem tribunal sem concelho. Uma e outra coisa confundiam-se. Aliás, era para traduzir simbolicamente, essa capacidade única de administrar a justiça régia (que fundava todo o conceito de autonomia municipal) que os concelhos possuíam um pelourinho (que era um mero símbolo da autónoma faculdade de administração de justiça, e não o sítio físico onde as penas se aplicavam, como erradamente se pretendeu fazer crer no século XIX, o que levou à destruição impiedosa de quase todos os pelourinhos, um pouco por todo o lado).

 

E portanto, termos de percorrer nove séculos, para que passem a existir concelhos sem tribunal, sem essa básica permissão de administrar a justiça, que sempre tiveram, é, para mim, algo de extraordinariamente grave, por insultar a nossa própria identidade consolidada.

 

Daí que escolha destacar esta nova vaga de encerramentos, por ser uma quebra num certo sentido de continuidade histórica que os concelhos têm tido, que fazem deles uma das poucas entidades que têm sobrevivido ao duro teste do tempo, existindo sempre, desde que existe país (alguns, como o nosso vizinho de Ansiães, até precedem a própria fundação!), desempenhando um papel fundamental na ligação das gentes à terra, na subsistência de um sentimento de pertença do indivíduo ao seu território natal, e que agora surgem descaracterizados, desprovidos de um dos seus elementos distintivos mais essenciais: o tribunal. A simbologia desta medida é, a meu ver, simplesmente avassaladora.

 

E por falarmos dos nossos vizinhos, a Carrazeda é um dos municípios que vai perder o seu tribunal. No distrito de Bragança é o único. Paralelamente, Alfândega da Fé, Vimioso, Vinhais e Miranda verão os seus tribunais darem lugar a "Secções de Proximidade", seja lá o que isso for.

 

Para concluir, outra das razões que me leva a destacar o fecho dos tribunais, ao invés de outras medidas de gravidade igual ou similar, é o facto de, no meu entender, quando um dia começar a conversa de acabar com concelhos (que irá surgir, sem dúvida), serão estes desprovidos de tribunal (e de tudo o resto, com certeza) que irão encabeçar a lista de abate. E aí será com profunda tristeza que verei, aquele que é o concelho mais velho de Portugal - a Carrazeda de Ansiães que, geminada com São João da Pesqueira recebeu foral por volta do ano 1060 - desaparecer.

 

 

 

A chamada Domus Municipalis, em Bragança, embora as suas origens e finalidades não sejam claras. Fotografia própria.
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Publicado por Ilídio Monteiro Alves às 10:00

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Quarta-feira, 1 de Janeiro de 2014

JOÃO RODRIGUES DE PORTOCARREIRO

UM GRANDE FIDALGO EM TRÁS-OS-MONTES

 

Por: Jofre de Lima Monteiro Alves

 

    João Rodrigues de Portocarreiro nasceu em 1330, filho de Fernão Anes de Portocarreiro e de D. Maria Rodrigues de Resende.

 

Árvore de   Costados de João Rodrigues de Portocarreiro

Próprio

Pais

 

João Rodrigues   de Portocarreiro

 

N. 1330

Fernão Anes de   Portocarreiro

 

N. 1300

 

João Rodrigues   de Portocarreiro

 

N. 1270

D. Margarida   Fernandes de Moreira

 

N. 1280

D. Maria Rodrigues   de Resende

 

N. 1305

Vasco Martins de   Resende

 

N. 1260

D. Mécia Vasques   de Azevedo

 

N. 1270

 

