Quarta-feira, 16 de Maio de 2012
CANTIGAS POPULARES DE TRÁS-OS-MONTES XXVII

QUADRAS SOLTAS SOBRE A AZEITONA

 

Terceira Parte

 

A azeitona querdobil,

Quem a comer, morrerá;

Quem fala do meu amor

Pouca vergonha terá!

 

A azeitona miudinha

Também entre no lagar;

O amor que não é firme

De tudo se bai gabar.

 

Assubi-me à olibeira

Duma galha fiz encosto;

Num se me dá ter fama

Com pessoas do meu gosto.

 

Olibeirinha do adro

Dá-lhe o bento, rebolteia;

Tu és a minha prisão

E eu sou a tua cadeia.

 

Azeitona cordobesa

Daquela que anda no pio;

Em me indo desta terra

Quem sustentará teu brio?

 

Olibeira, ponta seca,

Debaixo d’auga se acende;

Num sei que amor é o teu

Que tão longe me prende.



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Terça-feira, 8 de Maio de 2012
A PASCOELA NA ALDEIA

Por: Maria de Fátima Amaral

 

    Há muito, mas mesmo há muito tempo que não passava esta época na aldeia. Este ano o Domingo de Pascoela recordou-me o encanto de outros tempos, em que ainda menina, era uma das épocas que aguardava com mais ansiedade, pois coincidia com férias, Páscoa, roupa nova, alguma prenda – porventura pouco esperada e que era um encanto –, folares e o início do tempo quente. Saiamos da invernia que nos confinava ao lar e nos tolhia as brincadeiras.

 

 

   Pois este ano estive na aldeia, na Pascoela. Foi dia de visita pascal após a missa, mas sem a presença do senhor padre, que teve de ir para outra freguesia. Os acólitos bem treinados, transportaram a cruz de casa em casa, levando a boa nova de Jesus Ressuscitado, honrando o beijar da cruz e concedendo a solenidade que o acto merece.

 

   

    Pese embora o grupo ser constituído por gente muito jovem, o desempenho de tal tarefa foi executado na perfeição, não havendo lugar a comentários, motivo pelo qual deixo aqui os meus parabéns. Estava um frio cortante, que gelava até aos ossos e estre grupo deixou para trás outros divertimentos e passaram a tarde a percorrer todas as casas da aldeia, em muitas das quais passando apenas à porta, pois a maioria se encontram desabitadas nesta quadra do ano.

 

 

    Houve ainda outro acontecimento deveras importante, que foi a VI Rota da Liberdade, organizada a 15 de Abril de 2012 pelo Clube de Ciclismo de Vila Flor e que teve participantes de vários clubes de ciclismo de outros pontos do País e contou com 73 participantes em BTT e o percurso decorreu em algumas freguesias do concelho: Seixo de Manhoses, Vale de Torno, Candoso, Carvalho de Egas, Samões e Barragem do Peneireiro.

 

   

    Um dos postos de controlo situava-se em Carvalho de Egas, à entrada da Rua da Igreja, onde se cruza com a Estrada Nacional. Devido ao frio que se fazia sentir e à hora da missa, o grupo ficou quase isento de aplausos, parecia que atravessavam uma aldeia desabitada.

 

 

    De quando em vez, eu lá saia de casa para captar uns instantes fotográficos, porque não dava para ficar na rua à espera, porque o frio cortante quase me levava as orelhas. Parabéns a todos os participantes, porém gostei de ver um elemento feminino que segundo apurei é exímia nesta modalidade e assídua frequentadora.



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Terça-feira, 1 de Maio de 2012
Heráldica de Vila Flor XXXVI – Casa do Capitão-Mor

Localização:

Largo do Rossio, vila e freguesia de Vila Flor.

 

Material:

Todo o conjunto é de pedra.

 

Época:

Meados do século XVIII.

 

Classificação:

Heráldica de família.

 

Escudo:

De fantasia, assente em cartela de inspiração rocaille, com motivos concheados, floral e fitomórficos, sem correias, elmo, paquife, virol ou timbre. O conjunto encimado por um coronel de nobreza.

 

Composição:

Partido, com o II cortado.

 

Leitura Heráldica:

I – Torre torreada com porta e frestas, firmada num pé de água em campanha, grimpada com uma bandeira triangular no remate em coruchéu, hasteada à sinistra.

II cortado:

1.º uma árvore arrancada.

2.º seis arruelas alinhadas em duas palas de três.

 

Identificação Heráldica:

I – Campo de vermelho, com uma torre torreada, aberta e iluminada de negro, rematada por uma bandeira de prata, assente sobre um rio de prata, aguado de azul.

II – 1.º, campo de prata, com uma amoreira arrancada de verde. A conjugação destas duas partes (a torre e a amoreira) formam as armas da família Morais (modernas).

2.º, campo de prata, com seis arruelas de azul, alinhadas em duas palas de três e três (Castro).

 

Comentário:

Esta pedra foi mandada esculpir pelos Senhores da Casa do Capitão-Mor, denotando o trabalho escultórico do lapicida alguma ingenuidade na representação das armas da família Morais, cujo valor artístico e estado de conservação constituem um património inestimável de Vila Flor, apesar de ter dois erros por deficiência do desenho ou da gravação.

 

As armas da família Morais deveriam ter sido brasonadas da seguinte forma:

Partido, o 1.º de vermelho, com uma torre alta de prata, aberta, iluminada e lavrada de negro, coberta de ouro e rematada por uma bandeira de prata, assente sobre um rio de prata, aguado de azul, em contrachefe; o 2.º de prata, com uma amoreira arrancada de verde.

 

A linha que divide o 2.º campo horizontalmente está um pouco descaída, contudo os elementos decorativos exteriores do escudo apresentam uma elegância e qualidade a realçar.

 

Fotografia de Jofre de Lima Monteiro Alves, datada de Agosto de 2010.


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Domingo, 22 de Abril de 2012
Património de Vila Flor: Capela de Alagoa

   Capela do Espírito Santo de Alagoa, situada na aldeia de Alagoa, em Valtorno, freguesia do concelho de Vila Flor. Trata-se dum monumento do século XVII, que no entanto foi mudado para o local onde presentemente se encontra em 1757, conforme a data ali gravada, e reconstruido ao estilo barroco rural, com frontispício singelo, cuja fachada de um pano vertical é rasgada por uma porta rectangular ornada por um dintel com voluta onde se abriga o Divino Espírito Santo.

           

    Remata a fachada um campanário com uma ventana sineira na cúspide, enquadrado por dois pináculos nos ângulos do templo, e uma cruz simples no vértice. No interior o destaque vai para um altar do século XVII.

Capela do Espírito Santo de Alagoa, situada na aldeia de Alagoa, em Valtorno, freguesia do concelho de Vila Flor.



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Domingo, 15 de Abril de 2012
CANTIGAS POPULARES DE TRÁS-OS-MONTES XXVI

QUADRAS SOLTAS SOBRE A AZEITONA

 

Segunda Parte

 

Oliveira tens pé d’ouro,

A rama tens-la de prata;

Tomar de amores não custa

Deixa-los é que mata.

 

Azeitona já é loira

Cedo será de três cores;

Também tu, minha menina,

Tão nova tomastes amores.

 

Ó oliveira do adro

Carregada de azeitão;

As mulheres pesam-se a oiro

E os homens a carvão.

 

Não corteis a oliveira

Nem lhe ponhais o machado;

Que alumia toda a noite

A Jesus Crucificado.

 

Ó oliveira da serra

Bota-me p’ra cá um ramo;

Que o meu amor é raivoso

Dura-lhe a raiva um ano!

 

Oliveira verdeal

Em terra fria não medra;

É como a moça solteira

Casada fora da terra.

 

Vista parcial das oliveiras do Caminho de Santa Cruz e a Fonte dos Engegados na freguesia de Nabo, aldeia do concelho de Vila Flor, em Outubro de 2008. Fotografia de Jofre de Lima Monteiro Alves.



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Sábado, 7 de Abril de 2012
LEMBRANÇAS DA PÁSCOA

 

Por: Maria de Fátima Amaral

 

    Os sinos repicavam no sábado de Aleluia e davam por encerrada a Quaresma. A Semana Santa tinha acabado e a azáfama de fazer os folares também. Pelo meio tinham ficado as horas passadas no forno em tão laboriosa confecção.

 

    Primeiro amassam-se os doces e põem-se a levedar e enquanto estes dormem, e dormem muito, trata-se de amassar os de carne, levedam, recheiam-se com a carne e voltam a levedar, acende-se o forno e cozem-se enquanto os doces continuam a dormir. Depois de cozidos os folares de carne e tirados do forno, aquece-se novamente o forno e cozem-se os doces.

 

    Aproveita-se ainda para meter uma assadeira com batatinhas temperadas e um galo ou um coelho que servirá de repasto para toda a família. Havia ainda que preparar as casas. Abriam-se as portas, esfregavam-se os soalhos, varriam-se os caminhos, enfeitavam-se as ruas e canelhas e as entradas das casas com verduras e flores campestres, tiravam-se da arca as toalhas de linho bordadas, ou em renda esculpidas, enfeitavam-se as mesas, enchiam-se as jarras com as mais lindas flores da época, tais como junquilhos e lilases, que impregnavam a sala com o seu perfume forte.

 

    Colocava-se o folar na mesa, a lamparina de azeite e a salva de prata com um sobrescrito com dinheiro destinado ao folar do senhor padre. Também se punham uns docinhos secos, cálices e vinho fino para quem quisesse festejar ali a Páscoa.

 

    Tudo ficava a luzir, era uma das épocas mais importantes do ano, todos aguardavam a visita pascal, que era precedida pelo badalar frenético da sineta, que uns dos rapazes de opa vestida fazia tlintar mesmo à porta de cada casa a visitar. Era o momento para acender a lamparina de azeite e todos se juntarem à volta da mesa à espera de beijar a cruz.

 

    Após a bênção do lar, que o senhor padre fazia ao mesmo tempo que aspergia água benta, desejava bom ano para todos os da família presentes e ausentes, inclusive os que andavam na Guerra do Ultramar, despediam-se e o compasso pascal avançava para outra visita, não sem antes serem depositadas umas moedinhas na caldeirinha da água benta, que o rapazio repartia entre si.

 

    Após o almoço, que lá para as minhas bandas era apelidado de jantar, e que em dia de nomeada – o dia de nomeada era o dia de festejo – era sempre composto de acepipes que escasseavam no resto do ano, a tarde era preenchida com brincadeiras intensas e gozavam de certa liberdade, que estavam proibidas durante a Quaresma, pois tudo era pecado, até jogar a bilharda era pecado, coisa que eu não percebia, pois se os santos estavam de cara tapada como é que nos viam a brincar e ofender Jesus?