    Foi vassalo d’El-Rei; nobre; combatente nas campanhas da I Guerra Fernandina entre Portugal e Castela (1369 – 1371); fronteiro de Riba Côa e de São Félix dos Galegos (1369); vencedor do recontro de São Félix dos Galegos, onde com 24 cavaleiros fez frente e derrotou oitenta cavaleiros e demais peões castelhanos, «matando e prendendo muitos deles e isso mesmo dos homens de pé … e foi essa peleja muito soada, porque os poucos venceram muitos» (1369); Senhor do Castelo e da Vila de S. Félix dos Galegos, «com a sua jurisdição de juro e herdado» e «por serviço que lhe fizera em guarda e defensão dalguns lugares do Reyno», mercê do rei Dom Fernando I por carta expedida na Golegã (15 de Maio de 1370); Senhor de Vilarinho de Castanheira, de Vale de Torno, de Carvalho de Egas, de Seixo de Manhoses, de Mourão e Alagoa, «de juro e herdado, com mero e misto império», por carta régia do rei Dom Fernando I passada no Porto (20 de Janeiro de 1372); Senhor da Terra de Ansiães, no almoxarifado da Torre de Meencorvo em «pagamento de sua conthia», por mercê do rei Dom Fernando I dada em Vila Nova de Anços (13 de Março de 1372); Senhor de Chacim, de Alfândega da Fé, de Castro Vicente e de Mós, por carta do rei Dom Fernando I dada em Braga (12 de Agosto de 1372); Senhor de Vila Flor, por mercê do rei Dom Fernando I (12 de Agosto de 1372); Senhor de Ferreirós, Alciães e Soutelinho da Raia, no termo de Chaves (12 de Agosto de 1372); Senhor de Portocarreiro e Vila Real, de juro e herdade, por mercê do rei Dom Fernando I (13 de Agosto de 1372); Senhor de Cotos e de Vilarinho, no termo de Chaves, por carta régia de Dom Fernando dada em Santarém (1 de Abril de 1373); Senhor da Honra de Resende, por carta dada em Viana a par de Alvito pelo rei Dom Fernando I (14 de Agosto de 1374); Senhor das Terras de Ferreiros e de Tendais, por carta do rei Dom Fernando I, passada na Lourinhã (17 de Novembro de 1375); meirinho-mor de Trás-os-Montes (13 de Agosto de 1376); Senhor de Montalegre e de Tentúgal (18 de Março de 1377); Senhor de Barroso, de Pena e de Miranda (31 de Março de 1379); Senhor de Lamas de Orelhão, por carta régia expedida em Estremoz (17 de Março de 1380); mercê dos direitos de Vila Flor e seu termo, «em tença e desconto de sua contia», por carta régia dada em Lisboa (18 de Novembro de 1381); grande proprietário, sendo um dos maiores potentados do Reino de Portugal; partidário de Dona Beatriz, Infanta de Portugal e Rainha de Castela, e do rei D. João I de Castela, durante a Crise Dinástica (1383); os «homens boõs» de Ansiães revoltaram-se contra João Rodrigues de Portocarreiro, por ser partidário de Castela, e este «se veo lançar sobre eles com peça de gentes e os combateo e roubou e queymou e lhes matou e prendeo homens» e quando ia em retirada o mesmo João Rodrigues de Portocarreiro foi atacado em Vilarinho da Castanheira pela população, onde «o combaterom e entrarom per força e que os tomarom e que delles prenderom e matarom» muita gente das hostes do dito João Rodrigues de Portocarreiro, que se pôs em fuga (1384); Dom João, Mestre de Avis, doou a Vasco Pires de São Payo todas as vilas, lugares e terras que João Rodrigues de Portocarreiro tinha recebido do rei Dom Fernando I em Ansiães, Vilarinho da Castanheira, Vila Flor, Torre de Moncorvo e Mós (2 de Maio de 1384); Dom João, Mestre de Avis, fez «doaçam pera sempre aos homens boõs e concelho dAnciaães» das terras que foram de João Rodrigues Portocarreiro, incluindo «todollos bens movees e de raiz quintaas e casaaes» que o dito senhor possuísse dentro da vila e no seu termo, «os quaees elle perdeo por seer com elrrej de Castella em deserviço destes regnos e senhor», para «remuneraçam das muitas perdas e dapnos que receberom en seus bens per o dito Joham Rodrigues Porto Carreyro» os «homens boõs» em «esta guerra», por carta expedida em Lisboa (15 de Junho de 1384); doação a Lopo Esteves da aldeia de Campelos, no termo de Ansiães, que antes pertencia a João Rodrigues de Portocarreiro, «com todos os direitos, frutos novos, rendas, foros, entradas e saídas e pertenças» (2 de Outubro de 1384); exilado em Castela.

Foi pai de:

Dona Maior Anes de Portocarreiro, nascida em 1350.

2.ª Senhora de Vila Real.

Casou com D. João Afonso Telo de Menezes, nascido em 1345, filho D. João Afonso Telo de Menezes, 4.º Conde de Barcelos, e de D. Guiomar Lopes de Vilalobos.

D. João Afonso Telo de Menezes foi fidalgo; 1.º Conde de Viana (1373); dado como refém e garante do tratado de paz entre os reis de Portugal e Castela (19 de Março de 1373); alcaide-mor de Beja (10 de Abril de 1376); mercê dos direitos reais da Vila da Lousã (17 de Fevereiro de 1377); mercê dos direitos reais da alcaidaria da vila de Beja (14 de Janeiro de 1381); Senhor da Honra de Canaveses e Britiande (15 de Julho de 1382); partidário da Infanta D. Beatriz e do rei D. João I de Castela (1383); alcaide-mor de Miranda do Corvo e Penela, por mercê de Dom João I de Castela (1383).

    Igreja Matriz de Nossa Senhora da Anunciação de Vale de Torno, em Vila Flor, que teve como primeiro orago Nossa Senhora do Castanheiro, foi vigararia de apresentação dos abades de Santa Maria Madalena de Vilarinho da Castanheira. Fotografia de Jofre de Lima Monteiro Alves, datada de Agosto de 2009.

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Publicado por Jofre de Lima Monteiro Alves às 01:01

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Segunda-feira, 23 de Dezembro de 2013

Inocência e Realidade

Por: Maria de Fátima Amaral

 

Em tempos  idos, a compra de bens era muitas vezes feita através da troca de outros produtos, pois o  dinheiro vivo era escasso na maioria dos lares portugueses.

 

Assim dito, compreende-se a história que se segue, a qual foi contada pela própria no passeio pelos limites da nossa aldeia no termo do Concieiro, realizado pela por iniciativa da Associação Cultural, Recreativa e Desportiva de Carvalho de Egas, e que fez as delícias dos participantes.

 

Dona Ernestina, que vai contando com mais de sete décadas, frequentou a escola primária, tendo por professora a Exm.ª  Sr.ª Dona Conceição, que já ultrapassou mais de nove décadas de idade e de quem, aqueles que foram seus alunos, ainda hoje se lhe referem com muita estima e consideração. Ambas são, pois, as personagens principais desta história.

 

Por necessidade de pagamento da caixa escolar, não faltava a recomendação da professora:

               

- "Meninos, não vos esqueceis  de pagar a caixa escolar!"