 

    Ainda havia a visita à casa dos padrinhos, não fossem eles esquecerem-se de dar o folar aos afilhados, o que para muitos eram das poucas prendas que lhes caiam nas mãos. À noite todos dormiam tranquilos e felizes, só já faltava mais uma semana de férias escolares e os deveres que a professora havia marcado para quinze dias eram gatafunhados à pressa, em parcos cinco ou seis dias e ainda havia a obrigação de ajudar os pais nas lides da casa e trabalhos agrícolas, que por esta altura ainda havia vinhas para esgaivar batatas para semear, pois dizia a minha avó:

 

Serviço de menino é pouco, mas quem o perde é louco!

 

    Uma boa Páscoa para todos.

Imagens da confecção dos folares da Páscoa, em Abril de 2009, em Carvalho de Egas, aldeia do concelho de Vila Flor. Fotografias de Maria de Fátima Amaral.



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Domingo, 1 de Abril de 2012
Heráldica de Vila Flor XXXV – SELO DA FREGUESIA DE SANTA COMBA DE VILARIÇA

    Selo circular nos termos da Lei, tendo ao centro as peças das armas sem indicação dos esmaltes; em volta, dentro de círculos concêntricos, a legenda JUNTA DE FREGUESIA DE SANTA COMBA DE VILARIÇA – VILA FLOR, aprovado por parecer emitido a 19 de Julho de 2006

 


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Sexta-feira, 23 de Março de 2012
CANTIGAS POPULARES DE TRÁS-OS-MONTES XXV

QUADRAS SOLTAS SOBRE A AZEITONA

 

Apanhai apanhadeiras,

Varejai varejadores;

Quanta azeitona de se perde

No olival dos amores!

 

Varejai varejadores,

Apanhai apanhadeiras;

Apanhai pérolas d’ouro

Que caem das oliveiras.

 

Ao varejar a oliveira

Magoei uma azeitona;

Inda por cá apareces

Cara de pouca vergonha!

 

A oliveira se queixa,

Se se queixa é com razão;

Que lhe apanham a azeitona

Deitando-lha rama ao chão!

 

À sombra da oliveira

É um regalo amar;

Tem a folha miudinha

Não entra lá o luar.

 

Azeitona miudinha

Apanhada uma a uma;

Estes rapazes de agora

Não têm vergonha nenhuma.

Oliveiras no Caminho dos Godeiros, na aldeia do Nabo, freguesia do concelho de Vila Flor. Fotografia de Jofre de Lima Monteiro Alves.


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Quinta-feira, 15 de Março de 2012
Largo do Rossio

    Tradição e modernidade no Largo do Rossio, na vila e freguesia de Vila Flor, em Julho de 2010. Fotografia de Jofre de Lima Monteiro Alves.



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Quinta-feira, 16 de Fevereiro de 2012
Património de Vila Flor: Capela da Esperança, em Benlhevai

Capela de Nossa Senhora da Esperança, em Benlhevai, freguesia do concelho de Vila Flor, já devidamente restaurada de maneira a merecer o maior aplauso e elogio. Agradecimento a Sérgio de Sousa, administrador do sítio www.benlhevai.net



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Quarta-feira, 8 de Fevereiro de 2012
A MONARQUIA DO NORTE

Por: Jofre de Lima Monteiro Alves

 

    A 14 de Dezembro de 1918 o major dr. Sidónio Bernardino Cardoso da Silva Pais, Presidente da República Portuguesa, foi assassinado a tiro, ao badalar da meia-noite. A partir daqui tudo se complicou e precipitou, quase às claras. A 13 de Janeiro de 1919 estoura em Santarém uma rebelião militar republicana, prontamente esmagada pelo general Fernando Tamagnini de Abreu e Silva e pelo Ministro da Guerra, tenente-coronel José Alberto da Silva Basto. O poviléu, atrito e gemebundo, assistia a tudo de olho esbugalhado fora da órbita.

 

    Logo de seguida, num domingo radioso de sol, eclodiu a revolta monárquica na cidade do Porto, «agora ou nunca». Durante a parada militar do Monte Pedral, com contingentes de Infantaria, Cavalaria, Artilharia, Metralhadoras e da Guarda Nacional Republicana, às 13 horas do dia 19 de Janeiro de 1919, foi desfraldada a bandeira azul e branca, por entre vivas a Portugal, à Monarquia, ao Exército e a El-Rei Dom Manuel II, tudo sem disparar um único tiro.

 

    Secundada por outros movimentos sediciosos, rapidamente levaram à proclamação da Restauração da Monarquia e a instauração da Junta Governativa do Reino de Portugal sob a presidência de Henrique de Paiva Couceiro, que exerceu, na realidade, o poder nas províncias do Minho, Douro, Trás-os-Montes, parte da Beira Alta e da Beira Litoral até à linha do Vouga.

 

    Formou-se um ministério, o Governo Nacional, com figuras gradas e espírito couraçado com as razões celestes:

Coronel Henrique Mitchell de Paiva Cabral Couceiro como Ministro da Presidência, Negócios da Fazenda e Subsistências;

Capitão de Cavalaria António Adalberto Sollari Allegro, Ministro dos Negócios do Reino;

Dr. Júlio Girão Faria de Morais Sarmento (Visconde do Banho), Ministro dos Negócios Eclesiásticos, Justiça e Instrução;

Coronel João de Almeida, Ministro da Guerra, Marinha e Comunicações;

Conselheiro dr. Luís Cipriano Coelho de Magalhães, Ministro dos Negócios Estrangeiros;

Coronel eng.º Artur da Silva Ramos, Ministro das Obras Públicas, Correios e Telégrafos;

Dr. Pedro de Barbosa Falcão de Azevedo e Bourbon (Conde de Azevedo), Ministro da Agricultura, Comércio, Indústria e Trabalho.

 

    O coronel João de Almeida, comandante militar de Aveiro, nunca chegou a tomar posse e não tardou a desmarcar-se da «restauração monárquica na presente conjuntura». Tal motivo originou a redistribuição das pastas ministeriais.

 

    A Junta Governativa do Reino de Portugal tentou reorganizar a administração do território nomeando governadores civis para diversos distritos, cujas posse decorreram, na maioria dos casos, a 20 de Janeiro:

Tenente-coronel Fernando de Almeida Cardoso de Albuquerque (Conde de Mangualde) para o distrito do Porto;

Major Martinho José Cerqueira para Viana do Castelo;

Major Egas Ferreira Pinto Basto para Aveiro;

Capitão Arnaldo Ribeiro de Andrade Piçarra para Braga;

Tenente-coronel Carlos Leitão Bandeira para Bragança;

Capitão Victor Alberto Ribeiro de Menezes para Coimbra;

António de Sampaio da Cunha Pimentel para Vila Real;

Tenente-coronel Patrício Xavier de Almeida e Brito para Viseu;

Dr. António Maria de Sousa Sardinha para o distrito de Portalegre;

Coronel Firmino Teixeira da Mota Guedes como governador militar de Braga.

 

    Ao mesmo tempo revogou inúmera legislação aprovada pelo fervor republicano desde Outubro de 1910, criou um órgão oficial, restabeleceu os símbolos da Monarquia Constitucional, a bandeira, o hino, a moeda, os selos, os feriados, a Carta Constitucional da Monarquia Portuguesa de 1826 e reintroduziu o Código Administrativo de 1896.

 

    O Diário da Junta Governativa do Reino de Portugal, logo no seu primeiro número publicado a 19 de Janeiro, despachou os decretos que restabeleceram a bandeira com as cores reais, o Hino da Carta e revogou «toda a legislação promulgada desde 5 de Outubro de 1910». Entrementes, prosseguiu o afã legislativo da Junta Governativa do Reino de Portugal, com o estabelecimento do livre-trânsito dos géneros alimentícios e a regulação de preços.

 

    Os oficiais, militares e funcionários que tinham sido saneados após o 5 de Outubro foram readmitidos, promulgou uma amnistia para os exilados políticos. À frente da Divisão Militar do Porto foram mantidos o coronel João Gomes Espírito Santo e o capitão António Maria Homem de Sampaio e Mello. A maioria esmagadora das autarquias do Entre-Douro-e-Minho aceitou o facto consumando sem perturbação da ordem e proclamou a Monarquia, sem haver necessidade de nomear novas vereações. Ainda a 19 de Janeiro a restauração da Monarquia foi solenemente proclamada em Viseu, São Pedro do Sul, Lamego e em Braga.

 

    A 20 de Janeiro de 1919 o dr. José Maria Nogueira, que já era presidente da Câmara Municipal de Paredes de Coura, aclamou a mudança do regime em sessão solene realizada nos Paços do Concelho. Com mais ou menos entusiasmo, e por entre vivas ao Rei e estralejar de fogo-de-artifício, a bandeira azul e branca foi içada em Ponte da Barca, Ponte de Lima, Arcos de Valdevez, Melgaço, Vila Nova de Cerveira, Caminha, Guimarães, Barcelos, Vieira do Minho, Fafe, Póvoa de Lanhoso, Cabeceiras de Basto, Esposende e demais localidades minhotas e transmontanas, reconhecendo ipso facto a mudança de regime.

 

    As únicas excepções registaram-se em Viana do Castelo e Valença do Minho, devido à forte presença de guarnições infectadas pelo credo republicano. Formou-se em Braga uma intrépida coluna militar comandada pelo capitão António de Sá Guimarães Júnior, acompanhado do major Martinho José Cerqueira, governador civil indigitado, e pelo coronel Alfredo Ernesto Dias Branco, comandante militar da cidade do Lima, marchou para o Alto Minho e impôs a instauração da Monarquia em Viana do Castelo, ainda a 20 de Janeiro, e em Valença no dia imediato, sem encontrar, afinal, qualquer resistência ou disparar um cartucho. Contudo, a 22 de Janeiro, as canhoneiras da Marinha republicana bombardearam a cidade de Viana do Castelo e Vila Praia de Âncora, acto intimidatório, para inglês ver.

 

    De seguida a «coluna relâmpago» do capitão Sá Guimarães marchou para o Nordeste e proclamou a restauração da realeza em Vila Real (24 de Janeiro) e em Vidago (30 de Janeiro) e, quando planeava atacar Chaves, retrocedeu primeiro para Mirandela, onde já fora antes restaurada a República, e ali sofreu o primeiro revés, sendo gravemente ferido.

 

    A Coluna Militar Mista do Sul, comandada pelo tenente-coronel de Artilharia João Carlos da Cunha Corte-Real Machado partiu do Porto a 22 de Janeiro e proclamou a Monarquia em Ovar (23 de Janeiro), Estarreja e Albergaria-a-Velha (24 de Janeiro), sendo travada às portas de Águeda, exaurida de reforços, munições, calçado e pitança.

 

    Por isto ou por aquilo, a Monarquia nunca foi instaurada na região Centro do País, o que tornou muito difícil a sua sobrevivência. Somente a 22 de Janeiro de 1919 a rebelião alastrou a Lisboa, com as tropas monárquicas e civis comandados pelo conselheiro Aires de Ornelas e Vasconcelos a acantonarem-se no reduto da serra de Monsanto, donde foram desalojados após violentíssimos combates e gritaria da turba espavorida, que ditaram a derrota monárquica na capital, a 24 de Janeiro. A rebelião no Sul fracassara perante a Escalada de Monsanto, sem rei nem roque.