 

Ora, nem todos os meninos e meninas podiam trazer a moedinha que liquidaria a dívida, mas produtos simples, existentes em quase todos os agregados familiares, serviam como moeda de troca e neste caso concreto, eram ovos os meio de pagamento.

 

Chegou Dona Ernestina, ou menina Ernestina, neste contexto, afogueada e atrasada à escola, com dois ovinhos na mão, que entregou à professora visando saldar a dívida da caixa escolar. Ao receber os ovos, a Professora questionou a aluna:

              

  - "Ernestina, os ovos são frescos?"

 

Ernestina, botou os olhos ao chão com ar comprometido e com ingenuidade própria das crianças, respondeu:

             

- "Desculpe, Sr.ª Professora, estão quentes, porque eu ainda estiva à espera que a pita os pusesse..."

 

 

 

Presépio tradicional que enfeitou a freguesia de Carvalho de Egas, no Natal de 2010.
Toda a equipa do Blogue Vila Flor em Flor deseja em uníssono um Feliz Natal e um Próspero Ano de 2014 aos seus visitantes.
Publicado por Ilídio Monteiro Alves às 10:10

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Segunda-feira, 16 de Dezembro de 2013

Crónica de uma morte anunciada V

Já tomámos contacto com o problema; já vimos que nos últimos 50 anos o distrito de Bragança perdeu 40% dos seus habitantes, com alguns concelhos a registarem perdas acima de 60%; já vimos que a dificuldade de fixar população no interior não é questão nova;  já vimos o que têm ensaiado fazer as autoridades locais para tentar contrariar o fenómeno; mas, e o Estado Central? Que papel têm tido os sucessivos governos no meio desta questão? Para que lado têm, consciente ou inconscientemente, puxado? Que impactes, positivos ou negativos, tiveram as políticas seguidas nos últimos 50 anos? Que poderemos espectar de futuras medidas? Pois bem, ensaiemos uma resposta a estas demandas.

 

Atirando directamente ao alvo e sem rodeios afirmo desde já que, no meu entender, a intervenção do Estado Central em matéria de desertificação humana do interior, tem sido genericamente negativa e tem contribuído, em grande medida, para o cenário catastrófico a que se chegou. Afirmo-o sem escolhos. Assim, assertivamente.

 

Quer dizer, não nego que, aqui e ali, se tenham tomado algumas medidas que trouxeram algo de positivo, algo de bom para a luta contra a desertificação. Tal como na peça anterior não pretendi afirmar que, do lado das autarquias só se registam medidas positivas, também não afirmarei nestoutra que do lado do Estado Central, apenas malfeitorias se assinalam. Como é comum, as coisas nunca são tão lineares. Não negando essas medidas que o Estado Central tem tomado, não posso deixar de apontar um problema aí embutido: o problema é, a meu ver, que nos últimos 50 anos tais medidas não têm sobejado. Quem tomou as rédeas do desenvolvimento de esforços em prol do interior foram os órgãos municipais locais e não tanto o Estado Central que tem revelado desinteresse (desprezo até) por essa metade do país.

 

Assim de repente, nas últimas décadas e tirando as auto-estradas (que é sempre tema bem polémico), e as grandes barragens/complexos hidroeléctricos (que, como eu, muitos questionam qual o real proveito que trouxeram às povoações onde ficaram instaladas), que outros investimentos fez o Estado Central nas regiões do interior? De que maneira tentou (activamente, pois claro) promover o desenvolvimento dos nossos sertões? Que curriculum pode o Estado Central apresentar nesta matéria?

 

E não se venha aqui apontar nesta sede as obras de que já falámos anteriormente, como caminhos de ferro, escolas e estradas, pois, salvo excepções, são edificações que já vinham sendo feitas desde os tempos da regeneração e que, no seu grosso, se concluíram antes das décadas em análise. Não são, portanto, investimentos que possamos enumerar em defesa do papel do Estado na promoção do desenvolvimento regional nos tempos recentes

 

Claro que muitas das obras que creditei às autarquias locais no artigo anterior terão tido, inevitavelmente, uma participação, maior ou menor, do Estado. Claro que outras obras existirão, promovidas pelo Estado Central, que esteja a olvidar, ou a menosprezar. Mas se ambas as constatações são verídicas, mais certeira será a afirmação seguinte: é inegável que, principalmente nos últimos 20 anos, o Estado Central tem sido agente activo de promoção da desertificação, através de um desinvestimento atroz que se traduz no encerramento de grande parte das suas instalações, serviços e organismos que se encontravam ainda nas vilas do interior.

 

Se não, procedamos ao rol dos lamentáveis encerramentos: começando nos anos 90 com o encerramento de grande parte das linhas férreas do interior (no Distrito de Bragança ficou apenas a linha do Tua até Mirandela, entretanto novamente encurtada); depois iniciou-se o encerramento de escolas primárias, um pouco por todas as aldeias e freguesias do interior; de seguida experienciou-se o fecho dos hospitais/ unidades de saúde/urgências de grande parte das vilas do interior, sobrando apenas hospitais centrais distritais, que distam  para cima da centena de quilómetros de muitos dos povoados que pretender servir; nos últimos anos prosseguiu-se para outras áreas como o encerramento de Tribunais, postos policiais e estações de correios;  contemos já as anunciadas desactivações de repartições de finanças e conservatórias; e por último realcemos a extinção de algumas das freguesias do interior que deixaram muitas populações sem qualquer presença  próxima de qualquer tipo de Estado, seja ele central ou local.

 

E o papel que estes cortes de serviços desempenham na desertificação do país, não pode ser desvalorizado, porque cada encerramento causa efeitos concretos nas vidas das populações: o desperecimento do comboio privou algumas populações de qualquer serviço público de transporte, bem como impediu que houvessem alternativas ao automóvel na deslocação de e para o interior; o encerramento das escolas retirou às crianças do interior o direito de aceder à educação pública em condições semelhantes às demais, tendo agora de percorrer um caminho muito longo até à escola mais próxima, bem como privou às aldeias da presença animadora de crianças no seu seio; os encerramentos de serviços de saúde condenaram as populações do interior a ter de (exas)esperar muito mais por socorro médico urgente, a ter de ir nascer a Espanha (sim, chegámos a este ponto) e a ter de ir fazer tratamentos e consultas a cidades longínquas, para onde não existem transportes; o encerramento dos tribunais e de postos policiais leva ao aumento do sentimento de insegurança, pois, em caso de necessidade, o socorro policial está agora mais longe, bem como o Tribunal mais inacessível; os encerramentos das repartições e conservatórias levará a que se torne uma verdadeira provação o simples acto de se ir "tratar de um papel", como tão bem o povo chama a estas questões burocráticas que inevitavelmente vão surgindo.

 

E tudo isto vai contribuído para que seja mais frustrante viver no interior, onde ir tratar de qualquer assunto ou aceder a qualquer serviço público se torna uma aventura de muitos quilómetros e poucos meios de lá chegar. E por outro lado, torna o interior cada vez menos atractivo até para os próprios emigrantes que pensam em regressar à terra natal, pois ponderando bem, começam a ver que ir viver para um sítio onde o acesso a bens essenciais e básicos como a saúde, a educação para os filhos ou a justiça/segurança é um retrocesso intolerável.

 

Para resumir, começam hoje a existir concelhos inteiros onde inexiste qualquer sinal da presença do Estado. Concelhos inteiros tratados como verdadeira res derelicta, a coisa abandonada por seu dono no antigo Direito Romano, onde o Estado arrumou a trouxa e partiu, como se ali não houvesse também território português a governar e cidadãos portugueses a servir.  Concelhos onde os cidadãos continuam a pagar os seus imposto, mas em contrapartida deixaram de ter acesso, no seu território de residência, a serviços básicos cujos os seus impostos visam, precisamente, financiar. Uma lógica imunda se instalou no interior do país e votou os seus cidadãos ao abandono, ao mais profundo desprezo, como se de cidadãos de categoria inferior se tratassem, uma categoria que não tem direito a ter acesso efectivo aos serviços que o Estado providencia e deve providenciar, uma categoria que não conta, que talvez, na perspectiva do Estado, nem exista. Pois bem, pelo andar da carruagem, não faltará muito para que, na realidade, o interior deixe mesmo de existir.

 

 

 

Estação da Linha do Sabor de Duas Igrejas, em Miranda do Douro, um dos muitos símbolos do abandono do interior. (Fotografia de Aníbal Gonçalves)

 

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Domingo, 8 de Dezembro de 2013

Crónica de uma morte anunciada IV

A emigração dos anos 60 levou a que saíssem do território nacional entre 1,000,000 a 1,500,000 de portugueses, até ao fim do regime, em 1974! O número é um soco no estômago. Desaparecer, numa dúzia de anos, quase 15% da população do país, é algo de inimaginável. Quase sobrenatural.  Estatisticamente,  o país equilibrou, com a chegada de quase o mesmo número de retornados das ex-colónias a partir de 1974/75, o que deu para que se apagasse um pouco o fenómeno da década anterior.


O novo regime prometia (e cumpriu) a democratização, o fim da Guerra Colonial, a modernização do país e o desenvolvimento. Então, como se explica que a sangria tivesse continuado no interior, como nos mostraram os números publicados na parte I desta crónica?


A meu ver, o caso é complexo, mas tem um explicação. São inegáveis os esforços hercúleos que a 3ª República desenvolveu, no sentido de dotar o interior de um sem número de apetrechos que nunca tivera (e que outras partes do país já tinham). Chegou a água canalizada e própria para consumo à casa das pessoas; chegou a luz também; o saneamento básico; os liceus para que houvesse iguais oportunidades educativas; pavimentou-se e iluminou-se as ruas; melhorou-se as estradas e as vias de comunicação; enfim, um enormidade de esforços foram desenvolvidos para resgatar o interior da idade das trevas e transportá-lo, em consonância com o resto do país, para a modernidade.


Contudo estes foram esforços desenvolvidos, em grande medida, pelo poder local. O Estado Central delegou desde logo no poder local (e bem, pois será ao nível local que se conhece a realidade dos territórios e os obstáculos que as populações enfrentam) a tarefa de trazer o século XX a todo o país, mas no processo perdeu o contacto com o país real, com o país profundo. E essa perda de contacto foi determinante para a continuação do problema que nos tem levado a escrever estes panfletos: a desertificação irreversível do interior (exploraremos o papel do Estado Central na desertificação numa crónica ulterior).