 

    Para operar na Régua e Lamego foi enviada a coluna monárquica capitaneada pelo major Joaquim César de Araújo Rangel, depois transferido para Trás-os-Montes e ali substituído pelo tenente-coronel Augusto de Sousa Dias, porém, já não era possível sustar o açoite das forças republicanas por muito tempo, a mata-cavalo por trancos e barrancos. A 10 de Fevereiro, apesar do denodo praticado, os republicanos conquistaram Lamego.

 

    A Coluna Mista do Norte, agora liderada pelo major Joaquim Rangel, marchou em direcção a Mirandela, trupe que trupe, depois de receber informações que reforços republicanos iam de rota batida a caminho de Vila Flor, por meio de montes fragosíssimos. A 9 de Fevereiro de 1919 iniciou-se o feroz combate pela travessia do rio Tua e tomada de Mirandela, nove horas a ferro e fogo e terminou num feroz assalto corpo a corpo nas vielas da localidade, ao cair da noitinha. Com pesadas baixas de ambos os lados, a bandeira real foi ali novamente hasteada. No dia seguinte a Monarquia foi proclamada em Vila Flor.

 

    Vitoriosos em Lisboa, os republicanos e o Governo da República apertaram o cerco, mobilizando voluntários civis e colunas militares comandadas pelos generais Abel Hipólito e Alberto Mimoso da Costa Ilharco em marcha forçada com destino ao Norte do País. Depois de fugazes escaramuças e recontros, em especial em Águeda e em Angeja, a breve Guerra Civil iria terminar com a derrota da hoste monárquica, com numerosos actos de valentia de parte a parte.

 

    Os republicanos reocuparam Estarreja (11 de Fevereiro) e Oliveira de Azeméis e Ovar (12 de Fevereiro), e os combates prosseguiam ainda na Ponte de Entre-os-Rios e Paços de Ferreira. Apesar dos últimos esforços na frente de batalha em Lamego e no Vouga de Paiva Couceiro, esforçado paladino dos seus ideais, com tão parcos meios e sem bocado de pão para trincar pela soldadesca, a defesa da Monarquia e do Porto era caso de extrema complexidade, percebeu de salto que a causa estava perdida. A manta era curta, destapava os pés quando cobria a cabeça.

 

    Porém, a Monarquia do Norte ainda persistiu até 13 de Fevereiro, altura em que o capitão de Cavalaria João Maria Ferreira Sarmento Pimentel e o capitão de Infantaria Jaime Rodolfo Novais e Silva, com razões astutas, restauraram a República na cidade do Porto, aproveitando a ausência de Paiva Couceiro e de Sollari Allegro, o que precipitou a marcha dos acontecimentos, ainda com alguns focos esporádicos de resistência monárquica aqui e ali. Aos poucos e pouco, fruto da enorme diferença de recursos, o sonho desmoronou-se e a bandeira rubra e verde foi alçada nas demais localidades.

 

    Ainda a 13 de Fevereiro as forças realistas abandonam Vila Flor, a 14 deixaram Mirandela, retirando em direitura a Bragança. A 17 de Fevereiro foi arvorada o pendão republicano em Vila Real e no dia seguinte terminou a resistência monárquica em Macedo de Cavaleiros. A 19 de Fevereiro de 1919, o conselho de oficiais decidiu abandonar Bragança, o ultimo bastião da Monarquia, e o major Joaquim Rangel, na companha de dez oficiais, cinquenta civis e alguns labregos, atravessou a fronteira e no meio das maiores dificuldades entrou em Espanha a 20 de Fevereiro, depois de andanças por franças e araganças, a descrer da graça divina da Restauração.

 

    Curiosamente, somente a 23 de Fevereiro de 1919 a República foi reimplantada nos Paços do Concelho de Paredes de Coura graças ao major Inácio Soares Severino de Melo Bandeira, comandante do 3.º Batalhão do Regimento de Infantaria de Valença, e ao capitão Antero Moreira da Rosa Alpedrinha, administrador do concelho de Paredes de Coura.

 

    Consumada a derrota azul e branca, eis a leva de presos, represálias de monta, alguns assassinatos esporádicos a enviar monárquicos de presente ao Diabo, saneamento de oficiais, expulsão de funcionários, toda a série de «morras» e «mata» da folia rude da populaça urbana de Lisboa e Porto e mais partes-gagas. As enxovias dos cárceres de Lisboa (Penitenciária, Trafaria, Limoeiro, Lazareto e Forte de S. Julião da Barra), Porto (Aljube e Casa da Reclusão), Funchal, Coimbra, Braga, Ponte de Lima, abarrotaram até ao tecto.

 

    Foram criados o Tribunal Militar Especial de Santa Clara (Lisboa) e o Tribunal Militar Especial de S. Bento (Porto) que julgaram dois mil arguidos civis e militares, em julgamentos que se prolongarem até 1921, com muitas sentenças cochichadas ao ouvido e sobrolho carregado, o látego a fustigar a canalha talassa. Ao mesmo tempo procedeu-se a um vasto saneamento da corporação militar com a expulsão de quinhentos oficiais das Forças Armadas. A República topava inimigos a cada passo, até num sorriso alarve.

 

    O major Martinho Cerqueira, governador civil do distrito de Viana do Castelo na Monarquia do Norte, o capitão Benjamim Gomes de Amorim, natural de Arcos de Valdevez, e o sargento de Artilharia Manuel da Mota, de Viana do Castelo, foram condenados a seis anos de prisão maior celular, seguidos de dez anos de degredo ou à pena única de vinte anos de degredo. O padre Domingos Pereira, cabecilha que em Cabeceiras de Basto desfiava padres-nossos enquanto sustinha o arcabuz da guerrilha, foi condenado a tanta soma de anos, quatro em prisão maior celular, seguidos de oito em degredo, ou a quinze anos de degredo opcional.

 

    O alferes Gualdino Ribeiro Guimarães de Passos, natural de Padornelo (Paredes de Coura), foi punido com quatro meses de prisão por despacho de 15 de Agosto de 1919, decisão que contudo foi anulada por despacho de 4 de Janeiro de 1920, «por não provada por unanimidade» as acusações de «tentar restabelecer a forma de Governo Monárquico em Portugal». Revogada em termos administrativos, depois de ter cumprido a punição.

 

    O dr. António Antas de Barros, de Paredes de Coura, detido no Porto a 14 de Fevereiro de 1919 pelo seu envolvimento na Restauração Monárquica, foi pendurado de cabeça para baixo na Ponte Dom Luís e intimado com risco de vida a gritar “Viva a República”. Não se mostrou manso nem cordato e respondia sempre, com brios de bizarria e durante horas, com um heróico e contumaz Viva o Rei!. Moídos de tanta berraria, o homúnculo não cedia pela alma do Demo, foi atirado dois anos agrilhoado para o fundo do calabouço em Ponte de Lima.

 

    António Domingos Teixeira Pinto e António de Oliveira Lima, ambos do concelho de Coura, alistaram-se igualmente sob o estandarte real, a satisfizer o dever sagrado dos seus ideais, com louváveis assomos de coragem. Obviamente, estes casos são tão-só evocativos e não esgotam a questão.

 

    Em Abril de 1920 o Tribunal Militar Especial, por entre alarido das trombetas, condenou os réus da Junta Governativa do Reino que estavam detidos, o conselheiro Luís de Magalhães, Visconde do Banho, Conde de Azevedo e coronel Silva Ramos, a quatro anos de ferros em penitenciária e a oitos anos de degredo, ou, em alternativa, a quinze anos de degredo para as possessões ultramarinas.

 

    Outrossim, em Dezembro de 1920, os réus julgados à revelia e que haviam integrado a mesma Junta Governativa do Reino, no caso de Paiva Couceiro e Sollari Allegro, foram sentenciados a oito anos de prisão maior, seguidos de doze anos de degredo, ou, em alternativa a 25 anos de deportação nas colónias.

 

    A lei de 9 de Abril de 1921 aprova uma amnistia para crimes políticos. Contudo, por decreto 29 de Abril de 1921, tais e tais, ficam proibidos de residir em território nacional pelo prazo de oitos anos, acusados de conspiração monárquica, que se viram excluídos do indulto:

Comandante Henrique Mitchell de Paiva Couceiro;

Capitão António Adalberto Sollari Allegro;

Padre Domingos Pereira;

Capitão António de Sá Guimarães Júnior;

Capitão Arnaldo Ribeiro de Andrade Piçarra;

Inspector José Baldaque Guimarães;

Aspirante Rogério Pais da Cunha Prelada;

Coronel António Teixeira da Rocha Pinto;

António Rodrigues.

 

    Assim terminou um dos episódios mais marcantes da história política e militar do século XX português, a consumar o fado vesgo do destino, enquanto os passarinhos chilreavam recados na natureza, a dar ouvidos ao canto da sereia. Fez agora 93 anos.

 

Vista de Mirandela e da ponte sobre o rio Tua, que em Fevereiro de 1919, foi alvo de intensos combates entre monárquicos e republicanos, no âmbito da chamada Monarquia do Norte.


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Quarta-feira, 1 de Fevereiro de 2012
Património de Vila Flor: Capela de Benlhevai

 

 

    Capela de Nossa Senhora da Esperança, em Benlhevai, aldeia do concelho de Vila Flor. Trata-se dum antiquíssimo monumento com pórticos românicos, em lastimoso estado de ruína absoluta, e que a tradição do povo assevera ter sido a primitiva igreja matriz da freguesia.

 



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Quarta-feira, 25 de Janeiro de 2012
CANTAR OS REIS EM VILA FLOR: Vale de Torno

    Actuação do grupo da freguesia de Vale de Torno na XVIII GALA CANTAR OS REIS, que decorreu no passado dia 8 de Janeiro de 2012 no Auditório Adelina Campos do Centro Cultural de Vila Flor. O vídeo pode ser visto aqui.



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Quinta-feira, 19 de Janeiro de 2012
CANTAR OS REIS EM VILA FLOR: Carvalho de Egas

    Actuação do Grupo de Cantigas da Associação Cultural Recreativa e Desportiva de Carvalho de Egas na XVIII GALA CANTAR OS REIS, que decorreu no passado dia 8 de Janeiro de 2012, domingo, no Auditório Adelina Campos do Centro Cultural de Vila Flor. O vídeo pode ser visto aqui.



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Quinta-feira, 12 de Janeiro de 2012
XVIII Gala Cantar os Reis em Vila Flor

    Imagens da actuação do Grupo de Cantigas da Associação Cultural Recreativa e Desportiva de Carvalho de Egas na XVIII Gala Cantar os Reis, que teve lugar no passado dia 8 de Janeiro de 2012 no Auditório Adelina Campos do Centro Cultural de Vila Flor, evento que teve grande momentos de brilhantismo.



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Sábado, 7 de Janeiro de 2012
XVIII GALA CANTAR OS REIS DE VILA FLOR

XVIII GALA CANTAR OS REIS

 

Domingo

 

8 de Janeiro de 2012

 

15 horas

 

Auditório Adelina Campos

do Centro Cultural de Vila Flor

 

  • Participação de freguesias, associações, instituições e grupos do concelho de Vila Flor;

 

  • Inscrições abertas até 6 de Janeiro de 2012.

Temas:

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Domingo, 1 de Janeiro de 2012
PRESÉPIO DE CARVALHO DE EGAS

Fotografias da fase de montagem do presépio da freguesia de Carvalho de Egas, em Dezembro de 2011.



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Sábado, 24 de Dezembro de 2011
O TERÇO DO TI ANÍBLE

Por: Maria de Fátima Amaral

 

    Decorria o ano de 1956, era Maio, Mês das Flores e Mês de Maria. A luz eléctrica estava longe de chegar a estas paragens, as candeias, candeeiros e lampiões eram os reis da noite, botando uma parca luz no negrume da noite. As ruas e canelhas caiam numa escuridão imensa mal o Sol de punha, ficavam solitárias, apenas as pedras da calçada vigiavam a Lua.

   

    Havia de chegar à aldeia uma telefonia a pilhas, é claro, comprada pelo ti Zé Clemente, onde se ouviam as notícias de Lisboa, as músicas e todo o mais, que faziam o encanto dos ouvintes lá na taberna. Ora acontece que estava a chegar o meio do mês e ia ser transmitido o terço a partir da Basílica de Fátima e as mulheres da família, vizinhos e amigos mais chegados queriam ouvir o terço, até porque era motivo para ouvirem a telefonia, que na taberna ainda não se tinham aventurado, pois que não era coisa bonita, alguma mulher sentada na taberna, quer por que motivo fosse.

 

    Apenas e só para comprar algo essencial ao lar e logo desandar dali para fora, num tropel apressadinho e servir-se com o que tão falta lhe fez. Como o terço ia ser transmitido após as 22 horas, hora a que a taberna já se encontrava encerrada, por lá ficaram as vizinhas ti Maria Grande, a ti Maria do Sebastião, a ti Isaura Carrazedo, a ti Maria Cantoneira, e os familiares, o ti Aníble, meu bisavô, a ti Delmina, cunhada do meu bisavô e irmã do ti Zé Clemente, a ti Maria do Zé Clemente, minha avó, a menina Alice, minha mãe, o Zé, meu pai, e as restantes filhas da casa e alguma outra pessoa cuja lembrança não me foi transmitida.

 

    Juntaram-se todos em casa do tio Zé Clemente, meu avô, à volta da lareira, à espera da transmissão. O adiantado da hora estava a trazer sonolência e impaciência aos presentes, pois que habitualmente a essa hora já se encontrariam a dormir há um bom par de horas.

 

    Foi quando a ti Cantoneira, afilhada do meu bisavô, a qual ostentava o nome da madrinha, a minha bisavó Palmira, retirou o terço da algibeira e disse para o ti Aníble:

 

– Ah, meu padrinho, o senhor como mais velho, comece lá a contar o tercinho.

 

    O meu bisavô, pessoa sofrida, mas sempre bem-disposto com a vidinha e de doçura no trato com os outros, não perdia uma boa oportunidade para fazer uma graça e alegrar o ambiente. Então pegou no terço e começou a contar as ave-marias duma maneira que ficou para sempre conhecida e recordada como sendo o “Terço do Ti Aníble”. Começou ele:

 

– Passa tu, que eu passarei, passa tu, que eu passarei, passa tu, que eu passarei… Agora passe lá o senhor sozinho e passa bossemecê também, passa tu, que eu passarei!

 

    Todos se riram muito, comentaram a arolice do ti Aníble, o sono foi para outras paragens e encurtaram as tão esperadas 22 horas, que já se tornavam distantes.

 

    Este conto que eu ouvi tantas vezes contado pela ti Delmina, já se encontrava no arquivo do esquecimento, não fora a senhora Adelina, que casou no Seixo de Manhoses, filha da senhora Felicidade, que há pouco tempo o desencantou à minha frente e que por graça conta tantas vezes lá na terra onde mora.

 

    É assim, de pequenos pormenores que se avivam as lembranças dos nossos entes queridos, que gostamos de recordar com afecto.



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Sábado, 17 de Dezembro de 2011
CANTIGAS POPULARES DE TRÁS-OS-MONTES XXIV

QUADRAS LAUDATÓRIAS AO DEUS MENINO

 

Recolha de Jofre de Lima Monteiro Alves

 

Alegrem-se os céus e a terra,

Cantemos com alegria,

Já nasceu o Deus Menino

Filho da Birge Maria.

 

Eu hei-de dar ao menino

Uma fita p’ró chapéu;

Também ele me há-de dar

Um cantinho lá no Céu.

 

Eu hei-de dar ao menino

Para a noite de Natal,

Camisinha de cambraia,

Botõezinhos de cristal.

 

Eu hei-de dar ao menino

Para o dia de Reis,

Casaquinha de beludo

Do preço de cem mil réis.

 

Ligai-me, meu Deus Menino

Cum as bossas ligaduras;

Desligai meu coração

Do amor das criaturas!

 

Maria embala o Menino

Cum a mão e não c’o pé;

Este menino qu’embalas

É Jesus de Nazaré.

 

Ó meu amado Menino,

Alfaiatinho do Céu,

Quem me dera um retalhinho

Para fazer um mantéu.

 

Representação do presépio na Igreja Matriz de São Bartolomeu de Vila Flor, em 2009. Fotografia de Jofre de Lima Monteiro Alves.



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Sexta-feira, 9 de Dezembro de 2011
HISTÓRIA FANTÁSTICA: Os Parrecos Enfeitiçados

Por: Maria de Fátima Amaral

 

    As histórias do quotidiano, do tempo dos nossos bisavós são tão incríveis, que quando as ouvimos contar cremos que escutamos as histórias do fantástico mundo infantil, tal é o insólito dos acontecimentos. Esta, não resta dúvidas que aconteceu, pois ouvi-a tantas vezes contada pela boca da comadre e irmã dos intervenientes. A minha dúvida é tão-somente se o que aconteceu, aconteceu, porque em tempos de trevas, misérias e crenças, num fim de uma jornada difícil e de alimento escasso as pessoas tinham visões, ai isso tinham!

 

    Era Verão, os moinhos da zona, não laboravam, porque eram movidos a água ou a vento, e nem uma coisa nem outra se encontrava disponível nesta época seca do ano. As famílias necessitavam de pão, urgia moer o cereal, era necessário carregar as bestas e ir até às azenhas que trabalhavam com água do rio.

 

    Para ajudar nesta tarefa e tornar a jornada menos perigosa, havia necessidade de combinar com alguém para encetarem a viagem juntos e como todos precisavam de farinha para fazer o pão, não faltava quem aproveitasse a companhia para ir até Vilarinho das Azenhas, a fim de moer o cereal.

 

    De manhã cedo, Aníbal e o seu cunhado e compadre César carregaram os machos com os sacos do cereal, até as azémolas ficarem derreadas, comeram o caldo que fumegava na malga e pegaram na taleiga com a escassa merenda, para acomodar o estômago no caminho, com um naco de pão, um cibo de presunto e a cabaça de vinho. Botaram-se ao caminho de Deus, que era necessário chegar cedo, pois eram atendidos por ordem de chegada.

 

    O dia clareou, risonho num céu azul, veio o meio-dia, a tarde e o toque das Trindades e eles ainda não tinham o cereal moído, porque estava muita gente e a merenda há muito tinha acabado. César e Aníbal aguardavam a sua vez. Era já noite, noitinha, quando carregaram novamente as bestas, para o regresso, agora com os sacos da farinha.

 

    Depressa tomaram as rédeas dos animais e na sua dianteira, de passo estugado, empreenderam a viagem. Os compadres vinham caminhando e conversando a fim de o caminho se lhe aparentar mais curto, mas lá para meio da jornada, já esgotados resolveram vir a cavalo. Subiram para cima dos animais, treparam para cima dos sacos da farinha, e ali encavalitados, lá continuaram.

 

    A noite escura, cerrada como breu, bem na borda do horizonte, tudo transformava em figuras fantasmagóricas e a tão desejada chegada a casa e à cama afigurava-se cada vez mais distante. Havia já um tempo que repararam em dois parrecos que os acompanhavam e se metiam à frentes das patas dos machos, provocando algum atraso na marcha. Tentaram espantá-los, mas não resultou.

 

Ó Aníbal, e se os apanhássemos?!, disse o César.

Bem pensado, compadre. Apanha lá um que eu apanho o outro!

 

    Apearam-se das montadas e apanharam os patos que mansamente se deixaram caçar, até parecia que queriam vir a cavalo. Voltaram a montar e com eles também os parrecos. O pior estava para acontecer, os machos começaram a acusar cansaço demoníaco, a andar mais devagar, a transpirar, a bufar e a marcha tornava-se cada vez mais lenta.

 

    Em vão César e Aníbal proferiam palavras de alento para os seus animais, companheiros de tantas jornadas e trabalhos.

 

– Arre macho lindo, anda lá! Olha a manjedoura que está perto!

 

    Mas os pobres dos animais não conseguiam vencer o penoso esforço e caminhavam lentamente que nem uns condenados. Os compadres também mais não podiam fazer e deixaram que os animais continuassem na santa paz do Senhor, pensavam eles, já resignados. Iam botando o olho ao caminho, reparando nesta árvore, naquela curva, no terreno de fulano, na nora de sicrano e assim se inteiravam da lonjura a que ainda se encontravam de casa.

 

    Ao chegar perto da aldeia, duas grandes amoreiras ladeavam a estrada, quando de repente os parrecos levantaram voo, batendo as asas num frenesim, que ecoavam como palmas, gritando ao mesmo tempo:

 

– Ai que burros, que nos trouxeram tanto tempo a cavalo! Ai que burros, que nos trouxeram tanto tempo a cavalo!

 

    Estarrecidos de medo, os compadres não conseguiam articular palavras e os animais, já mais leves, recobraram alento como quem lhes retirou o peso do mundo de cima.

 

    Chegados a casa, transidos de medo, só quando descarregavam a farinha, é que César disse ao Aníbal:

 

– Ah! compadre, viemos todo o caminho acompanhados das feiticeiras e os pobres dos machos com aquele carrego todo!

E a sorte que nós tivemos, compadre, delas não nos terem levados para outras paragens, ainda a esta hora podíamos andar às voltas à procura do caminho, retorquiu Aníbal.

 

    Esta história contada pela tia Delmina, começava assim:

 

– Paxou-se uma passaige com o meu cunhado e cumpadre Aníble e o meu irmão Césaro, é berdade berdadinha!