Ora, como dizia, as autarquias locais usaram de todas as armas à sua disposição para procurar arrancar o interior das redes do isolamento medievo e trazê-lo para a contemporânea era. O esforço foi salutar, pois, para além de todas as mais-valias que trouxeram numa primeira fase (e que já descrevemos acima), veio ainda uma segunda geração de esforços (reforçada depois com os dinheiros comunitários), com vista a dotar o interior de equipamentos extra, que aumentassem a qualidade de vida das suas populações. Vieram centros culturais e respectiva oferta cultural e lúdica; piscinas e respectivas aulas de natação; associações culturais, recreativas e desportivas e consequentes equipamentos de desporto e lazer nas várias aldeias; redes municipalizadas de transportes públicos com especial atenção ao transporte de alunos; nalguns casos, até se trouxe algum género de instituto de ensino superior; construíram-se mercados municipais; estádios municipais; pavilhões municipais; praias fluviais; organizaram-se feiras-mostra, festivais gastronómicos, folclóricos, musicais, entre outros que tais para todos os concelhos; o esforço de fixação de população passou também pela concessão de subsídios vários de natalidade, de apoios ao arrendamento jovem, ou até, num caso mais extremo (em Vila de Rei, distrito de Castelo Branco), pela fixação de jovens casais vindos directamente do Brasil para 'colonizar' o território! Resumindo, as Câmaras Municipais desenvolveram um sem fim de tentativas de dinamizar os concelhos do interior, na esperança de fixar e atrair população.


E esses esforços dotaram as povoações de equipamentos e providenciaram às populações serviços que na esmagadora maioria dos concelhos do litoral são inexistentes. Por exemplo, em muitos dos concelhos do litoral são inauditos equipamentos públicos como piscinas ou polidesportivos municipais, bem como são inexistentes os transportes escolares gratuitos, ou ainda ausentes toda a panóplia de actividades culturais e lúdicas que os centros culturais municipais e as associações culturais subvencionadas proporcionam no interior. O que se quer dizer é que, em muitos casos, os esforços de modernizar,  de conferir equipamentos  e de  proporcionar serviços, que os municípios do interior foram fazendo, superaram, em muito, os esforços homólogos que os municípios do litoral fizeram. E mesmo assim, o problema persistiu e persiste ainda. Porquê?


Porque não se logrou a gerar empregos. Simplesmente isso.  As pessoas vão viver para onde têm trabalho e as oportunidades de emprego têm sempre escasseado no interior. E não por falta de empenho das Câmara Municipais, neste campo também, quer proporcionando por elas próprias empregos (mas não podendo, obviamente, empregar toda a gente), quer pelas tentativas de atracção de empresas e negócios para os concelhos, através da redução de impostos locais e do preço de outros custos de produção (água, luz, etc.) e da concessão  de subsídios vários. Também neste aspecto as edilidades tentaram, infelizmente de forma vã, contrariar as tendências de desertificação.


Nem tudo foi, obviamente, feito de modo adequado. Não é meu intuito vir aqui cantar loas  às Câmaras Municipais, arguindo que tudo o que fizeram foi perfeito. Não será esse o caso. Cometeram-se erros, seguramente. Excessos, certamente. Houve manifestações pontuais de megalomania. Não raro, gastou-se o que se não tinha. Tudo isso será, naturalmente, verdade.


Mas o que se pretende realçar é o seguinte facto: foram as câmaras municipais que lideraram este combate tão ingrato contra esse temível inimigo, qual monstro da mitologia grega clássica ou dragão dos contos medievais, que é a desertificação humana do interior e que tem, ao longo dos decénios, com assinalável sofreguidão, ganho tantas batalhas e causado tantas baixas. E quando falo de baixas, afirmo-o no sentido literal: cada uma das 92,000 pessoas que o distrito de Bragança perdeu nos últimos 50 anos (remete-se para o quadro apresentado na primeira destas crónicas), são verdadeiras baixas e cada uma dessas pessoas representa uma batalha perdida contra este adversário. São gente que partiu e que não volta. São testemunhas, na primeira pessoa, do drama que temos vindo a retratar. São, no fim de contas, fatalidades clamadas pela desertificação. 

 

Edifício da Câmara Municpal e do Tribunal Judicial de Vila Flor. Fotografia retirada de arquivo próprio.

 

 

 

(Esta crónica tem novo capítulo a publicar futuramente.)



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Domingo, 1 de Dezembro de 2013

VASCO PIRES DE SÃO PAYO

UM GRANDE FIDALGO DE VILA FLOR

 

Por: Jofre de Lima Monteiro Alves

 

    Vasco Pires de São Payo, filho de Pedro do Souto ou Pedro Anes do Souto e de D. Francisca Pais de São Payo, nasceu em 1340.

 

Árvore de Costados de Vasco Pires de São Payo

Próprio

Pais

Avós

Vasco Pires de São Payo

 

N. 1340

F. 1403

Pedro Anes do Souto

 

N. 1300

João Pires Alcoforado

 

N. 1270

 

D. Francisca Pais de São Payo

 

N. 1320

Paio Martins de São Payo

N. 1290

 

 