 

    E desfiava toda esta história extraordinária que eu vos acabei de contar, num fôlego, e rematava:

 

– «É o qu’eu bos digo, as feiticeiras são danadas! Que elas nunca bos tomem de ponta!... E conto acabado, bota cá um cruzado», que era como ela sempre rematava a conversa.

 

Um burro junto do Cruzeiro de Carvalho de Egas, freguesia do concelho de Vila Flor, em Outubro de 2008. Fotografia de Jofre de Lima Monteiro Alves.


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Sexta-feira, 2 de Dezembro de 2011
Património de Vila Flor: Igreja da Trindade

    Igreja da Santíssima Trindade, na aldeia da Trindade, freguesia do concelho de Vila Flor. Trata-se dum monumento de estilo românico tardio, com uma bela portada de três arquivoltas, e que sofreu algumas transformações em reconstruções posteriores, com acrescento duma torre sineira de uma ventana.



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Quarta-feira, 23 de Novembro de 2011
Modos de Linguarejar de Vila Flor LXVI

Recolha de Maria de Fátima Amaral

Recolha e notas de Jofre de Lima Monteiro Alves

XABOUCO, substantivo masculino. Poça de água. Do árabe xahoque.

 

XAIREL, substantivo masculino. Tecido grosso que se põe sobre o dorso das cavalgaduras e onde assenta a albarda; xaile ou vestido ordinário. Do árabe hispânico jilál.

 

XAIRINHA, adjectivo. Diz-se da terra arenosa; terra ruim.

 

XAMBRE, substantivo masculino. Casaco de dormir; casaco para usar por cima da blusa.

 

XARDA, substantivo feminino. Sarda.

 

XARGÃO, substantivo masculino. Colchão de palha. Em Vinhais diz-se xaragão, xeragão em Vila Real e xiragão em Moncorvo. Corruptela de enxergão e este formado do latim sěrĭca.

 

XARIPA, substantivo feminino. Porca magra.

 

XEBRE, adjectivo. Sensaborão; sem graça nenhuma. Por associação com enxabido ou por influência de judeu espanhol marroquino xebdo.

 

XERINGA, substantivo feminino. Seringa. Por vezes o s inicial soa x. Do latim siringa.

Igreja Paroquial de São de Brás, na freguesia de Samões, concelho de Vila Flor, em Outubro de 2008. Fotografia de Jofre de Lima Monteiro Alves.



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Quarta-feira, 16 de Novembro de 2011
Heráldica de Vila Flor XXXIV – BANDEIRA DA FREGUESIA DE SANTA COMBA DE VILARIÇA

Bandeira amarela, com cordão e borlas de ouro e azul, haste e lança de ouro, tendo ao centro o seguinte brasão:

Escudo de azul, com uma chaminé de ouro, acompanhada nos flancos de um ramo de três galhos de oliveira, de prata, frutados de ouro; em contrachefe, uma gemina de duas faixas ondeadas de prata.

 

Coroa mural de prata de três torres visíveis.

 

Listel branco, com a legenda a negro, em maiúsculas: «SANTA COMBA DE VILARIÇA».

 

Aprovado pelo parecer da Comissão de Heráldica da Associação dos Arqueólogos Portugueses, emitido a 19 de Julho de 2006.


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Quinta-feira, 3 de Novembro de 2011
Uma Grande Figura de Vila Flor: DIOGO MONTES DE LEMOS

Por: Jofre de Lima Monteiro Alves

 

   Diogo Montes de Lemos e Macedo nasceu em Vila Flor a 3 de Novembro de 1715, faz agora 296 anos, filho primogénito do capitão João de Seixas Cabral e Lemos e de D. Mariana de Almeida Meireles; neto pela via paterna de Diogo Montes de Lemos e de D. Francisca Cabral de Macedo; neto materno de Domingos Jorge de Seixas e de D. Isabel de Almeida Meireles.

 

    Recebeu as águas lustrais do baptismo na pia baptismal da Igreja Paroquial de São Bartolomeu a 11 de Novembro de 1715, ao colo do dr. António Fernandes de Mesquita, Juiz Ouvidor, e do reverendo Félix Pereira de Sampaio, como representantes dos padrinhos Manuel António José de São Payo Mello e Castro Moniz Torres e D. Vitória Josefa de Bourbon, da primeira nobreza cortesã.

 

    A estirpe, apesar da prosápia de fidalguia visigoda, andara infamada de rumor de sangue judeu no século XVII, em virtude dos problemas que Francisco Montes de Almeida, irmão de seu trisavô paterno, tivera com o Santo Ofício em 1667, assim como a própria bisavó D. Ângela de Lemos da Fonseca.

 

    A 14 de Setembro de 1744 levou ao altar da Igreja Matriz de São Pedro de Alfândega da Fé a prendada senhora D. Rosa Maria de Albuquerque Ordonhes Tello, natural de Alfândega da Fé e falecida em Vila Flor a 14 de Setembro de 1788, em cujas veias corria luzidio sangue azul por ser dilecta filha de José Monteiro Caldeira da Fonseca Tello, natural de Proença-a-Nova, e de D. Ana Maria de Albuquerque Ordonhes Morais de Antas, natural de Veiga de Lila.

 

    Por este casamento foi abençoado com os seguintes filhos, andorinhas alegres nas cornijas:

1 – Manuel José Montes Monteiro de Lemos, nasceu em Vila Flor a 18 de Setembro de 1745.

Foi escrivão substituto da Câmara e Almotaçaria de Vila Flor, por carta de provisão de 12 de Outubro de 1764[1].

2 – D. Jerónima Teresa de Albuquerque e Lemos Madureira, nasceu a 9 de Dezembro de 1746 em Vila Flor.

3 – José Bernardo Pinto de Lemos Montes, nasceu em Vila Flor a 5 de Janeiro de 1748.

4 – D. Ana Maria Faustina Benedita de Albuquerque Morais Tello, nasceu a 2 de Maio de 1749 em Vila Flor.

Freira no Convento de São Bento de Bragança.

5 – D. Isabel Maria de Albuquerque e Lemos de Almeida, nasceu em Vila Flor a 3 de Junho de 1750.

Freira no Convento de São Bento de Bragança.

6 – D. Luísa Caetana Josefa de Lemos e Albuquerque Cabral, nasceu a 10 de Outubro de 1751 em Vila Flor.

Casou com o tenente-coronel Manuel Leite Pereira de Magalhães Ferraz, nascido em Favaios a 16 de Abril de 1740, filho de Miguel Rebelo Leite Pereira Ferraz de Magalhães e de D. Mónica Teixeira de Barros e Beça da Mesquita Pimentel; com geração.

7 – Dr. João de Seixas Caldeira da Fonseca e Lemos, nasceu em Vila Flor a 19 de Fevereiro de 1754.

 

    Abastado de teres e haveres, as arcas cambas de moedas e cereais, por herança dos seus distintos antepassados, foi 2.º Morgado de São Domingos, 4.º Morgado de São João de Valongo, 3.º Morgado dos Seixas, 3.º Morgado de Chandeina, 1.º Senhor do Solar dos Lemos, 6.º Senhor da Casa da Praça, Senhor da Quinta de São Domingos, Senhor da Quinta de São João de Valongo, Senhor da Quinta dos Vales da Veiga, Senhor da Quinta de Vale de Castelares, Senhor da Quinta dos Godeiros (no Nabo), proprietário do Olival de Vale de Castelares, do Olival de João de Aguiar, do Olival do Penedo, do Olival do Tobão, do Olival da Ribeira do Nabo, do Olival dos Godeiros, da Tapada de Fora, tudo no limite de Vila Flor. Aferrolha um pé-de-meia, com o carrego de providenciar a manutenção da vasta casa e vigiar os caseiros e os labregos da lavoura.

 

    Era proprietário do ofício de Escrivão da Câmara e Almotaçaria, Guias e Décimas de Vila Flor, lançado por carta de provisão de 5 de Setembro de 1752[2], embora exerça a efectividade do mester desde 1733, por renúncia de seu pai.

 

    Ele próprio, «por padecer queixa grave no peito» e como «não podia dar cabal expediente do lançamento das décimas e receitas para o Exército sendo grande o destricto do concelho» de Vila Flor, alcança a mercê para nomear o filho Manuel José Montes Monteiro de Lemos, que «se achava com pratica e inteligência», a fim de servir nos seus impedimentos, por resolução régia de 12 de Setembro de 1764 e carta de provisão de 12 de Outubro de 1764[3].

 

    O homem põe, o destino contrapõe por alçapões ínvios. O primogénito e imediato sucessor endoidou, «por padecer havia muitos anos a queixa de maníaco com huma inquietação continua no juízo, fazendo repetidos distúrbios e alaridos na sua caza com todos aquelles procedimentos que se podião esperar de hum homem sem juízo prudencial», queixava-se em Junho de 1773, enquanto a mulher e filhas choravam de manso como o céu, por entre desabridos ais.

 

     A magicar honrarias, foi agraciado com o hábito da Ordem de Cristo por mercê régia passada ao redor do ano de 1730, embora, por coisas e loisas, somente fosse armado cavaleiro por alvará de 17 de Junho de 1761[4].

 

    Andava alegre como passarinho, quando inimigos acaçapados como matilha de lobos, saltam-lhe ao caminho, a roer-lhe o bom nome através da queixa feita por Domingos de Sá e Manuel de Seixas, procuradores e tesoureiros do concelho de Vila Flor, incriminado de questões de lana-caprina e ser «poderoso, régulo e absoluto no procedimento», tirano nos assuntos inerentes à governança da Câmara Municipal e «homem cavillozo nas contas».

 

    Defende-se, espuma argumentos, porque torna, porque deixa, aqui d’El-Rei, diz-se vítima de campanha caluniosa «contra toda a verdade». Implora Justiça Real, na medida em que até o dr. juiz Francisco Alves da Silva, Corregedor da Comarca de Moncorvo, «porque lhe he mal afecto e o tem amiaçado», estava de braço dado com as falsidades dos queixosos, e com «tal paixão que incitou particularmente as mesmas partes a que fizessem a dita queixa», corja de ruins fígados.

 

    Chovem acusações bilaterais de falcatruas na arrecadação da terça parte das receitas das coimas dos oficiais coimeiros e nos contratos com os contratadores das Terças das Províncias do Minho e Trás-os-Montes, a chafurdar no chiqueiro, foste tu! não, foste tu! Coisas inventadas pelo Demo para apoquentar os justos e os pecadores!

 

    Vislumbra avejões de carne e osso ou imaginários, teme que o magistrado da comarca «falte à verdade em matéria de tanta ponderação», receia que sua honra «padeça inocente» e, por isso em Março de 1757, de mãos postas roga ao Rei que, na sua magnânima bondade, nomeie um togado da justiça que não tenha «as circunstâncias de suspeição que há no dito Corregedor»[5].