    Foi vassalo d'El-Rei e «homem muito honrado», o qual «serviu bem» aos reis Dom Fernando I e Dom João I; fidalgo; 4.º Senhor da Honra de Sampaio, em sucessão de sua mãe; 2.º Senhor do lugar de Fiolhal, em sucessão de seu pai; Senhor dos Foros da Terra de Bragança; Senhor da Quintela de Lampaças (14 de Junho de 1381); Senhor de Frechas; carta régia de mercê da doação dos bens móveis e de raiz de João Lombardo, de Vila Flor, e Gonçalo Esteves, de Marialva, que estavam refugiados em Castela (9 de Abril de 1382); mercê dos privilégios aos moradores da sua aldeia de Alagoa, no termo de Alfândega da Fé, «a qual era herma» para que os mesmos fossem isentos do pagamento de  fintas e talhas, rendas, obras públicas e outros encargos pertencentes ao concelho de Alfândega (6 de Abril de 1383); Senhor da Terra e do Julgado de Chacim (18 de Julho de 1383); Senhor da Terra de Vale da Sancha (18 de Julho de 1383); partidário de Dom João, Mestre de Avis, durante a Crise Dinástica (1383 – 1385); mercê de todos os bens móveis e de raiz que João Nunes de Aguilar e seu irmão Pero Nunes de Aguilar tinham em Vila Flor, por andarem refugiados em Castela (1383); participou «no cerco de Chaves por el-Rei D. João 1.º de Portugal, quando a vila estava por Castela» (1384); vencedor da «batalha campal no lugar de Val de Vioza meya legoa» de Ansiães, contra os castelhanos e João Rodrigues de Portocarreiro (1384); Senhor de Parada de Pinhão (2 de Maio de 1384); Dom João, Mestre de Avis, doou a Vasco Pires de São Payo todas as vilas, lugares e terras que João Rodrigues de Portocarreiro tinha recebido do rei Dom Fernando I em Ansiães, Vilarinho da Castanheira, Vila Flor, Torre de Moncorvo e Mós (2 de Maio de 1384); carta de mercê dos bens móveis e de raiz que o judeu Abrafan Rico tinha em Vila Flor e seu termo, por este ter ido em «deseruiço» para Castela (6 de Maio de 1384); 1.º Senhor de Vila Flor, de juro e herdade, para sempre, para si e seus sucessores (7 de Maio de 1384); mercê de todos os foros, direitos, rendas e portagens das vilas, lugares «acastellados» e termos de Ansiães, de Torre de Moncorvo, de Vilarinho da Castanheira, de Vila Flor e de Mós, de «juro e herdado», para sempre, por carta de mercê de Dom João, Mestre de Avis (7 de Maio de 1384); Senhor de Vilarinho da Castanheira, de Vale de Torno, de Carvalho de Egas, de Seixo de Manhoses, de Mourão e de Alagoa (7 de Maio de 1384); 1.º Senhor de Vilas Boas e seu termo, que «he terra chaã» e sem castelo, com o privilégio de poder vender, dar, doar ou fazer escambo (7 de Maio 1384); Senhor de Mirandela (1384); Senhor de Alfândega da Fé (1384); Senhor de Torre de Moncorvo (1384); Senhor de Carrazeda de Ansiães (1384); Senhor de Mós (1384); carta régia de confirmação da doação que lhe fez Rui Pereira, «per o poder que de nos avia», de «juro e herdado» dos lugares de Mirandela e Alfândega da Fé (15 de Abril de 1385); 1.º fronteiro da vila de Torre de Moncorvo, de Vila Flor e da vila de Ansiães; mercê de todos os bens móveis e de raiz que Fernão Gonçalves Reboredo perdeu por andar em Castela ao serviço de inimigos do Reino de Portugal (23 de Setembro de 1387); mercê das coudelarias de Anciães, Vila Flor, Torre de Moncorvo, Lamas, Mós, Vilarinho da Castanheira, Vilas Boas e de outros lugares, bem como a faculdade de poder nomear coudéis nas suas terras, por carta de Dom João I, datada de Évora (13 de Janeiro de 1397); carta de autorização para Vasco Pires de São Payo dividir a sua grande casa pelos dois filhos mais velhos, por mercê do Rei Dom João I (31 de Agosto de 1398).

Faleceu em 1403.

Casaria com D. Maria Pereira, filha do marechal D. Álvaro Pereira e de D. Mécia Vasques Pimentel, enquanto outros asseguram que casou com D. Isabel de Gouveia, filha de Vasco Fernandes de Gouveia, o que é menos credível, mas qualquer dos casamentos atribuídos são meras fantasias. Filhos:

1 – FERNÃO VAZ DE SÃO PAYO, 5.º Senhor da Honra de Sampaio; 2.º Senhor de Vila Flor; com geração.

2 – LOPO VAZ DE SÃO PAYO, 2.º Senhor de Ansiães; 2.º Senhor de Vilarinho da Castanheira; 3.º Senhor de Fiolhal; com geração.

3 – D. MÉCIA VAZ DE SÃO PAYO, casada com Martim Fernandes de Freitas, anadel-mor de besteiros.

4 – AMADIS VASQUES DE SÃO PAYO, foi cavaleiro da Casa Real (1437); despenseiro d’El-Rei D. Duarte; juiz e dizimeiro da Alfândega de Lisboa (20 de Abril de 1439); mercê da tença de 7000 reais brancos, «consijrando os mujtos e boos seruiços» (3 de Abril de 1451); com geração.

Casa do Paço ou Solar dos Condes de São Payo, em Vila Flor, edificada no século XVII. 

Publicado por Jofre de Lima Monteiro Alves às 01:01

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Sábado, 23 de Novembro de 2013

Crónica de uma morte anunciada III

Tendo preteritamente atentado aos números impressionantes da desertificação do distrito brigantino, nos últimos 50 anos e tendo, igualmente, feito um intróito sobre os fluxos migratórios que antecederam esse período, é chegada a hora de reflectirmos um pouco sobre as causas concretas, que retiraram aos nossos concelhos do  interior tantos milhares de habitantes, em tão curto intervalo temporal.