 

    As filhas D. Ana Maria Faustina Benedita e D. Isabel Maria, castas de tapar o peito na flor da mocidade, recolhem como freiras no Convento de São Bento de Bragança, mortas para o mundo profano, a desfiar ave-marias e a fazer nódoas roxas de tanto bater no peito. Contrata com a madre abadessa o dote de 650$000 réis por cada uma, a fim de entrarem no noviciado da religião, a desatar os cordões da bolsa.

 

    Antes, por escritura pública, as noviças renunciavam às suas legítimas partes na herança em troco duma tença de 18$400 réis anuais por cabeça e em vida, para além dos 400$000 réis em dinheiro sonante das demais despesas feitas para professorarem, que «excediam» o terço dos bens a que tinham direito.

 

    Em troca, elas cediam a favor do vínculo as fazendas e bens de raiz que hipoteticamente lhes pertenceria do legado paterno e materno. Para «maior segurança do dito Morgado e das mesmas tenças e pensões», alcança provisão de confirmação de renúncia da herança legítima das filhas religiosas a favor do morgadio, por despacho da Mesa do Desembargo do Paço de 29 de Maio de 1767 e carta de provisão de 30 de Julho de 1767[6]. Tudo em nome da santa amizade no seio da família e para não esvaziar os estanques dos dobrões.

 

   Alquebrado de forças, corcovado sobre a escrivaninha onde servia há mais de 40 anos como proprietário encartado do ofício de Escrivão da Câmara e Almotaçaria de Vila Flor, argumenta «estar hoje em idade avançada e falto de vista lhe não podia dar prompta expedição» do expediente. Obtém mercê régia para renunciar em seu filho segundogenito João de Seixas Caldeira da Fonseca e Lemos, «em quem concorrião todas as circunstâncias para bem servir os ditos officios, e ser de probidade conhecida e formado na Faculdade de Leys», por resolução de Sua Majestade de 14 de Julho de 1773 e carta de provisão passada a 3 de Agosto de 1773[7].

 

    Dentro da política de concentração de riqueza, vai unificar diversos morgados e outros bens. Enumera os vínculos que administra, quase tantos como as estrelas cintilantes do firmamento: o Morgado de São Domingos, que fora instituído pelo seu tio, o sargento-mor Manuel de Almeida Meireles, com o proveito de 100$000 réis livres; o vínculo que instituíra seu avô Domingos Jorge de Seixas, com a receita de 40$000 réis livres; o Morgado de São João de Valongo, fundado por seu tio-bisavô, o padre Manuel Pinto, irmão da bisavó D. Joana Rita Pinto de Azevedo, que rendia mais de 100$000 réis livres; o Morgado de Chandeina, fundado pelo avô Diogo Montes de Lemos, com o rendimento livre de 30$000 réis. Acrescia, ainda, inúmeras propriedades soltas e não vinculadas.

 

    Topava a cada passo ocasião de dilatar os rendimentos e «para maior estabelecimento da sua família», pretendia unir «a mayor parte das fazendas de seus terços, que pegavão com as quintas e mais propriedades dos morgados». Acrescenta ao património vinculado mais 300$000 réis em prédios rústicos que tinham sido de seu irmão, o padre Paulo de Lemos Montes, levita congregado no oratório de Freixo de Espada à Cinta. Adiciona os bens de raiz que suas filhas D. Ana e D. Isabel tinham renunciado por escritura pública quando professaram em Bragança.

 

    Com tudo isto unificou todos os morgadios, propriedades e demais proveitos, constituindo tão-somente dois vínculos maiores pela absorção dos menores. Fica circunscrito ao representativo da linha paterna, o Morgado de São Domingos, e ao da linha materna, o Morgado de São João de Valongo, ficando «reduzidos os encargos a sentesima [centésima] parte na forma da Ley», por mercê da resolução de 27 de Maio de 1773 e carta de provisão de 3 de Setembro de 1773[8].

 

    Em Agosto de 1775 levantou-se monumental onda de quezílias bizantinas, ódios e invejas diluvianas. Salta a terreiro a família Morais e Castro, nobres de pelo na benta, inimigos figadais de caldeira e pendão. Sucedera que António José de Morais Teixeira de Sottomayor e Castro, capitão-mor de Vila Flor e fidalgo de solar, doou a Terra da Cascalheira ao parente João Manuel Joaquim Borges de Sá Botelho de Morais e Castro.

 

    Por essa altura uma D. Isabel Joana de Castro Morais fez, igualmente, doação de duas leiras da Terra do Meio e a Cortinha da Redonda ao mesmo beneficiado. De trambolhão angaria, também, a Cortinha de Maria Gomes, viúva de Gonçalo Vaz Torres. Tudo sem gastar um ceitil.

 

    O busílis, desmedido como os Himalaias, residia no facto essencial de todas estas terras estarem rentes ou mesmo encravadas no interior da sua Quinta dos Vales da Veiga, no termo de Vila Flor. João Manuel Borges de Sá, a botar figuraça, detinha mais uns pedacitos dentro da quinta murada, por mor dessas ofertas, formava um potentado possidente dentro de outro latifúndio.

 

    Braceja, com teima de galego, tais dádivas são «obreptícia e sub-reptícia e como tal nula», porquanto «a doação alem de dissimulada, foi feita em prejuízo» e «em fraude do seu adquirido direito», porque a sua quinta «consta de cazas, pumares, horta, vinhas, olival, matas de pinhos, e outros arvoredos, valles e terras unidas; de sorte que he a milhor da dita villa, e vale nove mil cruzados». Por isso, devido ao benefício da nova lei de 9 de Julho de 1773, essas adjudicações e uniões deviam ser feitas tão-só a ele embargante.

 

    Estas malas-artes, de bradar aos céus, consumadas por malévolos «adversos» e «em seu prejuízo, e fraude da dita Ley», porquanto o capitão-mor António José de Morais e D. Isabel Joana «afectada e dolorosamente» ofertaram as porções de terra «para nesta forma constituírem repentinamente na mão do dito embargado João Manuel hum só prédio, que não valesse menos seis partes do que vale a dita quinta».

 

    O «dolozo intento» era tão evidente que, mal foram concluídas as escrituras de doação, nem a tinta secara ainda, irrompe no mesmo instante o João Manuel Borges de Sá, de afogadilho, a botar a gadanha da posse, «por um modo repentino, precipitado, e nunca visto; e com a mesma aceleração, fez conduzir alguma pedra, para a extremidade das ditas terras, couza extraordinária, e nunca praticada pelas calmas do mez de Agosto», trupe-que-trupe, no pino da canícula.

 

    Embuste tão patente, pinchava à vista de qualquer ceguinho. João Manuel Borges de Sá e seu tio, o padre José de Morais e Castro, quiseram comprar a mencionada Terra da Cascalheira «há bem poucos tempos, se não ajustou o contracto pelo excessivo preço que o dito Capitão-Mor por ella queria, pois não costumão os sobreditos praticar entre si liberalidades».

 

    Pelo contrário, pois estes unhas-de-fome «nas partilhas que fazem com seus irmãos, depois de escandalosas discençoens [dissensões], dividem athe á couza mais insignificante», pelo que «se fazem suspeitozas de simuladas, e affectadas» as doações. Exprobra tais gentes «que se confederarão para fraudarem o embargante de quem são inimigos há muitos annos, e a quem costumão fazer todo o mal que podem». Sofria torturas infernais.

 

    Insiste e acomete contra donativos tão «inverosímeis» e «está persuadido serem fingidas e supostas as ditas doações, para fraudarem ao embargante no Direito que lhe confere» a Lei. Gentalha de derramada bílis, segundo afirma, «por serem os sobreditos tão costumados a fraudar as Leys, que Sua Majestade sobre informação que houve pelo Corregedor de Mirandela, os castigou com as inhabilidades para os cargos e empregos da Câmara».

 

    Em desespero de causa, tenta virar o bico ao prego, vai adquirir terras circunvizinhas no fito de alargar a quinta. Compra a horta de seu cunhado Francisco Xavier de Almeida Machado Meireles, troca algumas cortinhas com um António Rodrigues Linhares, paga as respectivas sisas e esfregas as mãos de contente, esperto que nem um rato, ainda rompia a claridade difusa da alva.

 

    Porém, no mesmo dia, pela calma do meio-dia de 28 de Agosto de 1775, rompe portas adentro o tabelião António Vaz Torres, o meirinho José de Castro e um cabo-de-esquadra de fuzil aperrado, artilhados com o mandato do Juiz Corregedor para suspender «a troca, que já estava feita e confirmada», com «tal excesso, que para isso invadio a casa», entrando de supetão «athe uma sala interior». Se dum lado chove, do outro ventaneja!

 

    Ora, o magistrado superior em causa, a fazer orelhas de mercador às suas reclamações, quando procedeu à vistoria favoreceu «a fraude», para além de ser «inimigo declarado do embargante, e o tem ameaçado», devido a «inimizade» pública desde 1773 por causa do seu ofício de Escrivão da Câmara, «em tudo lhe tem mostrado má vontade» com suspensivas interrogações e «forte inclinação» pelos seus inimigos.

 

    Tanto o Corregedor como o Provedor da Comarca e o Juiz de Fora da Comarca de Moncorvo, dr. António Pinto da Mesquita, cismava, todos são «parciais» da família Morais e Castro, porquanto João Manuel Joaquim Borges de Sá Botelho de Morais e Castro, seus tios e parentela, patrocinaram a eleição fraudulenta das justiças de Vila Flor que «Sua Majestade mandou queimar [anular] pelo Corregedor de Miranda, inhabilitando aos sobreditos temporariamente para os cargos do Concelho». Parece que todos liam pela cartilha de todas as tranquibérnias!

 

    Acalentava, «com muita razão e justiça», que o Rei lhe confirme as adjudicações que fez para engrandecer a sua quinta, «a fim de mais decorozamente se poder empregar no seu Real Serviço, por ser da principal Nobreza daquela província [de Trás-os-Montes], Cavaleiro Professo na Ordem de Cristo, e tem hum filho ocupando o lugar de Juiz de Fora de Freixo de Numão».

 

    E, a talho de foice, mande embargar as adjudicações feitas pela outra parte, que foram «alcançadas com supplica obreptícia e sub-reptícia e como tal nula». Por carta de provisão de 13 de Fevereiro de 1776 obteve a mercê desejada e a Chancelaria Mor da Corte e Reino mandou tolher as doações feitas ao arqui-inimigo João Manuel Borges de Sá[9].

 

    Em finais de 1775 arrebenta nova borrasca, o dinheiro tem destas coisas, cicatriza úlceras e abre chagas! Manuel Leme de Castro e Sande Paes, natural de São João da Pesqueira, ferrabrás amargo como fel e cenho carrancudo, impugnou à má-fé uma adjudicação que ele fizera ao juntar o olival do sítio de João de Aguiar à sua Quinta de Vale de Castelares, à «qual, estava contigua, e encravada».

 

    Contou o salafrário, dizia de ânimo torvo, com o amparo do Doutor Juiz de Fora de Torre de Moncorvo, que ora serve também como Juiz Corregedor Interino. Este magistrado, não isento «das suspeyçoens» durante o acto de vistoria que fizera, declarou nula a união efectuada, «espoliando o supplicante da posse em que se achava no dito olival», ordenando com supina desfaçatez a entrega do olival ao litigante Manuel Leme de Castro e Sande, que saiu, assim, beneficiado.

 

    A 24 de Janeiro de 1776, a voz lamentosa, acode à infinita misericórdia da Justiça Real para embargar a decisão do Juiz de Fora de Torre de Moncorvo e pedia para ser nomeado juiz da causa o Corregedor de Moncorvo titular, quando este voltar ao serviço, ou então o Doutor Juiz de Fora de Freixo de Espada à Cinta ou de Mirandela[10].

 

    Pretende, mais uma vez, aumentar a opulência da sua casa. Permuta uma moradia que tem em Vila Flor e os olivais no sítio do Penedo, no Tobão e na Ribeira do Nabo, mas que eram defesas e indivisíveis por pertencerem ao Morgado de São Domingos. Oferece em troca os olivais e terras encravados dentro da sua Quinta do Vale de Castelares que tinha mercado a Francisco Xavier de Almeida Machado, a Belchior Coelho de Almeida, a Francisco José Pimentel, a D. Caetana Josefa de Mesquita, a Maria Trigo, do Seixo de Manhoses, e a Clara Morais de São Paio. Junta mais as terras e lameiro que, por estarem dentro da Quinta de São Domingos, comprara a Francisco Gomes Pesqueiro, à viúva de Domingos João Bartolomeu Teixeira, à viúva de Manuel Vaz de Azevedo, a Silvestre Rodrigues, a Manuel Lobão, de Carvalho de Egas, e a José Maria da Costa. Acresce à permuta o olival com outras árvores e terras que comprara a António José Pequeno, para fazer conta redonda.

 

    Os louvados avaliam a Casa da Praça, que «por antigas tinhão suas aberturas nas paredes pormetendo pouca duração», e os olivais anexos em 617$000 réis, contra o provento de 630$000 das terras e olivais contemplados na permutação. Como o impetrante é «pessoa de distinta Nobreza» e a troca era «de maior utilidade para os referidos morgados por ficarem contíguas» e livres de oneração, foi autorizada por resolução de 16 de Abril de 1777 e provisão de sub-rogação de 21 de Maio de 1777[11].

 

    Morrera a sua mulher a 14 de Setembro de 1788 e muito pela pressão do genro Manuel Leite Pereira de Magalhães Ferraz, então sargento-mor do Regimento de Infantaria da Praça de Bragança, mas também por isto ou por aquilo, era preciso fazer partilhas da legítima herança materna. Proclama aos ventos desejar «fazer entrega a sua filha D. Luísa Caetana» da «legítima materna, que lhe está deferida pela morte de sua may D. Rosa Maria d’Albuquerque Ordonhes Tello», e a porção igual a seu filho João de Seixas Caldeira da Fonseca e Lemos, «únicos herdeiros» legais, já que o primogénito padecia de apoucamento e vivia na fase dos doidos varridos.

 

    Porém, tal «é assás complicado sem precederem Inventário e Partilhas de comum acordo», por ser a sua casa «avultada em bens móveis, raiz e benfeitorias». Enfatiza que «o Inventário e Partilhas se não concluirão com a brevidade e inteireza necessária» devido a morosidade e pouca aptidão do Juízo Geral de Vila Flor, «por ser terra de juiz leigo».

 

    Suplica, por isso, a Sua Majestade, «a graça» de nomear o Juiz de Fora da Comarca de Torre de Moncorvo, homem sábio, certamente, ou «qualquer Ministro de vara Branca das Terras mais vezinhas» para «ser juiz de tal Inventário e Partilhas», o que lhe foi concedido por despacho da Mesa do Desembargo do Paço de 19 de Julho de 1791, carta de provisão de 20 de Julho de 1791[12] e carta de salva de 8 de Agosto de 1792[13].

 

    Envelhecia e definhava, quase a cair da tripeça, tem-te-não-caias, foi arvorado capitão-mor de Ordenanças de Vila Flor e seu termo, por carta patente de 27 de Outubro de 1796, vergado ao peso de 81 invernos, sucedendo, precisamente, ao seu adversário António José de Morais Teixeira de Sottomayor e Castro, entrementes falecido. Pouco lhe acrescenta a honraria, a não ser um ror de canseiras para além das debilitadas forças humanas.

 

    Diogo Montes de Lemos prestou contas da sua passagem terrena à Divina Providência, ao falecer a 10 de Outubro de 1798, aos 83 anos de idade, cabeceava na penumbra da velhice, depois de muitos episódios de esfola-gatos, mata-cães.

 

ÁRVORE DE COSTADOS DE DIOGO MONTES DE LEMOS E MACEDO

Próprio

Pais

Avós

Bisavós

Trisavós

Diogo Montes de Lemos e Macedo

 

* Vila Flor 1715

 

+ Vila Flor 1798

João de Seixas Cabral e Lemos

 

* Vila Flor

Diogo Montes de Lemos

 

* Vila Flor

 

Paulo Montes de Madureira

 

* Vila Flor

Diogo Montes de Almeida

 

* Vila Flor

D. Jerónima de Madureira Almendra

D. Ângela de Lemos da Fonseca

 

* Nabo, Vila Flor

António Borges de Castro

 

* Vila Flor

D. Ângela de Lemos da Fonseca

 

* Lisboa

D. Francisca Cabral de Macedo

João de Seixas Cabral

 

* São João da Pesqueira

Vasco de Seixas Cabral

D. Ana Teixeira de Sousa

D. Joana Rita Pinto de Azevedo

 

* Vila Flor

Agostinho de Azevedo Soares

D. Catarina Pinto Queijo

D. Mariana de Almeida Meireles

Domingos Jorge de Seixas

António Jorge de Seixas

 

* Bobadela, Amarante

Gaspar Jorge de Seixas

 

* Honra de Ovelha

D. Isabel Dias Salgado

D. Marinha de Seixas

 

* Vila Flor

Cristóvão de Seixas

 

* Vila Flor

D. Isabel de Morais

 

* Freixiel, Vila Flor

D. Isabel de Almeida Meireles

André Gomes de Meireles Pinto

Bartolomeu Gomes

D. Jerónima Pinto Borges

D. Maria de Almeida

Ciprião Luís de Meireles

Ana de Meireles

 



[1] ANTT, Chancelaria de Dom João V, Livro 50, fl. 256.

[2] ANTT, Chancelaria de Dom João V, Livro 44, fl. 355.

[3] ANTT, Chancelaria de Dom José, Livro 50, fl. 256.

[4] ANTT, Chancelaria da Ordem de Cristo, Livro 270, fl. 166, microfilme 2277; ANTT, Desembargo do Paço, Minho de Trás-os-Montes, maço 26, doc. n.º 32.

[5] ANTT, Desembargo do Paço, Minho e Trás-os-Montes, maço 14, doc. n.º 61.

[6] ANTT, Chancelaria de Dom José, Livro 51, fl. 357v.

[7] ANTT, Chancelaria de Dom José, Livro 55, fl. 254v.

[8] ANTT, Chancelaria de Dom José, Livro 11, fl. 110v. microfilme 2407.

[9] ANTT, Desembargo do Paço, Minho e Trás-os-Montes, maço 93, doc. n.º 7.

[10] ANTT, Desembargo do Paço, Minho e Trás-os-Montes, maço 93, doc. n.º 47.

[11] ANTT, Chancelaria de Dona Maria I, Registo de Doações, Ofícios e Mercês, Livro 83, fl. 40, microfilme 7035.

[12] ANTT, Desembargo do Paço, Minho e Trás-os-Montes, maço 218, doc. n.º 65; ANTT, Chancelaria de Dona Maria I, Livro 38, fl. 217v, microfilme 493.

[13] ANTT, Chancelaria de Dona



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Sábado, 22 de Outubro de 2011
O GATO DIABO

Por: Maria de Fátima Amaral

 

    As histórias que viram lendas nascem de acontecimentos casuais, inocentes, fantásticos, heróicos ou de crenças, que por força de serem contados nunca caem no esquecimento e assim se transformam em lendas. Esta aconteceu nos idos anos quarenta do século passado e já todos a ela se referem como lenda.

 

    Ia cabisbaixo de passo lento, mastigando palavras que mal se percebiam serem as orações das Trindades, que ele antecipava ao toque da reza, tropeçando de quando em quando nalguma pedra solta no desalinho do caminho. A claridade rareava naquele sol-pôr.

 

    Ao aproximar-se da igreja pareceu-lhe ouvir um gemido. Justiliano da Loureira apurou o ouvido e eis que escutou com clareza:

– Ai que eu caio! Ai que eu caio!

 

    Rodopiou e olhou para todos os lados para averiguar donde surgia tão grande queixume e eis que lhe pareceu que o gemido vinha do alto. Botou os olhos ao campanário da igreja e um gato avistou, continuando o lamento:

– Ai que eu caio! Ai que eu caio! Ai que eu caio!

 

    Repentinamente e sem reflectir, ripostou-lhe:

– Se lá vou é que cais deveras!

 

    Até aqui tudo bem, ainda não estava ciente da insólita situação dum gato falante, mas logo ficou aterrorizado quando o gato irado e deitando lume pelos olhos lhe respondeu:

– Mas olha que se eu desço daqui, tu é que foges deveras!

 

    O terror quase que o paralisou, Justiliano mal teve força para virar para trás e já não tocou as ave-marias. Correu para casa, se correr ainda pôde, tomado dum profundo medo e meteu-se na cama, donde não voltou a sair, tendo em pouco tempo morrido aterrorizado pelo medo e pela crença de ter avistado e falado com o Diabo!

 

    Esta antiga ocorrência ainda hoje atemoriza os mais crentes que ao lusco-fusco ou à noitinha não querem passar perto do caminho da igreja, arrepiados de medo, com receio que o gato ainda esteja de atalaia na torre.

Fotografias de Jofre de Lima Monteiro Alves


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Sábado, 15 de Outubro de 2011
CANTIGAS POPULARES DE TRÁS-OS-MONTES XXIII

CORADINHA

 

Coradinha, ai… li! ai lé!

Ai… li! ai lé! ‘Stás tão corada;

Eras minha, agora és doutro

Triste bela, és desgraçada.

 

Fala-me, ó rola, a mim sozinha,

Berás como ficas coradinha!

 

O meu amor me disse onte

Qu’eu andaba coradinha;

Meu amor num desconfies

Qu’esta cor foi sempre minha.

 

Fala-me, ó rola, a mim sozinha,

Berás como ficas coradinha!

 

Coradinha, olaré, ó linda,

Coradinha, olaré, limão;

Dá-me cá esses teus braços,

Prenda do meu coração.

 

Fala-me, ó rola, a mim sozinha,

Berás como ficas coradinha!

 

Coradinha, ai… li! ai lé!

Ai… li! ai… lé!, coradinha;

Fugiu a seu pai de casa,

Desgraçada, coitadinha!