 

E nesse aspecto, todos nós, de um modo ou de outro, estamos cientes das razões que levaram a este êxodo. E quanto a mim,  tudo se reconduz a uma causa maior, o desinvestimento a que o Estado Central votou o interior, que, associado a um motivo circunstancial dos anos 60 (a Guerra no Ultramar), conduziram a este cenário dantesco, onde concelhos perdem quase 70% da sua população em 50 anos.

 

O desinvestimento e desinteresse que tem caracterizado, em grande medida, a relação entre o Estado Central e o interior do país, não é, em parte, novidade.  Creio até, que a primeira grande machadada no interior foi operada pelos liberais triunfantes em 1833/34, que trataram de efectuar uma "reforma" (tremei perante esta palavra) administrativa, em  1836, que, para além de suprimir os forais que desde sempre tinham governados as populações, resultou também na supressão de 351 dos 826 concelhos existentes. Até ao fim do século XIX, outras supressões de municípios se seguiram (com algumas reversões, após largos e sangrentos protestos por parte da população) e o número de concelhos fixou-se em 291 em 1911, cifra que nos cem anos seguintes aumentou para os 308 actuais. Por exemplo, só no território actual concelho de Vila Flor, existiam antes das sucessivas reformas liberais, quatro municípios: Vila Flor, Freixiel, Vilarinho da Castanheira e Vilas Boas.

 

Contudo, esta reforma, se bem que por um lado causou o desaparecimento de povoados inteiros (vide o emblemático caso de Monforte do Rio Livre, no actual concelho de Chaves, onde a supressão do concelho resultou no desaparecimento total  da povoação, até ao final desse mesmo século!), por outro lado foi acompanhada por um investimento assinalável de infraestruturas. E quando digo assinalável, não me refiro apenas ao investimento em si, refiro-me ao facto de ter incluído o interior, tanto como o litoral. O fontismo  pôs em marcha um projecto de modernização do país e, desta vez pelo menos, o interior não foi excepção. Chegaram as primeiras estradas, vias férreas, modernas pontes, telégrafos e demais vias de comunicação, bem como as primeiras escolas e assistiu-se a uma rápida e progressiva evolução das vilas sedes de concelho (que restaram após as supressões).

 

Podemos considerar que este período, com avanços e recuos, foi-se prolongando até aos anos 30/40. Efectivamente, a jovem república assumiu a educação como a sua "paixão" (onde é que já se ouviu isto?) e continuou o investimento em escolas; do mesmo modo, os primórdios do Estado Novo ficaram marcados ainda por extensas obras públicas (que depois eram apresentadas na Lição de Salazar).

 

Consequentemente, até aos anos 50, e pese embora as migrações que abordámos  na crónica anterior, a população foi aumentado, tanto a nível global, como ao nível local. Isto é, todos os concelhos, de um modo geral, viam a sua população crescer a cada censo que passava e, por conseguinte, aumentava também a população global do país. Isto até aos anos 50.

 

Mas a partir dos anos 60 o cenário mudou. O catalisador, terá sido, sem dúvida a Guerra Colonial, mas havia outros motivos subjacentes. Aos nossos olhos modernos e, sobretudo, aos dos que já não vivenciaram em primeira mão, será um pouco difícil imaginar a miséria geral que caracterizava o interior, nos anos 60, principalmente se falarmos das aldeias (pois, de algum modo, as vilas já detinham alguns dos confortos da vida moderna).

 

Mas nas aldeias do Portugal profundo, o panorama era, no mínimo medieval. Sim, vivia-se ainda como viveram os nossos antepassados na Idade média. De uma maneira geral, não havia água, nem luz, nem saneamentos; muitas das ruas não eram pavimentadas; algumas aldeias estavam ainda isoladas, sem qualquer estrada de acesso; as casas toscas, para além de deixarem entrar o frio e a chuva invernais pelos seus incontáveis buracos, não dispunham de qualquer equipamento, que hoje nos parecerá básico, nem, em muitos casos, havia sequer camas para todos os ocupantes (ouvi já relatos de quem tinha que dormir com o gado e só dormiu numa cama quando foi para a tropa...); as pessoas, mal vestidas e mal nutridas, não tinham acesso a cuidados de saúde; nem de higiene; nem de educação; nem de lazer; nem de coisa nenhuma; a economia era de subsistência, obrigando a labutar de sol a sol, para pouco colher; a pobreza grassava; a miséria gritava; a taxa de mortalidade infantil era das maiores do Velho Continente. Reitere-se: era a Idade Média em pleno século XX.

 

Estava, assim, criada toda uma legião de pessoas que nada tinha e que sabia que pouco podia ter. Quando rebenta a Guerra Colonial, muitos optam por partir. Preferível arriscar tudo na esperança de ir para uma vida melhor, num país onde a Idade Média já tivesse acabado, do que arriscar a vida na guerra. E foram, a salto, contrabandeados como gado por rotas clandestinas, por essas Espanha fora, sempre vivenciando o risco de serem apanhados pela Guardia Civil e devolvidos à casa de partida (tendo aí de lidar com a PIDE) ou de serem enganados pelos passadores e abandonados no meio do nada. E foram; e um chamou o outro; e mais outro; e veio a mulher (para se fazer mais dinheiro em menos tempo, para mais rápido se regressar); e veio o filho (para poder ter oportunidades que não teria na terra natal); e, quando se deu por ela, tinha ido quase toda a gente; foi como um fósforo ardente, que num instante consumiu povoações quase inteiras, e que não mais as devolveu.