 

Fala-me, ó rola, a mim sozinha,

Berás como ficas coradinha!

 

Inda agora aqui cheguei,

Já sei o que bai na praça;

Que fugiu a coradinha

De noute pela bidraça.

 

Fala-me, ó rola, a mim sozinha,

Berás como ficas coradinha!

 

Eu bem bi a coradinha

Na ladeira das funções;

Trazia meia de seda,

Saias de cinco balões.

 

Fala-me, ó rola, a mim sozinha,

Berás como ficas coradinha!

Arco, aldeia da freguesia de Vila Flor, vista a partir do Gavião, freguesia de Seixo de Manhoses, em Agosto de 2008. Fotografia de Jofre de Lima Monteiro Alves e Maria de Fátima Amaral.

 



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Sábado, 8 de Outubro de 2011
Uma Grande Figura de Vila Flor: AMADOR PEGADO BARROSO

 

 

Por: Jofre de Lima Monteiro Alves

 

    Amador Acácio de Jesus Pegado de Menezes de Sousa Barroso nasceu em berço de oiro a 13 de Outubro de 1884, em São Justo de Calvelhe, freguesia do concelho de Bragança, faz agora 127 anos.

 

    Corria-lhe mas veias a mais distinta prosápia de fidalguia desde o tempo da pedra polida, por ser filho dilecto primogénito de Álvaro Augusto Pegado de Sousa Pinto Barroso, natural da freguesia de São João Baptista de Roios, concelho de Vila Flor, e de D. Ana Augusta da Silva Reimão de Menezes Falcão, natural da freguesia de Calvelhe; neto paterno do dr. António Alexandre de Sousa Pinto Barroso, natural de Roios, e de D. Maria Amália Gomes da Silva de Magalhães Pinto Pegado, natural de Roios; neto pela via materna de Amador José da Silva, de Calvelhe, e de D. Fábia Germana Reimão de Menezes Falcão, de Macedo de Cavaleiros.

 

    Apesar de ter nascido em terra alheia, Amador era legítimo vila-florense do coração e de sangue, na medida em que tanto o pai como os avós paternos eram todos naturais de São João Baptista de Roios, freguesia do concelho de Vila Flor, assim como a maioria dos antepassados por essa linha ascendente.

 

    Foi bacharel formado em Direito pela Universidade de Coimbra em 1908 e seguiu a carreira de magistrado judicial, a fazer jus ao espelho mais cristalino do seu carácter íntegro, tão brioso como cauto. Com a barretina de Delegado do Procurador da República passa pelas comarcas de Vila Flor, Cantanhede, Macedo de Cavaleiros, Almodôvar e nos Açores, no contínuo malhar na bigorna da Justiça. Numa altura em que a Justiça não tinha pêlos no coração e nem era carecida de sentido.

 

    A 18 de Fevereiro de 1913[1] levou ao altar, em Freixiel, a sua respeitabilíssima parente D. Maria Beatriz de Morais Madureira Álvares Pereira de Aragão Lobo de Sousa Barroso, nascida em Freixiel a 21 de Maio de 1892, filha de Guilhermino de Morais Leite e Castro Sotto Mayor Madureira Lobo, natural de Freixiel, e de D. Maria Palmira Pinto de Lemos Álvares Pereira de Aragão, natural de Vila Flor.

 

    Por este casamento, feliz e grato aos olhos do Senhor, foi pai da seguinte geração:

1 – Alexandre de Menezes Pegado de Aragão Lobo Barroso, nascido em Calvelhe a 8 de Fevereiro de 1915.

2 – Dr. Pedro Guilhermino de Menezes Pegado de Aragão Lobo Barroso, nascido a 17 de Agosto de 1916 em Travanca, Macedo de Cavaleiros.

3 – Álvaro de Menezes Pegado de Aragão Lobo Barroso, nascido em Travanca, Macedo de Cavaleiros, a 15 de Maio de 1919.

 

    Abastado de teres e haveres e arcas encoiradas, herda sacrossantas honrarias por herança dos ancestrais. Na roda da fortuna foi 9.º Senhor da Casa Pinto de Magalhães, em Roios (1953), chefe da família Pegado de Oliveira, de Trás-os-Montes (1953), chefe da família Sousa Pinto Barroso (1953), proprietário rural em Roios, Freixiel, Calvelhe, Macedo de Cavaleiros e demais sítios distantes, onde os antepassados a bom galope lançaram raízes pela província trasmontana e davam beija-mão aos rendeiros.

 

    Dr. Amador Pegado Barroso, cavalheiro de primorosa educação, foi riscado do mundo dos vivos, que a seitoira impiedosa ceifou em Calvelhe a 3 de Janeiro de 1957, num dia baço, no pino da estação invernosa das maleitas da vida, aos 73 anos incompletos. Sua viúva recolheu ao descanso eterno a 20 de Agosto de 1980.

 

Árvore de Costados de Amador Acácio de Jesus Pegado de Menezes de Sousa Barroso

Próprio

Pais

Avós

Bisavós

Dr. Amador Acácio de Jesus Pegado de Menezes de Sousa Barroso

 

* 1884

 

+ 1957

 

Bacharel em Direito

 

Delegado do Procurador da República

 

Proprietário

 

9.º Senhor da Casa Pinto de Magalhães, em Roios

Álvaro Augusto Pegado de Sousa Pinto Barroso

 

* Roios, Vila Flor, 1863

 

+ Travanca, Macedo de Cavaleiros, 1953

Dr. António Alexandre de Sousa Pinto Barroso

 

* Roios, Vila Flor, 1830

 

+ Roios, Vila Flor, 1896

António Luís de Sousa de Sá Pinto Barroso

 

* Vale de Gouvinhas, Mirandela

D. Maria Emília de Sampaio e Melo

 

* Roios

D. Maria Amália Gomes da Silva de Magalhães Pinto Pegado

 

* Roios, Vila Flor, 1842

 

+ Roios, Vila Flor, 1912

Manuel Gomes da Silva Pinto de Magalhães

 

* Braga, 1821

 

+ Roios, Vila Flor, 1866

D. Maria Cândida de Seabra de Oliveira Pegado

 

* Mogadouro, 1815

 

+ Roios, Vila Flor, 1900

D. Ana Augusta da Silva Reimão de Menezes Falcão

 

* Calvelhe, Bragança, 1861

 

+ Calvelhe 1901

Amador José da Silva

 

* Calvelhe

Amador Tomé da Silva

 

Teresa Maria Rodrigues

D. Fábia Germana Reimão de Menezes Falcão

 

* Vale da Porca, Macedo de Cavaleiros

João José Reimão de Menezes e Melo Falcão

 

* Travanca, Macedo de Cavaleiros

D. Maria José Pinto Borges de Campos

 

* Gebelim, Alfândega da Fé

 



[1] Ou a 18 de Fevereiro de 1914.



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Sábado, 1 de Outubro de 2011
Rancho Folclórico de Freixiel: Vídeo

Actuação do Rancho Folclórico e Etnográfico de Freixiel em Carvalho de Egas, freguesia do concelho de Vila Flor, no passado dia 14 de Agosto de 2011.



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Domingo, 25 de Setembro de 2011
CANTIGAS POPULARES DE TRÁS-OS-MONTES XXII

PADEIRINHA

 

Ó Margarida moleira

Dá-me a tua farinha;

Qu’eu te picarei a mó

Com picão de prata fina.

 

A padeirinha, peneira o pão,

A padeirinha, bate a peneira;

O meu coração é trigo

Vai ser moído na pedra alveira.

 

Se for a tua vontade

Assim como é da minha;

Ajunta-se em teu coração

O rolão com a farinha.

 

A padeirinha, peneira o pão,

A padeirinha, bate a peneira;

O meu coração é trigo

Vai ser moído na pedra alveira.

 

Oh, que lindos olhos tem

A filha da padeirinha!

Que mal empregados olhos

Andar ao pó da farinha!

 

Cantiga popular recolhida em Candoso, aldeia de Vila Flor, por Jofre de Lima Monteiro Alves.

Fraga do Ovo, em Candoso, freguesia do concelho de Vila Flor. Fotografia de Jofre de Lima Monteiro Alves.



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Segunda-feira, 19 de Setembro de 2011
Uma Grande Figura de Vila Flor: ALEXANDRE DA COSTA VAZ

Por: Jofre de Lima Monteiro Alves

 

    Alexandre Manuel da Costa Vaz nasceu em Vila Flor a 22 de Setembro de 1856, faz agora 155 anos. Era filho dilecto de Bento José Vaz e de sua segunda mulher D. Ana Tomásia da Costa Pequeno Vaz; neto pela via paterna do dr. Domingos José Vaz, natural da freguesia de Nossa Senhora da Expectação de Valverde, então do concelho de Lamas de Orelhão, hoje do concelho de Mirandela, e de D. Maria Angélica da Costa Vaz, natural do lugar de Valverde da Estiveira, freguesia de Santa Maria Maior de Valpaços; neto materno do dr. Manuel José da Costa Pequeno, natural de Valverde da Estiveira, lugar da freguesia de Santa Maria Maior de Valpaços, e de D. Maria do Rosário da Silva, natural da freguesia de São Bartolomeu de Vila Flor.

 

    Nascido em berço de ouro e dotado das melhores qualidades humanas, estava destinado aos altos voos, ocupando, por isso, diversos cargos na governança local, fruto da sua jerarquia social e dos seus elevados predicados.

 

    Foi irmão da Irmandade da Santa Casa da Misericórdia de Vila Flor em 29 de Junho de 1878, membro da Junta Escolar de Vila Flor em 1884, juiz substituto do Juiz Ordinário do Julgado de Vila Flor em 1884, vogal da Junta Fiscal das Matrizes Prediais e dos Repartidores da Contribuição de Vila Flor em 1890, vereador da Câmara Municipal de Vila Flor, administrador do concelho de Vila Flor em 1894/1895 e presidente da Comissão Executiva da Câmara Municipal de Vila Flor em 1918.

 

    Casou a 14 de Julho de 1887 com D. Adelaide Augusta de Sá Tenreiro, nascida a 18 de Janeiro de 1849, filha natural reconhecida de João Diogo Tenreiro de Figueiredo Monteiro de Mello e de Eugénia Augusta de Sá; neta paterna do capitão Manuel Diogo Monteiro de Figueiredo Tenreiro e de D. Ana Raquel do Sil Carneiro Leite Pereira de Madureira; neta pela via materna de Maria Joaquina de Sá.

 

    Alexandre da Costa Vaz faleceu em Vila Flor a 28 de Janeiro de 1921, aos 65 anos incompletos e o seu funeral foi eloquente manifestação do apreço e respeito que rodeava a sua figura pública.

 

Vista parcial de Vila Flor na década de 1980. Colecção de Jofre de Lima Monteiro Alves e Maria de Fátima Amaral.

 



Publicado por Jofre de Lima Monteiro Alves às 01:01
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