 

(Esta crónica tem continuação)

 



Monumento ao emigrante, na Póvoa do Varzim, representando de forma crua e verdadeira a emigração dos anos 60, o salto.

(Fotografia de Pedro Magalhães, retirada de: http://www.panoramio.com/photo/31706998 )

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Publicado por Ilídio Monteiro Alves às 10:13

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Sábado, 16 de Novembro de 2013

Crónica de uma morte anunciada II

A primeira parte desta crónica serviu para tomarmos contacto com uma realidade aflitiva, que vai,  de ano em ano, flagelando cada vez mais o distrito de Bragança, bem como todo o interior deste país: a desertificação humana. Fizemo-lo, através da confrontação dos dados relativos ao número de habitantes dos concelhos do distrito brigantino, entre 1960 e 2011 - cinco décadas, portanto.


A conclusão necessariamente retirada da análise da flutuação populacional nesse período, é só uma: o interior está a morrer e a desertificação é hoje o maior dos problemas  que assola esta metade do país. Tomado contacto com o problema, urge a necessidade de se tecerem algumas considerações sobres as eventuais causas que levaram, e continuam a levar, a que chegássemos a este ponto sórdido.  Mas antes disso será importante trilhar um pequeno percurso pelos antecedentes históricos ocorridos no campo das migrações, antes do período de cinco décadas sob análise.


É que numa acepção minimalista, dir-se-ia, tão-somente, que a causa da desertificação são as migrações. E tal afirmação, não poderia deixar de estar, formalmente, correcta, pelo que faz sentido demorarmo-nos aqui um pouco. De facto, nos últimos 50 (quase 60) anos, assistiu-se a um fenómeno de migração maciça tanto para o estrangeiro (França, Brasil, Suíça, Alemanha e Luxemburgo são alguns dos principais destinos desse fluxo migratório), como para os centros urbanos do Litoral (Lisboa e Porto, essencialmente). A este mega fenómeno, há que ainda somar outro de menor dimensão que leva as pessoas das aldeias a mudarem-se para as vilas sede de concelho. De igual modo, as cidades capitais de distrito recebem habitantes dos outros concelhos do seu distrito.


Como vemos, estabeleceram-se várias rotas migratórias possíveis, que vão desde a mera deslocação para a sede de concelho, até à fuga para os países mais longínquos imagináveis. Ora, e como não há um fluxo migratório inverso (pelo menos em numero assinalável) nem uma taxa da natalidade razoável (em 2011 cifava-mos nos 1.35 filhos por mulher, sendo mesmo a mais baixa da UE, segundo dados do INE) não tem sido possível repor os níveis populacionais no interior. Mas desenvolver-se-á este ponto noutra altura.


Por agora, e divagando um pouco pelas rotas da história, há que referir que a emigração não é fenómeno novo em  Portugal e que, desde que destas coisa há memória, sempre temos sido um país de forte emigração. Logo que nos lançámos na expansão marítima no século XV, assistimos imediatamente ao estabelecimento de fluxos migratórios - de diminuta escala, é certo, mas existente -  para as várias colónias e feitorias que possuíamos no norte de Africa,  costa africana, ilhas atlânticas, subcontinente indiano, extremo oriente , sudoeste asiático e américa austral. Este fluxo populacional tinha causas administrativas, digamos assim. Isto é, seria impulsionado por uma necessidade de administrar militar, civil e religiosamente os novos territórios, que seguia paralela à necessidade de manter feitorias mercantis nesses pontos. Seria, portanto, uma emigração povoada por gente que saía do país quase em comissão de serviço ao reino, esperando cumprir uns anos nessas paragens, para depois  voltar à terra pátria (vendo bem as coisas, não será com essa mesma vontade que saem todos os emigrantes?...)


Posteriormente, o ouro do Brasil levou muitos a atravessar o Atlântico e tentar a sorte por terras de Vera Cruz nos inícios do século XVIII, o que configurou, talvez, o primeiro grande êxodo da nossa história.  Mais tarde, a partir da segunda metade do século XIX, assistiu-se a um novo fluxo emigratório, novamente com o Brasil como destino, que se manteve muito constante durante as décadas seguintes e seria mesmo alargado, em menor escala, aos Estados Unidos.  Portanto, mesmo antes destes últimos 50 anos, a emigração  já era um facto de natural ocorrência entre nós.


Outro fluxo populacional que importa referir, a migração interna para os centros urbanos do litoral, começou no século XIX com o surgimento dos primeiros polos industriais e foi sempre aumentando de intensidade até se tornar maciça nos anos 50 do século XX, altura em que as cidades de Lisboa e Porto (e os seus arrabaldes) cresceram exponencialmente. E foi precisamente este o tiro de partida para a catástrofe que começou na década seguinte e que nos trouxe, longo de cinquenta anos, ao ponto em que estamos hoje.


 

 

Emigrantes Portugueses no Terreiro do Paço, à espera de embarcar rumo a outras paragens, nos finais do século XIX.

Fotografia retirada de http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Imigrantes_portugueses.jpg




(Esta crónica tem continuação)

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Publicado por Ilídio Monteiro Alves às 10:10

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